⏳ Áudio em breve
O que está escrito nos planos de governo de 2026
Ao pedir registro, cada candidato à Presidência entregou ao TSE um documento com as propostas que defende para o mandato. Os arquivos são públicos e qualquer pessoa pode baixar. Li cinco deles, 492 páginas no total, e começo por onde os números não batem.
Todo candidato a presidente entrega um plano de governo no momento em que pede o registro da candidatura. O documento fica guardado no sistema da Justiça Eleitoral, é citado de passagem em debates e some do noticiário na semana seguinte.
É, na prática, o único compromisso escrito que um candidato assina antes da eleição.
📥 Onde baixar o plano do seu candidato
Os arquivos são públicos, gratuitos e não pedem cadastro. Ficam no DivulgaCandContas, em divulgacandcontas.tse.jus.br.
Entre no endereço, escolha a eleição de 2026 e o estado, filtre pelo cargo, clique no nome do candidato e procure a área de documentos da candidatura. O arquivo aparece identificado como proposta de governo.
Funciona no celular. Se quiser conferir alguma coisa que eu escrever aqui, esse é o caminho até o documento original.
Baixei os planos registrados e fui lendo inteiros, página por página, sem intermediário. Até agora foram cinco dos treze candidatos, 492 páginas. Os outros oito entram conforme a leitura avançar.
O que a lei exige, e o que ela não exige
Está no artigo 11, parágrafo 1º, inciso IX, da Lei 9.504/1997, a Lei das Eleições. O texto é curto: o pedido de registro deve ser instruído com as “propostas defendidas pelo candidato a Prefeito, a Governador de Estado e a Presidente da República”. O inciso foi acrescentado pela Lei 12.034, de 2009, e vale para eleições majoritárias.
Repare no que a lei não diz.
Ela não fixa número mínimo de páginas. Não exige diagnóstico, meta, prazo, indicador ou estimativa de custo. Não manda dizer de onde sai o dinheiro. Não obriga o candidato a explicar como pretende aprovar no Congresso aquilo que promete. Um documento de duzentas páginas com projetos detalhados e um documento de cinco laudas com princípios genéricos cumprem igualmente a exigência legal.
📌 Entregar mal não barra candidatura
A ausência ou a falha no envio das propostas é tratada como vício de documentação, e não como falta de condição de elegibilidade. Pela Resolução TSE 23.609/2019, a candidatura que não apresenta o documento é intimada a entregá-lo em até três dias. Só depois de vencido o prazo o registro pode ser indeferido. Quem não aproveita o prazo perde a chance, mas a regra existe para corrigir, não para eliminar.
A consequência disso é simples: a qualidade de um plano de governo é um problema político e jornalístico, não um problema jurídico. Ninguém perde o registro por escrever um plano ruim. Quem cobra é o eleitor, se tiver lido.
Os cinco planos já lidos
🌹 Lula (PT)
84 páginas. Organizado em treze eixos temáticos, do combate à desigualdade à soberania nacional. Estrutura de programa de governo clássica, com forte apoio no que o mandato atual já executa: Novo PAC, Bolsa Família, Pé-de-Meia e a expansão dos Institutos Federais.
🔵 Flávio Bolsonaro (PL)
76 páginas. Chamado de “Diretrizes”, é dividido por públicos e situações de vida em vez de áreas de governo. Traz blocos como Brasil sem Medo, Brasil por Elas e Brasil sem Fila, cada um com propostas nomeadas.
🟠 Romeu Zema (Novo)
81 páginas. O “Plano Implacável” abre com uma carta em primeira pessoa e organiza as propostas em capítulos setoriais, de segurança pública a esporte. É o documento mais direto na linguagem, com propostas em forma de lista.
🟣 Augusto Cury (Avante)
200 páginas. O maior dos cinco. Começa com um ensaio sobre saúde emocional e polarização, apresenta teses gerais e depois detalha dezoito projetos numerados, de educação a terras raras.
