⏳ Áudio em breve
Ninguém disse uma palavra sobre o assunto do país
O Supremo se reuniu nesta quarta, na primeira sessão desde que veio a público o relatório da Polícia Federal sobre a relação do banqueiro Daniel Vorcaro com autoridades. A sessão durou a tarde inteira. O tema não foi citado uma única vez. Discutiu-se imposto sobre transmissão de imóvel.
Começo pelo que aconteceu, e deixo minha opinião para o fim, marcada como opinião.
A sessão abriu por volta das 14h30. Moraes e Mendonça sentam lado a lado, porque o lugar de cada um no plenário segue a ordem de chegada à Corte, e um entrou em 2017 e o outro em 2021. Segundo a Metrópoles, não trocaram nem boa tarde. Nenhum dos dois falou com jornalistas na entrada.
O que o Supremo julgou nesta quarta
A pauta do dia, na íntegra, foi esta:
Recurso sobre a cobrança de ITBI, o imposto de transmissão de imóveis, quando empresas de compra, venda ou locação transferem bens para o capital social.
Conclusão do julgamento da ADI 4395, sobre a contribuição previdenciária do Funrural paga pelo produtor rural pessoa física.
Incidência de PIS e Cofins sobre aplicações financeiras de seguradoras.
ADI 5982, sobre o poder do Ministério Público da União de requisitar informações.
ADC 80, sobre as regras da CLT para concessão de justiça gratuita.
Nada disso é irrelevante. Funrural mexe com o bolso de produtor rural, justiça gratuita decide se trabalhador pobre consegue processar patrão. São processos legítimos e estavam marcados havia tempo.
O ponto não é o que entrou na pauta. É o que a pauta serviu para evitar.
O silêncio não foi acaso, foi organização
Segundo a Folha de S.Paulo e o Direito News, o presidente da Corte, Edson Fachin, abriu a sessão anunciando que daria prioridade aos casos com sustentação oral de advogados, e puxou para o começo um processo que precisava ser julgado do zero.
🎛️ Como se constrói uma tarde sem assunto
No rito do plenário, quando há sustentação oral, quem fala primeiro são os advogados das partes. Os ministros só votam, e portanto só abrem a boca, depois que essa etapa acaba.
Colocando no topo os processos com mais advogados inscritos, empurra-se para o fim do expediente qualquer momento em que um ministro teria a palavra livre. Fachin ainda chamou o último item da pauta, de baixo potencial de polêmica.
Funcionou. A tarde passou, os advogados falaram, e a maior crise da história recente do tribunal não coube em nenhum minuto de fala.
Um detalhe reforça a leitura. Gilmar Mendes, o decano, é quem costuma tomar a palavra quando a Corte está sob pressão. Ele não disse nada e deixou o prédio pouco depois da abertura.
Fachin falou sobre o caso, mas fora do plenário, num evento de direito constitucional realizado no próprio Supremo. Disse que é dever de todos preservar a integridade do tribunal, a autoridade de suas decisões e a confiança da sociedade na instituição, e que os indícios pedem o devido encaminhamento institucional. Falou também em serenidade, responsabilidade e firmeza.
Três palavras bonitas e nenhuma data. É ele quem decide se o caso vai ao plenário, e essa decisão continua sem prazo.
E aí veio a foto

Depois que a sessão acabou, um fotógrafo do Globo registrou quatro ministros no corredor, rindo.
Preciso ser honesto sobre o que essa imagem prova, porque é pouco. Fotografia não capta assunto. Ninguém sabe do que eles riam, e quem disser que sabe está inventando. Pode ter sido uma piada sobre trânsito, sobre neto, sobre qualquer coisa. Gente que trabalha junto há anos ri no corredor, e isso vale para o Supremo como vale para qualquer repartição.
Só que existe uma pergunta que a foto legitimamente levanta, e ela não é sobre o motivo do riso.
