Viver no Brasil custa, em média, R$ 3.520 por mês — mais que o dobro do salário mínimo de R$ 1.621. O número vem da pesquisa “Custo de Vida no Brasil”, da Serasa em parceria com o instituto Opinion Box, e esconde um país de várias realidades: no Sul, o custo médio chega a R$ 3.940; no Nordeste, fica em R$ 2.760. Esta reportagem mapeia os gastos categoria por categoria e confronta o levantamento com o cálculo do DIEESE — que chega a um número muito maior, e por um motivo que vale entender.
📊 A PESQUISA: realizada pelo Instituto Opinion Box para a Serasa, com 6.063 brasileiros entrevistados entre 22 de dezembro de 2025 e 6 de janeiro de 2026. Margem de erro geral de 1,2 ponto percentual. Os valores médios consideram apenas quem declarou ter aquele tipo de despesa no orçamento.
O retrato geral: R$ 3.520 por mês
A pesquisa somou dez categorias de gastos: moradia, contas recorrentes, supermercado, alimentação fora de casa, transporte, saúde e atividade física, educação, lazer, compras em geral e serviços de cuidados pessoais. O resultado — R$ 3.520 mensais em média — é uma fotografia do brasileiro conectado, e três categorias concentram sozinhas 57% de todo o orçamento: supermercado, contas recorrentes e moradia.
O dado mais revelador talvez não seja o valor, e sim a percepção: apenas 19% dos entrevistados consideram fácil gerenciar pagamentos e despesas do dia a dia, e 7 em cada 10 afirmam que o custo de vida aumentou nos últimos 12 meses. Ainda assim, só 1 em cada 10 cogita mudar de cidade em 2026 para reduzir despesas — o desafio, para a maioria, está em reorganizar o orçamento, não em mudar de endereço.
Onde o dinheiro vai: categoria por categoria
Os valores médios nacionais, segundo o levantamento:
🏠 Moradia (aluguel, condomínio ou financiamento): R$ 1.100 — o maior peso individual. No Sul, sobe a R$ 1.310; no Nordeste, cai a R$ 800.
🛒 Supermercado: R$ 930 — R$ 1.110 no Sul, R$ 780 no Nordeste.
📄 Contas recorrentes (água, luz, internet, streaming): R$ 520 — R$ 590 no Centro-Oeste, R$ 420 no Nordeste.
🎓 Educação: R$ 620 — puxada pelo Sudeste (R$ 730) e pelo Sul (R$ 700); no Norte, R$ 420.
🏥 Saúde e atividade física: R$ 540, com Sul e Sudeste nos maiores patamares.
🛍️ Compras em geral (calçados, cosméticos, pets): R$ 390.
🚌 Transporte e mobilidade: R$ 350 — R$ 410 no Sul, R$ 270 no Nordeste.
🎭 Lazer: R$ 340 — R$ 400 no Sul, R$ 270 no Nordeste.
E em São Paulo?
A capital paulista aparece acima da média nacional nas despesas centrais: o gasto com alimentação em casa chega a R$ 1.070 por mês, a moradia sobe a R$ 1.310 e as contas recorrentes ficam em R$ 560. É o retrato de uma cidade onde os serviços são abundantes, mas o metro quadrado e o carrinho de supermercado cobram caro por isso.
🗺️ AS PONTAS DO MAPA: o custo de vida médio mensal mais alto do país está no Sul (R$ 3.940) e o mais baixo no Nordeste (R$ 2.760) — uma diferença de R$ 1.180 por mês, ou mais de R$ 14 mil por ano, para o mesmo conjunto de despesas.
Serasa diz R$ 3.520. O DIEESE diz R$ 8.110. Quem está certo?
Os dois — porque medem coisas diferentes, e é aqui que boa parte da imprensa se confunde ao noticiar os levantamentos como se fossem concorrentes.
A pesquisa da Serasa é declaratória: pergunta ao brasileiro quanto ele efetivamente gasta. Quem corta lazer, adia consulta médica ou divide moradia para caber no orçamento responde com o gasto já espremido pela renda que tem. É um retrato do consumo possível, não do consumo necessário.
O DIEESE faz o caminho oposto: parte do que a Constituição determina que o salário mínimo deveria cobrir (alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência, para uma família de quatro pessoas) e calcula quanto isso custaria de fato, usando como base a cesta básica mais cara do país. Em junho de 2026, com a cesta de São Paulo a R$ 965,47 — a mais cara entre as 27 capitais —, o salário mínimo necessário calculado pelo DIEESE chegou a R$ 8.110,92: cinco vezes o piso nacional vigente.
Em resumo: a Serasa mede o que as famílias conseguem gastar; o DIEESE mede o que elas precisariam ganhar. A distância entre os dois números — mais de R$ 4.500 — é a medida do aperto silencioso do orçamento brasileiro.
O alimento como vilão do semestre
O levantamento do DIEESE com a Conab mostra que, no primeiro semestre de 2026, todas as 27 capitais registraram alta acumulada no preço da cesta básica — de 4,02% em São Luís a 21,48% em Fortaleza. Em junho, o grande vilão foi o feijão, mais caro em todas as cidades pesquisadas, pressionado pela redução da área plantada e por adversidades climáticas que comprometeram as safras. Arroz agulhinha, carne bovina de primeira e leite integral também subiram.
Para quem ganha o salário mínimo, o efeito é direto: a comida consome uma fatia cada vez maior da renda, e sobra menos para as demais oito categorias de despesa que a Serasa mapeou.
O que fazer com esses números
Três usos práticos para o leitor: 1) compare seu gasto por categoria com a média da sua região — desvios grandes em uma única categoria são o primeiro alvo de ajuste; 2) se as três despesas centrais (mercado, contas e moradia) passarem de 60% da sua renda, o orçamento está em zona de risco para imprevistos; 3) use o número do DIEESE como referência de renda familiar necessária ao planejar mudanças de carreira, cidade ou composição de renda — ele é a régua constitucional, não a média do aperto.
📰 Fontes primárias: Pesquisa “Custo de Vida no Brasil” — Serasa/Instituto Opinion Box (coleta dez/2025–jan/2026, divulgada em fev/2026); Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos — DIEESE/Conab (junho/2026). Valores conferidos diretamente nos materiais oficiais das instituições em 12 de julho de 2026.
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