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Ataque à Yandex: o que parou na Rússia e por que data centers viraram alvo
Em quatro dias, drones ucranianos tiraram do ar três dos seis grandes data centers da Yandex, a maior empresa de tecnologia da Rússia. Caíram serviços de táxi, pagamento e nuvem, dentro e fora do país. A Ucrânia fala em resposta aos ataques russos contra a internet de Kiev. O caso confirma um precedente que já tinha aparecido no Golfo.
⏱️ Em 1 minuto
O ataque: drones ucranianos atingiram data centers da Yandex em Sasovo (8/10), Kaluga (9/10) e Vladimir (11/10).
Na Rússia: pararam e-mail, carteira digital, táxi, nuvem e até monitores de glicose; a troca de equipamentos deve levar seis meses.
Fora dela: usuários na Ásia Central, na Armênia, em Belarus e na Sérvia ficaram sem serviços.
Os bots: Zelensky diz que as redes ficaram com menos bots. Os dados não permitem afirmar isso.
O troco: a Rússia atacou data centers de Kiev antes, em julho e setembro.
O precedente: o Irã atingiu a AWS no Golfo, e a Amazon admitiu perda definitiva de dados.
Os três ataques
A Yandex é a maior empresa de tecnologia da Rússia: buscador, e-mail, mapas, táxi, entrega de comida, carteira digital, assistente de voz e nuvem para outras empresas. Entre 8 e 11 de outubro, drones ucranianos atingiram três dos seis grandes data centers da empresa (Meduza).
| Data | Local | O que aconteceu |
|---|---|---|
| 8/10 | Sasovo (região de Riazã) | operação interrompida. O prédio abriga dois dos três supercomputadores usados para desenvolver a inteligência artificial da Yandex |
| 9/10 | Região de Kaluga | parcialmente desativado; “vários módulos” ficaram completamente fora do ar |
| 11/10 | Vladimir | operação “completamente suspensa”; a Yandex pôs a plataforma em modo de emergência e avisou que a configuração restante era “instável” |
Fontes da tabela: (Al Jazeera; Meduza). Não houve registro de feridos no ataque a Vladimir.
No dia do primeiro ataque, o presidente Volodymyr Zelensky disse que a Ucrânia “sempre responde de forma espelhada”, citando os ataques russos a data centers ucranianos, e que não poderia dar todos os detalhes (Al Jazeera).
O que parou na Rússia
Ficaram fora do ar ou instáveis o e-mail, a carteira Yandex Pay, o armazenamento Disk, o aplicativo de táxi e entregas Go e a nuvem que a Yandex aluga a outras empresas. A assistente Alice, a busca e os mapas voltaram no dia 11, ainda sem todas as funções (Meduza).
O efeito passou da própria empresa. Caíram o aplicativo da rede de lanchonetes Vkusno i Tochka, sites de veículos de imprensa russos e sistemas do aeroporto de Pulkovo, em São Petersburgo. Serviços de monitoramento contínuo de glicose, usados por pessoas com diabetes, também foram afetados. Um usuário resumiu à Meduza: “todo o meu dinheiro está na Yandex, então não tenho dinheiro para comida” (Meduza).
A Yandex limitou downloads do Disk para manter o resto funcionando, transferiu dados de clientes para nuvens concorrentes (VK Cloud, Selectel e K2Cloud), orientou motoristas de táxi a usar aplicativos de mapa estrangeiros e incluiu no contrato com usuários uma cláusula que a isenta de responsabilidade por força maior, inclusive ataques de drones ucranianos (Meduza).
O custo ainda não tem número oficial. A troca dos equipamentos deve levar cerca de seis meses, e uma fonte anônima da Yandex disse ao site The Bell que parte da capacidade “definitivamente não será restaurada”. As ações caíram mais de 7,6% na Bolsa de Moscou depois dos primeiros ataques. O Ministério do Desenvolvimento Digital chamou o ataque de “sem precedentes” e discute a proteção de data centers com o Ministério da Defesa; na Duma, o Parlamento russo, houve quem dissesse que a proteção é responsabilidade das próprias empresas. Até 12 de outubro, o Kremlin não tinha comentado (Meduza).
O efeito fora da Rússia
A Yandex opera em países vizinhos. Usuários no Quirguistão, no Cazaquistão e no Uzbequistão ficaram sem conseguir pedir táxi ou comida, e houve problemas parecidos na Armênia, em Belarus e na Sérvia (Meduza).
O efeito mais comentado, porém, foi outro. No Fórum de Segurança de Varsóvia, em 12 de outubro, Zelensky disse que “de repente ficou um pouco mais fácil respirar em muitas redes sociais”, com “menos ódio, menos divisão e menos provocações, porque havia menos bots”, e acrescentou: “é bem claro de onde vinham esses bots” (Euronews).
Os dados existem, mas não dizem o que Zelensky disse. Pelo Cloudflare Radar, o tráfego automatizado vindo da rede da Yandex caiu cerca de 94% no domingo, comparado à média da segunda quinzena de setembro (Euronews). Às 2h no horário universal (23h do dia 10 em Brasília) de 11 de outubro, estava em 0,3% do pico do gráfico; à noite, voltou a cerca de 20% do nível da semana anterior, segundo o site alemão t3n (United24). Só que tráfego automatizado inclui acessos automáticos legítimos, como os rastreadores que indexam páginas para buscadores. A medição não separa uma coisa da outra, nem conta contas de propaganda em redes sociais.
Na Alemanha, circularam relatos de queda brusca na atividade em torno do partido AfD, sem números verificados. O eurodeputado tcheco Tomáš Zdechovský escreveu: “Se for confirmado, é revelador” (Euronews). O “se” é a parte importante.
