⏳ Áudio em breve
Em março de 2026, três institutos mediram a mesma disputa presidencial e chegaram a resultados diferentes. A Genial/Quaest apontou vantagem de sete pontos para Lula. O Datafolha, de três. E o AtlasIntel mostrou Flávio Bolsonaro à frente por um ponto.
Oito pontos separam o maior do menor resultado — e nenhum dos três está errado. A diferença vem principalmente da metodologia, e entender isso é o que permite ler pesquisa com mais critério.
Esta reportagem acompanha a evolução da intenção de voto ao longo de 2026 a partir das divulgações públicas dos institutos, e mostra por que comparar pesquisas exige mais critério do que somar percentuais.
A curva do ano
A série mais longa e regular é a da Genial/Quaest, com rodadas mensais desde janeiro. Ela permite ver algo que uma pesquisa isolada nunca mostra: a distância entre os dois primeiros colocados não caiu de forma constante — ela encolheu, depois voltou a crescer.
Diferença em pontos percentuais a favor de Lula · abaixo da linha zero, a liderança se inverte
Séries de institutos diferentes não são diretamente comparáveis entre si: variam a metodologia, o período de campo e os cenários testados. A comparação aqui é da tendência de cada série.
Em janeiro, o primeiro levantamento do ano dava a Lula 36% contra 23% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. A diferença foi diminuindo: oito pontos em fevereiro, sete em março, e cinco em abril — a menor do ano.
A partir daí o movimento se inverteu. Em julho, a distância chegou a doze pontos, a maior das seis rodadas realizadas pelo instituto no ano.
Quem acompanhou só as manchetes de abril leu que a disputa estava apertando. Quem leu só as de julho concluiu que Lula disparou. As duas leituras estão certas para o momento em que foram feitas — e nenhuma delas descreve o ano.
Por que os institutos divergem
A diferença entre as medições de março não decorre de má-fé nem de incompetência. Decorre principalmente de como cada instituto encontra e ouve o entrevistado.
Datafolha e Quaest fazem pesquisa presencial. Entrevistadores vão a campo, com pontos de coleta distribuídos por município, e abordam pessoas pessoalmente. No levantamento de março, o Datafolha ouviu 2.004 eleitores em 137 municípios, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. A Quaest também trabalha com cerca de 2.004 entrevistas presenciais por rodada.
O AtlasIntel usa recrutamento digital. Os entrevistados são captados pela internet e respondem por conta própria, sem entrevistador. O método é mais rápido e barato, permite amostras maiores e tem histórico de bons resultados em algumas eleições — mas alcança um público estruturalmente diferente: mais conectado, com perfil socioeconômico e etário distinto do conjunto do eleitorado.
Não existe método perfeito. A pesquisa presencial enfrenta dificuldade crescente de acesso em condomínios fechados e áreas de risco. A digital enfrenta a sub-representação de quem tem pouca conectividade. Cada uma erra para um lado diferente, e é por isso que comparar séries de institutos distintos como se fossem a mesma medição leva a conclusões falsas.
O que muda quando se sabe quem pagou
Há uma informação pública que ajuda a entender cada série, e que costuma ficar de fora da divulgação: quem a encomendou.
Levantamento do AlexNews nos dados abertos do TSE mostra que a série Genial/Quaest é contratada pelo Banco Genial, que aparece como o maior comprador de pesquisas eleitorais do país em 2026 — R$ 12,45 milhões em 48 contratos, todos com a Quaest. A série do Datafolha é do próprio grupo Folha de S.Paulo. E a do AtlasIntel divulgada no Brasil tem a Bloomberg como parceira.
Nada disso invalida os levantamentos — instituto sério trabalha com metodologia declarada e registro na Justiça Eleitoral, independentemente de quem paga. Mas o dado ajuda a entender o ecossistema: boa parte das séries mais citadas nasce de encomenda de bancos e de veículos de comunicação, o que explica periodicidades e cenários testados.
