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Quem encomenda as pesquisas eleitorais no Brasil — o que mostram os registros do TSE

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Toda pesquisa eleitoral divulgada no Brasil precisa ser registrada na Justiça Eleitoral antes de vir a público. O registro informa quem fez, quando foi a campo, quantas pessoas ouviu, qual metodologia usou, quanto custou e quem contratou. É uma das poucas transparências obrigatórias do setor — e quase ninguém consulta.

O AlexNews baixou esses registros nos dados abertos do Tribunal Superior Eleitoral e organizou o que eles mostram sobre 2026. São 1.492 pesquisas registradas até 9 de agosto, feitas por 187 institutos e contratadas por 322 empresas, veículos, partidos e entidades, com valor declarado de R$ 88,6 milhões.

Os números ajudam a entender como funciona um mercado que influencia a leitura da eleição — e que o eleitor conhece pouco.

1.492Pesquisas registradasem 2026, até 9 de agosto de 2026
R$ 88,6 miValor declaradosomando todas as pesquisas
R$ 46,0 miEfetivamente pagodeclarado pelos contratantes
658Sem pagamentoR$ 42,4 mi em pesquisas próprias
187Institutosregistraram ao menos uma pesquisa
322Contratantesempresas, veículos, partidos e entidades

Quem encomenda pesquisa no Brasil

A imagem mais comum é a de partidos contratando levantamentos para calibrar campanha. Os dados mostram um quadro diferente: quem mais aparece contratando pesquisa são veículos de comunicação e instituições financeiras.

Quem paga pelas pesquisas eleitorais

Valor declarado por tipo de contratante · 2026 até 9 de agosto de 2026

Veículos de comunicaçãoR$ 17,8 mi
649 contratos · média de R$ 27 mil por contrato
Bancos e mercado financeiroR$ 14,1 mi
58 contratos · média de R$ 243 mil por contrato
Empresas e outrosR$ 11,0 mi
779 contratos · média de R$ 14 mil por contrato
Entidades de classeR$ 1,7 mi
25 contratos · média de R$ 67 mil por contrato
Partidos políticosR$ 1,5 mi
13 contratos · média de R$ 113 mil por contrato

Veículos de comunicação lideram em número de contratos — são 650 no ano. Já os bancos e casas de investimento aparecem com menos contratos, mas de valor bem maior: a média por contrato do setor financeiro é cerca de nove vezes a dos veículos.

A explicação é mais simples do que parece. Cenário eleitoral move mercado, e instituições financeiras compram esse tipo de informação como insumo de análise para clientes — divulgá-la publicamente é, ao mesmo tempo, serviço e visibilidade. Veículos, por sua vez, encomendam pesquisas como conteúdo jornalístico, geralmente com periodicidade fixa.

Os partidos aparecem com treze contratos declarados em todo o ano. Vale a ressalva: isso não significa que legendas não usem pesquisa. Significa que, no registro público, poucas figuram como contratantes diretas — a maior parte do que circula no debate público vem de levantamentos encomendados por outros atores.

Os maiores contratantes

Um único contratante concentra a maior fatia: o Banco Genial, com R$ 12,45 milhões em 48 contratos, todos com o instituto Quaest. É a origem da série Genial/Quaest, uma das mais citadas pela imprensa brasileira. O BTG Pactual aparece com R$ 1,65 milhão em dez contratos.

Entre os veículos, destacam-se a Empresa Folha da Manhã, com R$ 2,59 milhões em dez contratos, e emissoras regionais — o Sistema Timon de Radiodifusão, do Piauí, soma 28 contratos.

Quem mais contrata pesquisa no Brasil

Por valor pago declarado à Justiça Eleitoral

ContratanteTotal pagoMédia por contrato
Banco Genial S.a.48 contratosR$ 12,5 miR$ 259 mil
Futura Consultoria E Assessoria Ltda34 contratosR$ 3,5 miR$ 102 mil
Empresa Folha Da Manha S.a.10 contratosR$ 2,6 miR$ 259 mil
Banco Btg Pactual S.a.10 contratosR$ 1,6 miR$ 165 mil
Partido Liberal (Pl)9 contratosR$ 1,2 miR$ 135 mil
Sistema Timon De Radiodifusao Ltda.28 contratosR$ 843 milR$ 30 mil
Don7 Media Ltda6 contratosR$ 770 milR$ 128 mil
Confederacao Nacional Do Transporte3 contratosR$ 690 milR$ 230 mil
Realtime1 Portal De Noticias Ltda2 contratosR$ 675 milR$ 338 mil
Radio Costa Do Sol Ltda6 contratosR$ 540 milR$ 90 mil

Valores declarados pelos próprios contratantes no registro da pesquisa, sem auditoria prévia da Justiça Eleitoral.

