⏳ Áudio em breve
O temporal que atingiu Ribeirão Preto e municípios vizinhos na madrugada de 24 de julho matou uma pessoa, destruiu casas e empresas e deixou cerca de 115 mil clientes sem energia. Nas horas seguintes, moradores e parte da cobertura chamaram o fenômeno de tornado. Os meteorologistas que analisaram o caso chegaram a outra conclusão: foi uma microexplosão.
A distinção não é preciosismo técnico. Ela muda o que se pode esperar do fenômeno, como ele é previsto e o que a defesa civil comunica à população.
Por que não foi tornado
O argumento decisivo não foi a velocidade do vento — foi a geografia do estrago.
Um tornado é uma coluna de ar em rotação com base estreita. Ele percorre uma faixa relativamente fina, deixando destruição concentrada ao longo de um caminho. No tornado confirmado em São José dos Pinhais, no Paraná, em janeiro, o trajeto teve cerca de um quilômetro.
Em Ribeirão Preto, os danos apareceram simultaneamente numa área extensa, atingindo também Guariba, Taquaritinga, Dumont, Pradópolis e Barrinha. Segundo a análise da Climatempo, esse padrão é incompatível com um tornado — e característico de uma microexplosão, ou de uma sequência delas.
A microexplosão funciona ao contrário do tornado. Em vez de subir girando, uma massa de ar carregada de chuva desaba da nuvem de uma vez e, ao bater no solo, se espalha radialmente. É como derramar um balde no chão: a água não gira, ela se abre para todos os lados a partir do ponto de impacto.
Um detalhe que qualquer pessoa pode observar
Depois que a tempestade passa, o padrão dos destroços denuncia o fenômeno.
Num tornado, as coisas caem para dentro: árvores e postes apontam em direção ao eixo por onde o vórtice passou, e é comum encontrar objetos torcidos, sinal da rotação.
Numa microexplosão, caem para fora: tudo aponta para longe de um ponto central, num padrão que lembra uma explosão vista de cima — daí o nome.
É esse critério que os meteorologistas aplicam quando vão a campo, e é ele que sustenta boa parte das confirmações e dos descartes de tornado no Brasil.
Os números que não fecham
Sobre a intensidade do vento em Ribeirão Preto, as fontes divergem — e vale registrar a divergência em vez de escolher uma.
O Instituto Agronômico apontou rajadas de até 160 km/h. A prefeitura trabalhou com a faixa de 70 a 120 km/h. Não há, até o fechamento desta reportagem, um laudo que concilie os dois números.
Em qualquer dos cenários, a força é comparável à de um tornado de baixa intensidade. Microexplosões costumam gerar rajadas entre 138 e 177 km/h, equivalentes a um tornado EF1 — e, em casos extremos, podem ultrapassar 200 km/h. Ou seja: dizer que não foi tornado não diminui a gravidade do que aconteceu.
O caso não foi isolado
Ribeirão Preto foi o episódio com maior repercussão, mas 2026 registrou outras microexplosões prováveis no país — duas delas no Rio Grande do Sul, em Eldorado do Sul e Não-Me-Toque, ambas em julho, e uma confirmada oficialmente pelo Simepar em Campina Grande do Sul, no Paraná, em fevereiro.
No mapa abaixo, esses eventos aparecem em azul, e os tornados em vermelho e laranja. Clicando em cada ponto, é possível ver quem confirmou o fenômeno e por qual método.
Carregando o mapa…
· Veja o levantamento completo: Tornados e microexplosões: o mapa do tempo severo no Brasil em 2026
· Entenda o processo: Como se confirma um tornado no Brasil
Por que a previsão falha
Microexplosões são especialmente difíceis de antecipar. Elas se formam e se dissipam em minutos, numa escala pequena demais para os modelos de previsão convencionais, e sua detecção depende de radar meteorológico com cobertura próxima.
Essa dificuldade tem um capítulo dramático na história da aviação. Depois de uma sequência de acidentes nos Estados Unidos atribuídos a correntes descendentes — o mais conhecido deles em Dallas, em 1985, com 137 mortos —, os aeroportos americanos passaram a adotar radares meteorológicos específicos e sistemas de alerta de cortante de vento. O fenômeno que derrubou aquele avião é o mesmo que destelhou casas no interior paulista.
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