· Entenda o mercado: Quem encomenda as pesquisas eleitorais no Brasil — o que mostram os registros do TSE
A rejeição, que quase ninguém olha
A intenção de voto responde a uma pergunta. A rejeição responde a outra, e costuma dizer mais sobre o segundo turno: quantos eleitores afirmam que não votariam naquele nome de jeito nenhum.
Rejeição declarada · Genial/Quaest, julho de 2026
Rejeição alta limita o crescimento de um candidato no segundo turno: são eleitores que dificilmente mudam de posição.
Em julho, Flávio Bolsonaro registrou 57% de rejeição na Genial/Quaest, a maior entre os pré-candidatos e um ponto acima de junho. Lula aparece com 50%. Nomes menos conhecidos têm rejeição naturalmente mais baixa — Joaquim Barbosa, com 18%, era o menos rejeitado do levantamento, o que reflete tanto perfil quanto menor exposição.
Rejeição alta funciona como teto: são eleitores que dificilmente mudam de posição na reta final. Por isso um candidato pode liderar o primeiro turno e ter dificuldade no segundo.
O mesmo levantamento apontou que 65% dos eleitores que já escolheram um nome consideram o voto decidido, enquanto 35% admitem mudar até outubro. Ou seja: um em cada três votos ainda estava em disputa em julho.
Um movimento dentro do próprio campo
Entre os dados de julho há um número que ajuda a entender a dinâmica da disputa. Na chamada direita não bolsonarista, a intenção de voto em Flávio Bolsonaro recuou de 82% para 74% em uma rodada.
São oito pontos dentro do próprio campo. No mesmo levantamento, 42% dos entrevistados disseram concordar mais com Michelle Bolsonaro do que com Flávio no desentendimento entre os dois, contra 18% que davam razão ao senador — um indicador de que o campo ainda se acomoda.
Como ler pesquisa com mais critério
Compare o instituto consigo mesmo. A tendência de uma série é confiável; a comparação entre séries de institutos diferentes, não. Se o Datafolha mostra queda de três pontos, isso é significativo dentro do Datafolha.
Diferença dentro da margem de erro é empate. Com margem de dois pontos, 46% a 43% não é vantagem: é empate técnico. A imprensa costuma escrever “lidera” onde caberia “empata”.
Veja o cenário testado. O mesmo instituto publica vários cenários na mesma rodada, com listas diferentes de nomes. Números de cenários distintos não se comparam.
Confira o período de campo, não o de divulgação. Uma pesquisa a campo antes de um fato relevante já nasce desatualizada quando é publicada.
Olhe a rejeição junto com a intenção. Liderança no primeiro turno com rejeição alta é situação frágil.
Procure o número de registro. Toda pesquisa legal tem protocolo no TSE. Sem ele, é enquete — que não tem valor estatístico e é proibida em período eleitoral.
O que vem pela frente
Com o início da propaganda eleitoral em 16 de agosto e a eleição em 4 de outubro, a frequência de levantamentos deve aumentar bastante — em julho já foram 312 pesquisas registradas no TSE, seis vezes mais que em janeiro.
Quanto mais pesquisas circulando, maior a chance de duas divergirem no mesmo dia. Quando isso acontecer, vale lembrar de março: três institutos, uma disputa e resultados que iam de “Lula à frente por sete” a “Flávio à frente por um” — todos metodologicamente defensáveis.
Esta reportagem reúne resultados divulgados publicamente por Genial/Quaest, Datafolha e AtlasIntel/Bloomberg ao longo de 2026, compilados a partir da cobertura de agências e veículos de referência. As séries não são diretamente comparáveis entre si: variam metodologia, período de campo, número de entrevistados e cenários testados — e a reportagem compara a tendência de cada série, não os valores absolutos entre institutos. Informações sobre contratantes vêm dos dados abertos do TSE. Fechamento em 11 de agosto de 2026.
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