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O calor matou 50 mil brasileiros e o país nunca declarou emergência por isso

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Clima · Saúde

O desastre brasileiro que não aparece no noticiário porque não faz barulho

Um estudo com dados do SUS ligou cerca de 50 mil mortes a ondas de calor no Brasil. São vinte vezes mais mortes que os deslizamentos de terra causaram no mesmo período. Nenhuma delas gerou sirene, resgate ou declaração de emergência.

Deslizamento tem imagem. Tem casa descendo o morro, tem bombeiro cavando barro, tem contagem de corpos no fim do dia. O país inteiro para para assistir, e está certo em parar.

Onda de calor não tem nada disso. A pessoa morre em casa, três dias depois do pico da temperatura, e o atestado diz parada cardíaca. Ninguém escreve calor no papel.

É por isso que esse número passa despercebido, e é por isso que ele merece uma matéria agora: o El Niño que está se formando promete o verão mais quente dos últimos tempos.

50 mil
Mortes ligadas ao calor
em 14 regiões metropolitanas
20x
Mais que deslizamentos
no mesmo período
35%
Da população do país
vive nas cidades estudadas
70 mil
Mortos na Europa em 2003
foi o susto que fez o continente agir
🔬

De onde vem esse número

O estudo foi publicado na revista científica Plos One e reuniu pesquisadores da UFRJ, da Fiocruz, da UnB e da Universidade de Lisboa. Uma das autoras é a professora Renata Libonati, do Departamento de Meteorologia da UFRJ.

Eles cruzaram milhões de registros de óbito do SUS com o histórico de temperatura do INMET nas catorze regiões metropolitanas mais populosas do Brasil. Juntas, elas abrigam 35% dos brasileiros.

🗺️ As catorze cidades analisadas

Norte: Manaus e Belém.
Nordeste: Fortaleza, Salvador e Recife.
Sudeste: São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
Sul: Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre.
Centro-Oeste: Goiânia, Cuiabá e Brasília.

Onda de calor tem definição técnica, e ela é mais dura do que a conversa de bar sugere. Pelo critério da Organização Meteorológica Mundial, é quando a temperatura máxima fica de 5°C a 7°C acima da média por pelo menos cinco dias seguidos. Não é um dia quente. É uma semana inteira de forno.

👻

Por que essas mortes ficam invisíveis

Existe um código específico para registrar morte por exposição ao calor. Ele quase nunca é usado.

📋 O que costuma ir escrito no atestado

Doença do coração. Problema respiratório. Complicação do rim. Diabetes descompensada.

O calor não mata sozinho na maioria dos casos. Ele empurra quem já estava no limite. Uma semana de temperatura alta faz o coração de um idoso trabalhar mais, desidrata quem toma remédio para pressão, agrava quem tem problema no pulmão. A morte vem dias depois, com outro nome.

Por isso os pesquisadores não contam atestados que digam calor. Eles comparam quantas pessoas morreram durante e depois das ondas de calor com quantas morreriam num período normal. A diferença é o que chamam de morte atribuível ao calor.

É o mesmo método usado no mundo inteiro para medir excesso de mortes, e foi assim que a Europa descobriu, em 2003, que tinha perdido cerca de 70 mil pessoas numa única onda de calor. Depois daquilo, o continente criou protocolo de alerta, plano de emergência e treinamento. O Brasil, segundo a pesquisadora, está muito atrás nisso.

⚖️

O calor não mata todo mundo igual

Esta é a parte do estudo que menos circulou e que mais diz sobre o país.

Expostos exatamente à mesma temperatura, morrem proporcionalmente mais as mulheres, as pessoas pretas e pardas, os idosos e quem tem menos anos de escola. Em São Paulo, a chance de morrer durante uma onda de calor é 10% maior entre quem estudou até quatro anos, na comparação com quem chegou ao ensino superior.

🏠 Por que o CEP muda o risco

Ninguém morre de calor por causa da escolaridade. Morre por causa do que a escolaridade costuma vir junto no Brasil.

