⏳ Áudio em breve
Uma plataforma nacional contabiliza 81 tornados no Brasil em 2026. Listas curadas apontam pouco mais de vinte confirmados em toda a América do Sul no mesmo período. E o mapa do AlexNews mostra catorze eventos. Os três números estão corretos — e medem coisas diferentes.
Entender a diferença é entender por que a estatística de tornados no Brasil é tão frágil, e por que qualquer manchete com número redondo sobre o assunto merece desconfiança.
O que a plataforma nacional conta
A base mais citada na cobertura brasileira reúne registros de tempo severo desde 2018, com apoio de universidades e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, além do trabalho voluntário de meteorologistas. Ela coleta relatos de redes sociais e da imprensa, que depois passam por verificação, com atribuição de coordenadas e horário estimado a partir de radar e satélite.
É um trabalho valioso e provavelmente a melhor fotografia disponível do fenômeno no país. Mas a própria plataforma faz duas ressalvas que raramente aparecem nas reportagens que citam seus números.
A primeira: os registros de tornado incluem trombas d’água — os funis que se formam sobre água, tecnicamente parentes dos tornados, mas com dinâmica e impacto distintos.
A segunda, mais importante: alguns registros são múltiplos pontos de dano associados a um mesmo tornado, ou várias ocorrências de tempo severo ligadas à mesma tempestade.
Ou seja, os 81 são uma contagem bruta de registros, não uma lista de 81 tornados distintos. E não existe, publicamente, o detalhamento que permita separar uma coisa da outra.
O que as listas curadas contam
No outro extremo estão as listas que exigem, para cada evento, citação dedicada e, sempre que possível, classificação na escala Fujita atribuída por um órgão reconhecido. Não contam trombas d’água nem repetem pontos de dano do mesmo fenômeno.
São inevitavelmente incompletas — dependem de que alguém tenha documentado o caso — mas cada linha corresponde a um tornado individual verificável. Daí o número muito menor.
E o levantamento acadêmico
Há ainda uma terceira via. A Universidade Estadual de Ponta Grossa catalogou 581 tornados no Brasil entre 1975 e 2018, com cerca de 70% na Região Sul, sendo o Rio Grande do Sul o estado mais atingido. A mesma equipe contabilizou 28 tornados no país em 2024 — número muito mais conservador que o da plataforma de registros no mesmo período.
A tese de doutorado que originou a afirmação de que o Brasil é o segundo país mais propenso a tornados, defendida na Unicamp em 2012, catalogou 205 eventos entre 1990 e 2011. Vale notar que pesquisadores da área, embora concordem com a posição do Brasil no ranking, registram discordâncias metodológicas com aquele estudo.
Por que este mapa mostra catorze
O critério do AlexNews foi o mais restritivo dos três: só entra no mapa o evento que tem data, município, coordenada, quem confirmou, por qual método e uma fonte consultável. Sem esses seis dados, não entra.
O resultado são catorze eventos: quatro tornados confirmados por órgão técnico, cinco relatados sem confirmação, uma microexplosão confirmada, três avaliadas como prováveis e uma nuvem funil que não chegou a tocar o solo.
Isso não significa que só houve catorze fenômenos no Brasil em 2026. Significa que catorze foi o que se pôde sustentar publicamente, um a um. A diferença entre esse número e os 81 não é erro de ninguém — é o tamanho da lacuna de documentação que existe no país.
Carregando o mapa…
· O mapa evento a evento: Tornados e microexplosões no Brasil em 2026
· Como cada evento é validado: Como se confirma um tornado no Brasil
A subnotificação é o problema de fundo
Todos os números citados aqui convivem com a mesma limitação: o Brasil não tem um serviço oficial que percorra sistematicamente cada evento de tempo severo, faça a inspeção de danos e emita um laudo padronizado, como ocorre nos Estados Unidos.
O que existe é um mosaico: institutos estaduais como o Simepar e a Epagri, defesas civis municipais e estaduais com capacidade desigual, empresas privadas de meteorologia, grupos universitários e uma rede de voluntários. Cada um com método próprio e alcance limitado.
Enquanto for assim, tornado que acontece sobre lavoura sem testemunha continua não existindo na estatística. E o aumento dos registros vai continuar sendo, em parte, apenas o efeito de haver mais gente com celular na mão.
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