Saber quem paga não desqualifica um levantamento. Instituto sério trabalha com metodologia declarada e registro na Justiça Eleitoral independentemente do contratante. Mas é uma informação de contexto útil: ajuda a entender por que certas séries têm a periodicidade que têm e por que testam determinados cenários.

Os institutos e o modelo de pesquisa própria

Nos registros de 2026, 658 das 1.492 pesquisas constam como realizadas sem contratante pagante — são as chamadas pesquisas próprias, em que o instituto figura como contratante de si mesmo e o valor pago declarado é zero.

A prática é legal e mais comum do que se imagina. Institutos realizam levantamentos por conta própria para se posicionar no mercado, testar metodologia, ganhar visibilidade na imprensa e demonstrar capacidade técnica a clientes potenciais. O registro informa o valor atribuído ao trabalho — que é o custo estimado, não um pagamento recebido.

Os institutos que mais registram pesquisas

Por número de registros em 2026

InstitutoPesquisasValor declarado
Instituto Verita Ltda97% sem contratante pagante189R$ 24,4 mi
Real Time Midia Ltda100% sem contratante pagante99R$ 5,6 mi
Instituto Parana De Pesquisas E Analise De Consumidor Ltda50% sem contratante pagante66R$ 4,3 mi
Quaest Pesquisas, Consultoria E Projetos Ltda.0% sem contratante pagante58R$ 14,3 mi
Atlasintel Tecnologia De Dados Ltda71% sem contratante pagante42R$ 3,0 mi
Seta Instituto De Pesquisa Ltda75% sem contratante pagante40R$ 473 mil
100% Cidades Participacoes Ltda0% sem contratante pagante36R$ 3,6 mi
Sms - Direct Pesquisas E Marketing Ltda25% sem contratante pagante36R$ 314 mil
Instituto Piauiense De Opiniao Publica Ltda - Epp0% sem contratante pagante29R$ 690 mil
Instituto Gazeta Ltda0% sem contratante pagante26R$ 154 mil

"Sem contratante pagante" indica pesquisa própria: o instituto figura como contratante de si mesmo e o valor pago declarado é zero.

O Instituto Verita lidera em número de registros, com 195 pesquisas presentes nos 27 estados e no recorte nacional. A Quaest aparece com forte concentração em pesquisas contratadas.

São modelos de negócio distintos, e ambos existem no mercado: institutos que operam majoritariamente sob encomenda e institutos que produzem em volume por conta própria, monetizando por outras vias — assinaturas, consultoria, contratos privados não vinculados à divulgação.

Quanto custa uma pesquisa

A pesquisa mediana de 2026 custou R$ 35 mil e ouviu 1.220 pessoas, o que dá cerca de R$ 25 por entrevista. Mas a variação é grande, e ela tem explicação técnica.

Pesquisa presencial é a mais cara. Exige entrevistadores em campo, deslocamento, supervisão e controle de qualidade. Pode passar de R$ 200 por entrevista.

Pesquisa telefônica ou digital custa uma fração disso. Sem deslocamento e com aplicação automatizada, o custo por entrevista cai bastante — o que permite amostras maiores pelo mesmo orçamento.

Por isso comparar apenas o preço de duas pesquisas diz pouco. O que importa é o que o método entrega: a presencial alcança melhor quem tem baixa conectividade; a digital, quem não abre a porta para entrevistador.

Onde mais se pesquisa — e por quê

A distribuição geográfica é o dado mais contraintuitivo do levantamento. O Piauí, com cerca de 3,3 milhões de habitantes, teve 113 pesquisas registradas. São Paulo, com 44 milhões, teve 45.

Onde mais se pesquisa

Pesquisas registradas por estado · não inclui as 569 de âmbito nacional

EstadoPesquisasValor declarado
Piauí19 institutos113R$ 2,3 mi
Goiás20 institutos91R$ 2,4 mi
Rio Grande do Norte22 institutos64R$ 1,6 mi
Paraíba11 institutos58R$ 753 mil
Sergipe12 institutos49R$ 1,5 mi
São Paulo21 institutos45R$ 3,2 mi
Pernambuco17 institutos43R$ 2,4 mi
Rio de Janeiro9 institutos34R$ 3,3 mi
Pará11 institutos33R$ 2,1 mi
Paraná13 institutos31R$ 2,4 mi
Maranhão11 institutos31R$ 1,6 mi
Amazonas16 institutos29R$ 2,3 mi

O número de pesquisas num estado reflete o custo de campo e o mercado de mídia local, não a importância eleitoral.