Laje sem forro esquenta mais que telhado com telha e ático. Rua sem árvore ferve mais que rua arborizada. Quem trabalha na rua não escolhe o horário. Quem não tem ar-condicionado, ou não pode pagar a conta de luz dele, atravessa a noite sem descanso térmico. E quem depende do SUS demora mais para ser atendido quando o corpo começa a falhar.

O calor chega igual para a cidade inteira. A capacidade de se proteger dele, não.

🌡️

E agora vem o El Niño

A Organização Meteorológica Mundial divulgou nesta quinta-feira que o El Niño deve alcançar intensidade muito forte antes de atingir o pico, no fim de 2026, com probabilidade perto de 100% de continuar ativo até fevereiro de 2027.

Para o Brasil, isso significa primavera e verão com temperatura acima da média no Centro-Oeste e no Sudeste, ondas de calor mais frequentes e umidade do ar mais baixa. Ou seja, exatamente a condição que o estudo mediu, com mais frequência e por mais tempo.

A própria pesquisadora fez esse alerta em agosto: as ondas de calor podem se tornar mais frequentes e mais intensas com a chegada do novo El Niño, e o Brasil segue tratando o assunto como desconforto, não como desastre.

🧊 O que dá para fazer em casa, sem gastar

Beba água antes de sentir sede. Sede é sinal atrasado, principalmente em idoso, em quem toma remédio de pressão e em criança pequena.

Ligue para os idosos da família nos dias de calor forte, de preferência à tarde. Muita gente mora sozinha e não percebe que está passando mal.

Feche janela e cortina de manhã no lado que pega sol, e abra tudo à noite. Casa de laje segura calor até de madrugada.

Se precisar sair, evite das 10h às 16h. Quem trabalha na rua deve procurar sombra a cada intervalo e não esperar a tontura chegar.

Molhe os pulsos, o pescoço e os pés com água fria. Funciona melhor que banho gelado, que dá alívio curto e faz o corpo reagir esquentando de novo.

Fique de olho nos sinais de perigo: confusão mental, parar de suar mesmo com calor, pele muito quente e seca, desmaio. Nesses casos, procure atendimento na hora.

🧾 Nota de método

Os números vêm do estudo publicado na Plos One por pesquisadores da UFRJ, Fiocruz, UnB e Universidade de Lisboa, e das declarações da professora Renata Libonati reproduzidas pela Agência Brasil e por veículos que a publicaram em agosto de 2026.

Há divergência nas versões que circulam, e ela fica registrada. O artigo científico trata do período de 2000 a 2018 e fala em cerca de 48 mil mortes. As declarações mais recentes da pesquisadora falam em 50 mil mortes entre 2000 e 2020. O volume de registros de óbito analisados aparece como sete milhões numa publicação e como nove milhões em outra. Usei o número redondo de 50 mil no título por ser o que a autora afirma hoje, e deixo aqui a origem de cada versão.

Morte atribuível ao calor é uma estimativa estatística, não uma contagem de atestados. O texto explica o método no corpo da matéria justamente para o leitor saber o que o número é e o que ele não é.

As orientações práticas seguem material de saúde pública sobre exposição ao calor e não substituem avaliação médica. Se alguém apresentar os sinais de perigo listados acima, procure atendimento.

Não falei com os autores do estudo. Este é um portal de uma pessoa só, e a apuração se apoia no artigo publicado e nas entrevistas que a pesquisadora concedeu.

🧭

Leia também

📎

Fontes

Estudo sobre mortalidade associada a ondas de calor nas regiões metropolitanas brasileiras, publicado na revista Plos One, com participação do LASA/UFRJ, da Fiocruz, da UnB e da Universidade de Lisboa.

Declarações da professora Renata Libonati, do Departamento de Meteorologia da UFRJ, publicadas em agosto de 2026.

Critério de onda de calor da Organização Meteorológica Mundial.

Atualização da Organização Meteorológica Mundial sobre o El Niño, divulgada em 3 de setembro de 2026.

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