⏳ Áudio em breve
A projeção passou do recorde histórico, e a comparação exige cuidado
A Organização Meteorológica Mundial divulgou nesta quinta-feira que o El Niño deve chegar a intensidade muito forte antes do pico, no fim de 2026. Os modelos apontam 3,6°C acima da média no Pacífico entre setembro e novembro. O recorde histórico é 2,6°C. Só que os dois números não medem a mesma coisa, e essa diferença muda o tamanho da conclusão.
Vou pela ordem: primeiro o que já foi medido, depois o que é projeção, e no fim a armadilha da comparação.
O que está sendo medido, em uma explicação só
Existe um pedaço do Oceano Pacífico, na altura da linha do Equador, que os cientistas chamam de região Niño 3.4. É ali que se mede a temperatura da superfície do mar e se compara com a média histórica daquele mesmo lugar.
Quando a água fica pelo menos 0,5°C mais quente que o normal e assim permanece, é El Niño. A partir daí existe uma escala:
De 0,5°C a 0,9°C: fraco.
De 1,0°C a 1,4°C: moderado.
De 1,5°C a 1,9°C: forte.
2,0°C ou mais: muito forte, o que a imprensa costuma chamar de Super El Niño.
Uma ressalva que a própria OMM faz e que precisa vir junto: 3,6°C não quer dizer que o Pacífico inteiro vai esquentar 3,6°C, nem que a temperatura do ar vai subir isso em algum lugar. É a diferença da água da superfície, numa área específica, em relação à média dela mesma.
O que já foi medido este ano
Esta parte não é previsão. É termômetro.
Maio: cerca de 0,9°C acima da média.
Média de maio a julho: 1,5°C.
Julho: perto de 2,0°C.
Fim de julho a meados de agosto: medições semanais entre 2,2°C e 2,6°C.
Em três meses o fenômeno saiu de fraco e passou de muito forte. E há um dado que costuma ficar de fora e explica por que ninguém espera que ele pare agora: abaixo da superfície, em algumas áreas, a água estava mais de 8°C acima da média em julho e no começo de agosto.
Água quente escondida no fundo é combustível guardado. Ela vai subindo aos poucos e alimenta o fenômeno por meses. É a diferença entre um El Niño que estufa e murcha e um que se sustenta até o verão.
O que é projeção, e o que ela vale
Os modelos da OMM apontam média de 3,6°C entre setembro e novembro, com novembro isolado chegando a 3,9°C em alguns cenários. O pico é esperado entre novembro e dezembro, e a chance de o fenômeno seguir ativo até fevereiro de 2027 é considerada quase total.
A organização classifica o nível de confiança como excepcionalmente alto, porque os modelos estão concordando entre si, coisa que nem sempre acontece.
📐 Mesmo assim, é projeção
Outras casas que acompanham o fenômeno chegaram a números parecidos e diferentes ao mesmo tempo. Uma atualização de meados de agosto apontou pico perto de 3,5°C. Uma rodada de maio projetava 3,2°C. E em agosto ainda circulava a informação de que o fenômeno estava em 1,8°C, na faixa forte.
Nada disso é contradição. São datas diferentes, modelos diferentes e formas diferentes de calcular a média. O que todas mostram é a mesma direção, que é para cima.
A armadilha da comparação com o recorde
Aqui é onde eu quase escorreguei, e onde vale a pena parar.
A frase pronta seria esta: a projeção é de 3,6°C, o recorde histórico é 2,6°C, logo este será o El Niño mais forte já registrado com folga enorme. A conta parece óbvia. O problema é que os dois números saem de réguas diferentes.
🧮 Três réguas para a mesma água
Anomalia bruta. A temperatura da região comparada com a média histórica dela. É o número de 3,6°C.
ONI. A mesma comparação, só que suavizada em médias de três meses e com a média histórica sendo atualizada de tempos em tempos. É a régua do recorde de 2,6°C, registrado no fim de 2015.
RONI. A régua mais nova, que a NOAA passou a usar. Ela desconta o aquecimento geral dos oceanos tropicais e mede o quanto aquela região está quente em relação ao resto. Como os oceanos do mundo inteiro esquentaram, o RONI dá números menores que a anomalia bruta.
É por isso que o INMET, ao confirmar o fenômeno em junho, falou em 0,7°C, enquanto outras fontes citavam valores maiores no mesmo período. Não é briga de instituto. É régua diferente para a mesma água.
O que dá para afirmar com segurança: as medições e as projeções colocam este evento entre os mais intensos já observados, e a comparação direta de 3,6 contra 2,6 exagera a distância, porque compara régua nova com recorde antigo. Quando o pico passar, a classificação oficial vai sair pela régua do ONI, e é esse número que vai entrar para a série histórica.
O que isso significa aqui embaixo
Água quente no Pacífico não é assunto de outro planeta. Ela muda a circulação da atmosfera inteira e redistribui chuva e calor pelo mundo.
No Brasil o efeito é dividido: mais chuva e risco de enchente no Sul, estiagem no Norte e no Nordeste, calor acima da média e umidade baixa no Centro-Oeste e no Sudeste. A OMM prevê, para o trimestre de setembro a novembro, temperatura acima da média em quase toda a área de terra do planeta.
O período que os meteorologistas apontam como mais delicado por aqui é justamente esse, de setembro a novembro, que é primavera no Hemisfério Sul e coincide com o auge do fenômeno.
🧾 Nota de método
Os números medidos e projetados vêm da atualização da Organização Meteorológica Mundial divulgada em 3 de setembro de 2026, conforme reproduzida pela CNN Brasil e por outros veículos que tiveram acesso ao documento. Não li o boletim original da OMM até o fechamento.
As projeções alternativas citadas vêm de publicações de acompanhamento do fenômeno de maio e de agosto de 2026, e estão datadas no texto justamente por serem de momentos diferentes.
A explicação sobre as três formas de medir foi incluída porque a comparação entre a projeção atual e o recorde histórico circula sem essa ressalva, e ela muda o tamanho da conclusão. Se você viu por aí que este será o El Niño mais forte da história com folga, o cuidado está explicado no corpo do texto.
Projeção de modelo climático não é previsão do tempo. Ela indica tendência e tem margem de incerteza, e o próprio boletim que a divulga diz isso.
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Fontes
Atualização da Organização Meteorológica Mundial sobre o El Niño, divulgada em 3 de setembro de 2026, conforme reportagens de CNN Brasil e outros veículos na mesma data.
Boletins de monitoramento do ENOS do CPTEC/INPE e do INMET, incluindo a confirmação do estabelecimento do fenômeno em junho de 2026.
Centro de Previsão Climática da NOAA, para a escala de intensidade, para o índice ONI e para o índice relativo RONI.
Projeções de agosto e de maio de 2026 publicadas por serviços de acompanhamento do fenômeno, citadas com as respectivas datas.
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