O troco: Kiev foi atacada primeiro
A Ucrânia apresentou os ataques como resposta. Desde o meio do ano, a Rússia atinge data centers e provedores ucranianos. Em 2 de julho, um grande data center de Kiev foi danificado. Em 23 de setembro, um ataque de drones atingiu vários prédios na capital, e o Ministério da Defesa russo assumiu os alvos New-Telco e United DC. Também tiveram equipamentos destruídos ou danificados UTELS, Pavutyna, Crazy Network, Etherlink, MiroHost e CityHost. Cerca de 100 mil casas em Kiev e arredores ficaram com problemas de internet, segundo o Ministério da Transformação Digital da Ucrânia (Kyiv Independent).
Moscou justificou: a New-Telco cuidaria do tráfego de internet do Ministério da Defesa ucraniano, e a United DC prestaria serviço a órgãos de segurança. As alegações não foram verificadas de forma independente. O chanceler ucraniano, Andrii Sybiha, rebateu: “É infraestrutura civil crítica, que garante que as pessoas tenham acesso a informações que salvam vidas” (Kyiv Independent).
O precedente: a nuvem virou alvo
A guerra entre Rússia e Ucrânia não é o único caso. Em março de 2026, ataques do Irã atingiram instalações da Amazon Web Services (AWS) nos Emirados Árabes Unidos e no Bahrein, países do Golfo que abrigam bases americanas, no contexto da ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Em abril, uma segunda zona no Bahrein caiu e a região inteira ficou fora do ar (Help Net Security).
Em 15 de setembro, a AWS admitiu que não conseguirá recuperar os dados guardados apenas na região do Bahrein, nem os de uma das zonas dos Emirados. O dano atingiu várias zonas ao mesmo tempo e superou o que o sistema de redundância aguentava. A maioria dos clientes já tinha migrado com cópias de segurança (Help Net Security).
Junte as três frentes e o recado é claro. Data center deixou de ser um galpão neutro no mapa: virou peça de guerra, porque dele dependem ao mesmo tempo o hospital, o banco, o táxi e, às vezes, o exército. A lição técnica vale para qualquer empresa, em qualquer país: cópia de segurança na mesma região, ou no mesmo país, pode não bastar.
O que diz o direito da guerra
Em termos simples: as regras de guerra protegem bens civis e só permitem atacar o que contribui de fato para a ação militar. Um data center que serve ao mesmo tempo civis e militares cai numa zona cinzenta, chamada de uso duplo. Mesmo quando há uso militar, o ataque precisa ser proporcional: o dano previsto para civis não pode ser excessivo diante da vantagem militar esperada. Quem decide, caso a caso, são investigações e tribunais, e não eu.
📎 Para quem quer conferir: as regras citadas
- Protocolo Adicional I às Convenções de Genebra (1977), art. 52(2): só são objetivos militares os bens que, por natureza, localização, finalidade ou uso, contribuem efetivamente para a ação militar e cuja destruição oferece vantagem militar precisa.
- Art. 52(3): na dúvida, um bem normalmente usado por civis é presumido civil.
- Arts. 51(5)(b) e 57: proibição de ataques com dano civil excessivo em relação à vantagem militar e dever de tomar precauções.
- Nem a Ucrânia nem a Rússia apresentaram publicamente provas de uso militar dos data centers que atacaram.
💬 Minha leitura
Esta parte é análise minha. Os dois lados usam a palavra “espelho” com gosto: Moscou atacou primeiro os provedores de Kiev, e Kiev devolveu na mesma moeda. O problema do espelho é que ele reflete também o dano civil. O monitor de glicose de um diabético em Riazã e o roteador de uma família em Kiev ficaram do mesmo lado do vidro.
A comemoração em torno dos bots mostra outra coisa: na pressa de transformar um ataque em vitória de opinião pública, até chefes de Estado tratam como fato um dado que ainda não diz o que eles querem que diga.
Alexander Moraes
🔎 Conferi o que circulou
- “O ataque à Yandex derrubou os bots russos nas redes.” É a leitura de Zelensky. Os dados do Cloudflare medem todo o tráfego automatizado da rede da Yandex, incluindo rastreadores legítimos de buscadores, e não permitem dizer se contas de propaganda foram afetadas. As quedas de atividade atribuídas a perfis ligados à AfD, na Alemanha, e ao Reform UK, no Reino Unido, não têm números verificados (Euronews; United24).
- “A Ucrânia abriu a guerra contra data centers.” A ordem foi a inversa. A Rússia atingiu data centers em Kiev em julho e em setembro, antes dos ataques à Yandex (Kyiv Independent).
- “Os data centers atingidos eram alvos militares.” Moscou disse isso sobre os de Kiev, sem verificação independente (Kyiv Independent). Sobre a Yandex, não localizei prova pública de uso militar apresentada pela Ucrânia. Nos dois casos, a afirmação é de parte interessada.
- “Redundância em nuvem protege contra tudo.” O caso da AWS no Bahrein mostra o limite: o dano atingiu várias zonas ao mesmo tempo, e os dados guardados só ali se perderam (Help Net Security).
Como apurei
Li as reportagens da Al Jazeera, da Meduza, da Euronews, do United24 e do Kyiv Independent sobre os ataques e seus efeitos, e o relato do Help Net Security sobre as atualizações da AWS. Os números de tráfego vêm do Cloudflare Radar, pelas análises citadas. A Yandex não divulgou balanço de prejuízo, e não localizei avaliação independente sobre uso militar dos data centers atingidos. As regras de guerra foram conferidas no texto do Protocolo Adicional I. Situação até 14 de outubro de 2026.
Apuração independente de Alexander Moraes, estudante de jornalismo, sem formação jurídica. Não sou jurista: os trechos sobre leis explicam regras gerais e não são parecer jurídico.
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