🟡 Renan Santos (Missão)
51 páginas. O documento registrado é um resumo executivo do Livro Amarelo, obra que o próprio partido descreve como tendo mais de 500 páginas. O resumo reúne as aberturas de cada um dos catorze capítulos, com o diagnóstico e as propostas principais.
Contagem de páginas apurada nos arquivos PDF registrados. O total de 492 páginas considera a versão do plano do candidato Augusto Cury obtida no sistema processual da Justiça Eleitoral.
A conta que não fecha
Ler um plano inteiro, em vez do resumo dele, faz aparecer primeiro, as inconsistências internas.
⚠️ Dois números para a mesma proposta, no mesmo capítulo
O plano do Partido Missão apresenta como primeira medida de governo uma PEC de Transição baseada na chamada PEC do Equilíbrio Fiscal, projeto protocolado pelo deputado Kim Kataguiri em 2024. O texto do capítulo afirma que a medida traria economia projetada de R$ 1,1 trilhão até 2031.
Duas páginas adiante, no mesmo capítulo, uma tabela detalha a economia medida a medida e apresenta o total: R$ 973 bilhões. A diferença entre os dois números é de aproximadamente R$ 127 bilhões, e o documento não explica de onde ela vem.
A própria tabela também não fecha por dentro. Ela traz, para cada medida, o valor acumulado no período de cinco anos e a média anual. Em três das quatro linhas a divisão bate: desindexação previdenciária e BPC (R$ 455 bilhões acumulados, média anual de R$ 91 bilhões), desvinculação de pisos de saúde, educação e Fundeb (R$ 306 bilhões, média de R$ 61 bilhões) e revisão do abono salarial (R$ 108 bilhões, média de R$ 22 bilhões).
A quarta linha não bate. A redução de isenções fiscais aparece com R$ 104 bilhões acumulados e média anual de R$ 38 bilhões. Multiplicada por cinco anos, essa média daria R$ 190 bilhões, quase o dobro do valor acumulado informado na coluna ao lado. Somadas, as médias anuais da tabela chegam a R$ 212 bilhões por ano, o que em cinco anos daria R$ 1,06 trilhão, e não os R$ 973 bilhões do próprio total.
Nada disso invalida a proposta. O ajuste que o plano defende continua sendo o que ele descreve. Mas o eleitor que quiser saber quanto a medida economiza encontra três respostas diferentes dentro do mesmo capítulo, e o documento não reconcilia nenhuma delas.
Fui verificar se a divergência vem da fonte citada na tabela, que é o texto da PEC de 2024, ou de uma atualização posterior feita pela campanha. O plano não informa. Se a campanha apresentar a metodologia, publico aqui.
O que este portal ainda não pode afirmar
🧾 Nota de método
Ainda não li os planos de oito dos treze candidatos. Enquanto isso não acontecer, nenhuma comparação publicada aqui é retrato completo da disputa. Ausência de menção a um candidato significa que o documento dele ainda não foi lido, e não que ele não tenha proposta sobre o tema.
Nenhuma afirmação sai de resumo automático, de síntese produzida por inteligência artificial ou de reportagem de terceiros. Toda proposta citada foi conferida no PDF registrado, e a citação indica o candidato e o documento. Estimativas de custo que não constam dos planos só aparecerão se forem cálculo próprio, com a metodologia declarada na matéria.
Quando duas fontes divergirem, as duas versões serão publicadas.
Como a série continua
A sequência trata de um eixo por vez, comparando o que cada plano lido diz sobre o mesmo assunto. Segurança pública vem primeiro, porque é onde os documentos mais divergem e onde o vocabulário jurídico mais confunde. Depois, finanças públicas, juventude e primeiro emprego, e pequenos negócios.
Os planos entram também nos dossiês individuais dos candidatos e na página que reúne os treze concorrentes.
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Fontes
Lei 9.504/1997, artigo 11, parágrafo 1º, inciso IX, com a redação dada pela Lei 12.034/2009.
Planos de governo registrados na Justiça Eleitoral pelos candidatos Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo), Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão).
Partido Missão, resumo executivo do Livro Amarelo, capítulo I, “Um Remédio Amargo”, texto e tabela da PEC do Equilíbrio Fiscal.
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