⏳ Áudio em breve
Treze num estado só, em pouco mais de oito meses
Ao confirmar o tornado de Goioerê, na tarde de sexta-feira, o Simepar informou que era o 13º tornado registrado no Paraná em 2026. Três deles vieram em três dias, entre quarta e sexta. É essa frequência, e não o estrago de cada um, que merece ser olhada de perto.
O tornado de Goioerê
Foi por volta das 16h desta sexta-feira, na área rural de Goioerê, no centro-oeste do estado.
Segundo o Simepar, o fenômeno se originou de uma supercélula, durante a passagem de uma frente fria que atravessava o Paraná depois da formação de um ciclone extratropical sobre o Rio Grande do Sul. É a mesma sequência que produziu os dois tornados dos dias anteriores, o que sugere que os três vieram do mesmo sistema andando pelo estado.
A prefeitura comunicou que não houve estrago material, e a suspeita inicial é de que a passagem tenha se limitado à área rural. Não havia registro de feridos até a última atualização.
🌩️ O que é uma supercélula
É um tipo de tempestade com uma corrente de ar ascendente que gira. Essa rotação é o que diferencia ela de um temporal comum, e é ela que pode dar origem a tornado, granizo grande e rajada destrutiva.
Supercélula não é sinônimo de tornado: a maioria delas não produz nenhum. Mas quase todo tornado forte nasce de uma.
Quando o boletim menciona supercélula, é sinal de que o radar viu rotação lá dentro. Para quem está embaixo daquela nuvem, é o aviso mais concreto que existe antes de qualquer coisa acontecer, e ele quase sempre fica preso no jargão técnico.
Por que treze é um número difícil de comparar
Quem fez essa contagem monitora o estado com radar próprio.
Mesmo assim, um total anual é sempre mais difícil de perceber do que um evento isolado. Ninguém sente treze tornados: sente o que passou perto de casa, na semana passada, e esse é o limite natural da percepção de qualquer pessoa sobre qualquer fenômeno espalhado no tempo. Há pelo menos três razões concretas para essa dificuldade.
1️⃣ O acontecimento vence o acúmulo
O tornado de quarta é um fato, o de quinta é outro, o de sexta é outro. Cada um chega com a própria urgência.
Somar exige parar e olhar para trás, e é o tipo de trabalho que a cobertura do dia raramente comporta. O décimo terceiro tem o mesmo tamanho do primeiro.
2️⃣ Sem estrago, sem alarme
O de Goioerê não derrubou casa nem feriu ninguém. Passou sobre área rural e acabou.
Só que a frequência de um fenômeno não depende do prejuízo que ele causou. Treze tornados num ano continuam sendo treze mesmo que todos tivessem passado sobre mato.
3️⃣ O número nacional existe, mas conta outra coisa
Há um levantamento de alcance nacional, a PREVOTS, ligada à Universidade Federal de Santa Maria. Ela registrou 92 ocorrências em 2025 e 81 até julho de 2026.
Só que ela conta diferente: inclui tromba d’água e landspout, que são menos intensos, e um mesmo tornado pode virar vários pontos de dano contados em separado. Comparar os 81 dela com os 13 do Simepar é somar coisas que não somam.
Quem produz esses números
Duas instituições fazem esse trabalho, e vale dizer quem são.
📡 Simepar
Serviço de meteorologia do Paraná, com radar próprio. Identifica a rotação dentro da tempestade e cruza com o dano no chão. É de lá que vem o número de 13 no estado.
🎓 PREVOTS
Rede de meteorologistas ligada à Universidade Federal de Santa Maria, com parceiros como o INPE. Reúne registros de todo o país desde 2018. É de lá que vêm os 81 do ano.
Os dois números medem coisas diferentes e não se somam. A PREVOTS inclui tromba d’água e landspout, e conta pontos de dano que podem vir de um mesmo tornado. O Simepar conta ocorrências num estado só.
