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Um terremoto de magnitude 7,4 atingiu o oeste da Colômbia na manhã de segunda-feira (10) e deixou mais de 220 mortos, segundo o balanço mais recente das autoridades. É o abalo mais forte registrado no país neste século, e o número de vítimas deve subir à medida que as equipes de resgate avançam sobre os escombros.
O epicentro foi localizado próximo a San José del Palmar, no departamento do Chocó, a cerca de 400 quilômetros a oeste de Bogotá. O tremor ocorreu às 7h34 no horário local e foi sentido em grande parte do território colombiano, além de Equador, Venezuela e Panamá.
O presidente Abelardo de la Espriella, que tomou posse três dias antes, declarou estado de desastre nacional.
As cidades mais atingidas
O maior número de vítimas não está no epicentro, e isso tem explicação técnica — voltaremos a ela adiante.
Cali — pelo menos 85 mortos. Terceira maior cidade do país, com 2,2 milhões de habitantes. Prédios desabaram e parte de unidades hospitalares foi danificada, obrigando a transferência de pacientes e a montagem de estruturas de emergência do lado de fora. 188 pessoas seguem desaparecidas na cidade.
Pereira — pelo menos 66 mortos, segundo a Associação Colombiana de Cidades Capitais.
Chocó — pelo menos 13 mortos no departamento onde ficou o epicentro, uma das regiões mais pobres do país.
O balanço oficial contabiliza ainda 61 prédios colapsados, 18 centros de saúde avariados e 52 instituições de ensino afetadas. Seis aeroportos ficaram inoperantes para voos comerciais.
Até a manhã desta terça-feira, o serviço geológico colombiano havia registrado 47 tremores secundários — as réplicas —, sendo a primeira delas de magnitude 5,0, cerca de 45 minutos após o abalo principal.
Por que um terremoto profundo atinge tão longe
Aqui está o dado que explica boa parte da tragédia, e que a cobertura apressada costuma deixar de fora: o terremoto ocorreu a cerca de 110 quilômetros de profundidade.
Terremotos rasos, de poucos quilômetros, concentram a destruição numa área relativamente restrita ao redor do epicentro. Já os de profundidade intermediária, como este, liberam energia que se propaga por uma área muito maior — o que explica o tremor ter sido sentido em quatro países e ter matado mais gente a centenas de quilômetros do epicentro do que na região onde ele ocorreu.
A mecânica do evento também é específica. Segundo a análise sismológica, não se tratou de um terremoto na zona de contato entre duas placas, e sim de uma ruptura dentro da própria placa de Nazca, enquanto ela mergulha para leste sob a placa Sul-Americana ao longo da Fossa Equador-Colômbia. É o que os geólogos chamam de evento intraplaca por falha transcorrente.
A Colômbia fica numa das regiões tectonicamente mais complexas do continente, marcada pela convergência de três estruturas: a placa de Nazca, a placa Sul-Americana e o bloco do Panamá, ligado à placa do Caribe.
A divergência inicial na magnitude
Vale um registro sobre como a informação sismológica se consolida, porque houve divergência nas primeiras horas — e ela não foi erro de ninguém.
O Serviço Geológico Colombiano divulgou inicialmente magnitude 6,6. Ao longo do dia, tanto o órgão colombiano quanto o USGS, seu equivalente americano, revisaram o número para 7,4.
Revisões desse tipo são rotina. As primeiras estimativas saem em minutos, com dados de poucas estações; a magnitude definitiva exige o registro de uma rede ampla de sismógrafos e o processamento completo das ondas. A diferença não é pequena: a escala é logarítmica, e de 6,6 para 7,4 significa aproximadamente dezesseis vezes mais energia liberada.
Também é oportuno lembrar que a escala Richter, mencionada com frequência na cobertura, foi substituída na prática pela magnitude de momento (Mw), que mede melhor os grandes terremotos. Quando um órgão oficial informa 7,4, é dessa escala que se trata.
A memória de 1999
Para os moradores da região cafeeira, a tragédia reabre uma ferida específica. Em janeiro de 1999, um terremoto atingiu justamente essa área e deixou cerca de 1.200 mortos, com destruição severa em Armênia e Pereira.
Pereira, uma das cidades mais atingidas agora, está entre as que mais sofreram naquele episódio. “Eu me sinto derrotada. É triste demais ver a cidade inteira assim, sabendo que ainda há gente com vida”, disse à imprensa uma moradora que acompanhava as buscas.
A resposta internacional
Os Estados Unidos ofereceram 15,5 milhões de dólares em ajuda emergencial. A União Europeia colocou à disposição o serviço de satélites Copernicus para apoiar as operações de resgate — imagens orbitais ajudam a mapear áreas de colapso e a priorizar equipes.
O governo colombiano determinou o envio de cerca de mil agentes de segurança a Cali e prometeu operação de resgate coordenada.
O que a ciência sabe e o que não sabe
Uma pergunta recorrente depois de tragédias assim é se o terremoto poderia ter sido previsto. A resposta da sismologia é direta: não existe hoje método capaz de prever data, local e magnitude de um terremoto.
O que existe são duas coisas diferentes. O mapeamento de risco, que identifica regiões com alta probabilidade de atividade ao longo de décadas — e a Colômbia está entre elas. E os sistemas de alerta precoce, que detectam as primeiras ondas do terremoto já em curso e ganham segundos preciosos antes da chegada das ondas destrutivas. Segundos que bastam para desligar equipamentos, parar trens e permitir que alguém se abrigue.
Nenhum dos dois evita o terremoto. Ambos reduzem mortes — e a diferença entre um abalo de magnitude 7 num país com código de construção rigoroso e num país sem ele costuma ser contada em milhares de vidas.
Informações do Serviço Geológico Colombiano, do United States Geological Survey (USGS), do governo da Colômbia e da cobertura de agências internacionais. Balanço de vítimas com fechamento na tarde de 11 de agosto de 2026 — os números são preliminares e devem ser revisados conforme avançam as buscas. Esta reportagem será atualizada.
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