🎭 A pergunta que a imagem faz
Como é que quatro pessoas conseguem sair leves de uma sessão em que a instituição delas está sendo questionada por metade do país, e em que nenhuma delas achou que valia dizer uma frase a respeito?
Não é o riso que incomoda. É a naturalidade. É a ausência total de constrangimento de quem passou a tarde fingindo que o assunto não existe, e saiu do plenário como quem sai de um dia comum de trabalho.
A foto não é prova de nada. Ela é ilustração exata de uma coisa que está documentada: a decisão de não falar.
A piada, do meu ponto de vista
Daqui em diante é opinião assinada.
Enquanto isso, do lado de cá, tem entregador rodando doze horas por dia para fechar a conta do mês. Tem gente que perde o emprego por chegar quinze minutos atrasada. Tem professor comprando material com dinheiro do próprio bolso. Todo mundo aqui embaixo trabalha sob a régua de alguém, e responde por cada erro que comete, na frente de quem cobra.
Lá em cima a régua é outra. Quem investiga um ministro precisa de autorização dos colegas dele. Quem processa depende de um procurador-geral que está citado no mesmo relatório. O Senado nunca abriu processo contra nenhum ministro em toda a história da República. E o Conselho Nacional de Justiça, que fiscaliza juiz no Brasil inteiro, não alcança o Supremo, por decisão do próprio Supremo.
Aí chega uma quarta-feira dessas, com o país inteiro comentando o assunto, e o tribunal resolve discutir ITBI.
Então tá. Se ninguém precisa explicar nada, se a pauta pode ser arrumada para que nenhuma pergunta caiba na tarde, se dá para atravessar a sessão inteira sem uma frase e sair rindo no corredor, é porque está tudo funcionando exatamente como foi desenhado para funcionar.
A piada é boa mesmo. Só não é para nós. Nós somos ela.
🧾 Nota de método
O que aconteceu na sessão vem das reportagens de Folha de S.Paulo, Metrópoles, Direito News, InfoMoney e Revista Fórum publicadas em 2 de setembro de 2026. Não estive no plenário nem assisti à sessão inteira, e por isso cada informação vai atribuída a quem a publicou.
A leitura de que a organização da pauta serviu para evitar falas é minha, construída a partir de fatos que os veículos relataram: a prioridade dada às sustentações orais, a chamada do item de menor polêmica e o rito que só dá a palavra ao ministro depois dos advogados. Nenhum ministro declarou essa intenção, e ninguém do tribunal foi procurado por mim.
Sobre a fotografia, o texto diz o que ela mostra e diz também o que ela não prova. Não atribuo motivo ao riso de ninguém.
Os oito encontros entre o ministro e o banqueiro constam do relatório da PF conforme a Metrópoles, e não foram confirmados por mim em documento.
Nenhuma das condutas descritas no relatório virou denúncia, acusação formal ou decisão judicial até o fechamento. Relatório de polícia reúne indícios e não condena ninguém. Alexandre de Moraes nega irregularidade.
A seção marcada como opinião começa onde está escrito que começa. Ela critica o desenho da instituição e a decisão de não falar, e não atribui crime a quem não foi denunciado nem condenado.
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Fontes
Reportagens sobre a sessão plenária do Supremo Tribunal Federal de 2 de setembro de 2026, publicadas por Folha de S.Paulo, Metrópoles, Direito News, InfoMoney e Revista Fórum na mesma data.
Pauta da sessão conforme divulgação do próprio tribunal: ADI 4395, ADI 5982, ADC 80, além dos recursos sobre ITBI e sobre PIS e Cofins de seguradoras.
Declarações do presidente Edson Fachin nas 17ª Jornadas Ítalo-Espanholo-Brasileiras de Direito Constitucional, realizadas no STF em 2 de setembro de 2026.
Relatório da Polícia Federal de 27 de agosto de 2026, com 218 páginas, tornado público por decisão do ministro André Mendonça em 1º de setembro de 2026.
Fotografia de Brenno Carvalho, publicada por O Globo em 2 de setembro de 2026.
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