Mantenho aqui no site um mapa que reúne os eventos de 2026 que consegui documentar um a um, com data, município, quem confirmou e por qual método. São dez tornados confirmados. É menos do que qualquer uma das duas contagens acima, e por um motivo simples: só entra o que eu consigo checar e mostrar a fonte.
Não é levantamento científico nem tem instrumento nenhum por trás. É registro de leitura de material público, feito por uma pessoa só. Serve para você ver onde as coisas aconteceram, e nada além disso. Escrevi antes sobre essas diferenças de contagem.
Carregando o mapa…
Eventos de 2026 reunidos a partir de divulgações de órgãos técnicos e da imprensa, com a fonte de cada um. Tornado confirmado aparece separado de tornado apenas relatado.
Por que o Paraná, e por que agora
Existe uma explicação geográfica para isso, e ela não é novidade para quem estuda o assunto. O estado fica na ponta norte do corredor de tempestades severas da América do Sul, que desce pelo Rio Grande do Sul, Uruguai, Paraguai e norte da Argentina, e essa é a segunda região do mundo com mais tornados, atrás apenas dos Estados Unidos.
Nesta temporada há um fator a mais. O próprio Simepar publicou nesta semana um alerta ligando as chuvas acima da média e o aumento do risco de temporais no Paraná ao El Niño, com efeito esperado até o verão.
É a mesma peça que vem organizando o clima brasileiro o ano inteiro. Escrevi um guia sobre o que esperar, região por região.
📢 O que fazer com um número desses
Não é sobre prever cada um: isso a ciência ainda não faz com antecedência de dias, em lugar nenhum do mundo.
É sobre tratar tornado no Brasil como coisa que acontece, e não como anomalia. Um estado com treze ocorrências em oito meses precisa de plano de resposta, de rota de abrigo divulgada e de gente treinada para reconhecer o sinal.
O caso de Campo Erê, em Santa Catarina, mostrou que dá para avisar: o alerta por difusão celular chegou aos moradores cerca de 45 minutos antes. Foi o mais perto que o país chegou de um aviso útil.
Zero feridos nos três últimos do Paraná é uma boa notícia. Só que ela se explica mais por onde eles passaram do que por qualquer coisa que tenhamos feito.
🧾 Nota de método
A confirmação do tornado de Goioerê e a contagem de treze no Paraná em 2026 são do Sistema Meteorológico do Paraná, divulgadas em 11 de setembro de 2026 e reproduzidas pela imprensa paranaense.
Não tenho a lista dos treze evento a evento, porque o Simepar divulgou o total e não o detalhamento. Por isso não consigo conferir um a um nem acrescentá-los ao mapa.
O mapa que mantenho no site não é fonte primária de nada: ele reúne o que apurei em divulgações de órgãos técnicos e na imprensa, com a fonte de cada evento à mostra. Onde ele mostra menos que Simepar e PREVOTS, é porque eu só registro o que consigo checar, e não porque eles estejam contando demais.
Os números da PREVOTS são de divulgação da própria plataforma, reproduzidos pela imprensa em agosto de 2026. Ela é uma iniciativa técnico-científica de meteorologistas, com parceiros como a Universidade Federal de Santa Maria e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, e não um serviço oficial do Estado. Dentro dela funciona a PRETS, que reúne registros desde junho de 2018.
A intensidade do tornado de Goioerê não foi classificada até o fechamento. A avaliação segue os critérios da escala Fujita e depende do levantamento dos danos.
Não uso vídeo de rede social como confirmação.
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Fontes
Confirmação do tornado em Goioerê pelo Sistema Meteorológico do Paraná, divulgada em 11 de setembro de 2026, com a informação de que se trata do 13º registrado no estado em 2026.
Boletim do Simepar de 10 de setembro de 2026 sobre a influência do El Niño nas chuvas acima da média e no risco de temporais no Paraná até o verão.
Mapa de tempo severo mantido nesta página, montado a partir de divulgações de órgãos técnicos e da imprensa. Não é levantamento próprio de campo.
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