Dois fatores explicam. O custo de campo é muito menor em estados de menor extensão e população: ouvir mil pessoas no Piauí sai por uma fração do que custa em São Paulo, que exige cobrir centenas de municípios e uma região metropolitana enorme. E há mercado de mídia regional ativo — emissoras e portais locais encomendando levantamentos com frequência alta.

A lição para quem lê pesquisa: o volume de levantamentos num estado reflete a economia do setor, não a importância eleitoral da disputa.

O campo que quase não se preenche

O formulário de registro tem um campo destinado à origem do recurso usado na contratação. Na prática, ele é pouco utilizado: a maior parte dos registros fica em branco ou na categoria genérica “Outros”.

De onde vem o dinheiro das pesquisas

Origem do recurso declarada no registro

Origem declaradaRegistrosValor
Não informada51,6% dos registros787R$ 3,6 mi
Outros47,2% dos registros720R$ 41,6 mi
Fundo Partidário1,0% dos registros15R$ 645 mil
Doações Eleitorais0,1% dos registros2R$ 124 mil

O campo é de preenchimento do contratante. Na prática, quase todos os registros ficam em branco ou na categoria genérica "Outros".

Apenas dezessete registros, em quase mil e quinhentos, especificam origem — quinze indicando Fundo Partidário e dois, doações eleitorais.

Isso não configura irregularidade: a legislação não exige detalhamento nesse campo, e a Justiça Eleitoral não faz controle prévio do conteúdo dos registros, atuando apenas quando provocada. O campo existe, mas seu preenchimento detalhado é facultativo na prática.

Fica, porém, uma constatação útil para o debate público: a transparência das pesquisas alcança quem fez, como fez e quem contratou — mas não chega à origem do dinheiro. É um limite do desenho atual, e vale conhecê-lo antes de tirar conclusões sobre o que os registros provam ou deixam de provar.

O ritmo até outubro

Em janeiro foram 52 pesquisas registradas. Em julho, 312 — seis vezes mais.

O ritmo das pesquisas em 2026

Registros por mês no sistema do TSE

52 pesquisas · R$ 2,8 mi52jan82 pesquisas · R$ 4,2 mi82fev247 pesquisas · R$ 18,1 mi247mar209 pesquisas · R$ 13,1 mi209abr272 pesquisas · R$ 14,9 mi272mai232 pesquisas · R$ 13,8 mi232jun312 pesquisas · R$ 18,4 mi312jul86 pesquisas · R$ 3,3 mi86ago

O último mês pode estar incompleto, conforme a data de fechamento dos dados.

Com a propaganda eleitoral começando em 16 de agosto e a votação em 4 de outubro, o volume tende a crescer ainda mais. Quanto mais pesquisas circulando, maior a chance de duas se contradizerem no mesmo dia — e mais útil saber ler o que está por trás de cada uma.

Como usar essa informação

Procure o número de registro. Toda pesquisa divulgada legalmente tem protocolo no formato BR-00000/2026, consultável no site do TSE. Sem ele, é enquete — que não tem valor estatístico e é proibida em período eleitoral.

Veja quem contratou. A informação é pública e consta do registro. Não desqualifica ninguém, mas ajuda a entender a periodicidade e os cenários testados.

Confira o método. Presencial, telefônica e digital alcançam públicos diferentes. Duas pesquisas com métodos distintos podem divergir sem que nenhuma esteja errada.

Olhe o período de campo, não o de divulgação. Pesquisa a campo antes de um fato relevante já nasce desatualizada.

Respeite a margem de erro. Diferença menor que a margem é empate técnico, não vantagem.

Como este levantamento foi feito

O AlexNews baixou os conjuntos de dados abertos do Tribunal Superior Eleitoral referentes às pesquisas eleitorais de 2026 — registros, contratantes e pagantes —, gerados pelo tribunal em 10 de agosto de 2026, com dados até 9 de agosto. Os registros foram desduplicados pelo número de protocolo, já que o arquivo nacional repete os estaduais.

Todos os valores são os declarados pelos próprios institutos e contratantes à Justiça Eleitoral. A classificação dos contratantes por tipo foi feita pela reportagem a partir da razão social declarada, e casos limítrofes podem ter sido enquadrados de forma discutível.

Este é um retrato do que os registros públicos mostram, não uma auditoria do setor. Diferenças nos valores declarados podem decorrer de critérios contábeis distintos entre empresas, e a reportagem não atribui intenção a nenhuma discrepância.

Fonte: Portal de Dados Abertos do Tribunal Superior Eleitoral, conjuntos “Pesquisas Eleitorais 2026”, “Contratantes” e “Pagantes”. Base legal: Lei nº 9.504/1997, artigos 33 a 35, e Resolução TSE nº 23.600/2019. Dados com fechamento em 9 de agosto de 2026; o número de registros cresce semanalmente até a eleição.

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