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Roadster da Tesla: o que é real no “carro voador” de Musk
O novo Roadster gruda no chão por sucção, vai de 0 a 96 km/h em menos de 1 segundo e, na versão mais cara, salta no ar com jatos de ar comprimido. Fui à página da Tesla para separar o que é carro do que é show. Também conto a ligação com a SpaceX e a história dos carros voadores, dos Jetsons ao DeLorean.
⏱️ Em 1 minuto
O que é: um carro esportivo elétrico de dois lugares que gruda no chão por sucção e, na versão Rocket, salta e gira no ar.
Voa mesmo: por poucos segundos, com jatos de ar comprimido. A FAA diz que não é aeronave, e a versão que salta não pode andar na rua.
SpaceX: os propulsores são tecnologia da SpaceX, e o evento foi na base dela. O mercado fala em fusão, mas nada foi anunciado.
Vai vender: há reserva aberta, a produção é prometida para 2028 e o preço final não saiu. A Tesla não vende oficialmente no Brasil.
Cautela: a entrega prometida era 2020, e a autonomia caiu de 1.000 para 480 km.
A história: desde o Autoplane de 1917, vários carros voaram, poucos foram aprovados e nenhum virou carro de massa.
O que a Tesla mostrou
A Tesla apresentou a nova geração do Roadster na quinta-feira, 15 de outubro, numa transmissão ao vivo marcada para as 19h55 do horário central dos Estados Unidos, 21h55 em Brasília (Tesla). O palco foi a área de testes da SpaceX em McGregor, perto de Waco, no Texas. O evento estava previsto para 1º de outubro e foi adiado por causa do tempo (BGR; Drive Tesla).
Em cerca de 25 minutos de transmissão, o carro fez três tipos de demonstração. Subiu uma rampa que se curva até ficar de cabeça para baixo e continuou grudado nela. Saiu do fim da rampa, girou 180 graus no ar e pousou sobre as rodas. E, empurrado por jatos de ar, passou por cima de outros carros da Tesla, como o Cybertruck e o caminhão Semi (CBS News; Olhar Digital; 24/7 Wall St.).
Quando o carro saiu do chão, Elon Musk disse: “Flying cars are real”, ou seja, “carros voadores são reais”. Antes das demonstrações, avisou: “Success is not guaranteed. I mean that. It’ll probably work. But if it doesn’t work, we’re at a safe distance” (“o sucesso não está garantido. Falo sério. Provavelmente vai funcionar. Mas, se não funcionar, estamos a uma distância segura”) (CBS News; BGR).
Em uma frase: o Roadster não voa como um avião ou um helicóptero. Ele dá saltos curtos e manobras no ar com jatos de ar comprimido, e só a versão mais cara faz isso.
As três versões, nas palavras da Tesla
Na página oficial, a Tesla não chama as versões de modelos. Existe o Roadster Performance e dois “aumentos” (augments, em inglês) que se somam a ele: o Thrust e o Rocket (página oficial da Tesla).
| Versão | Como a Tesla descreve | Lugares | Como comprar |
|---|---|---|---|
| Performance | “pronto para a rua”, com aerodinâmica ativa e sistema de sucção que aumenta a pressão do carro contra o chão | 2 | reserva aberta |
| Thrust | “pronto para a pista”, com o sistema de sucção e propulsores de gás frio na traseira que levam o carro “de 0 a 60 [milhas por hora] em menos de 1 segundo” | 2 | lançamento limitado |
| Rocket | “pronto para o ar”, com propulsores em volta de todo o carro para impulso para a frente, para cima e para girar. “Então, sim, ele pode voar” | 1 | só por convite; “não aprovado para uso em vias públicas” |
Fonte da tabela: (página oficial da Tesla; página de reserva da Tesla). As frases entre aspas são traduções minhas do texto da Tesla. No rodapé, a empresa avisa que a versão Rocket “não está disponível em todas as regiões” e que as especificações da página são as do pacote Thrust, um opcional.
📎 Para quem quer conferir: o texto original da Tesla
- Performance: “Road ready with seating for two. Features active aerodynamics and a multi-mode suction system that maximizes downforce for next-level performance on and off the track.”
- Thrust (Limited Release): “Race ready with seating for two. Features a multi-mode suction system paired with cold-gas thrusters in the rear of the vehicle that propel Roadster from 0-60 in under 1 second.”
- Rocket (Invite Only): “Air ready with seating for one. Features a multi-mode suction system paired with cold-gas thrusters positioned around the perimeter of the vehicle that support forward and upward acceleration as well as lateral rotational movement. So yes, it can fly.” Nota: “Not approved for public road use.”
- Rodapé: “Available with the Rocket trim only, which is not available in all regions.” e “The features and specifications indicated on this page are reflective of our Thrust augment only and are available as an optional upgrade.”
- Nas versões australiana e de Singapura da página, outro aviso: a disponibilidade depende das leis de cada região, e o carro existe só com volante à esquerda (Tesla Austrália).
Como ele anda
O grande truque do Roadster no chão é um ventilador. Embaixo do carro, um sistema de ventoinhas e vedação puxa o ar para fora, e isso cria uma sucção que cola o carro no asfalto. Segundo a Tesla, a sucção é forte o bastante para segurar o carro de cabeça para baixo, “mesmo parado” (página oficial da Tesla). É o que permitiu a demonstração da rampa invertida.
Com mais pressão contra o chão, os pneus seguram mais, e o carro pode acelerar e fazer curvas mais rápido. A Tesla diz que o sistema gera muita pressão “a velocidade zero”, diferente das asas de um carro de corrida, que só funcionam com o carro em movimento. A página cita ainda direção eletrônica (steer-by-wire, sem ligação mecânica entre volante e rodas) e um Modo Pista que abaixa o carro e muda a suspensão (página oficial da Tesla).
| Item | O que foi informado | Fonte |
|---|---|---|
| 0 a 96 km/h (0 a 60 milhas por hora) | menos de 1 segundo no Thrust | página da Tesla |
| 0 a 96 km/h no evento | 0,81 segundo, numa passada com os propulsores ligados | transmissão, segundo BGR e Not a Tesla App |
| 0 a 96 km/h por versão | Performance: menos de 1,6 s; Rocket: menos de 0,59 s | Tesla, segundo Drive Tesla e Teslarati |
| Velocidade máxima | mais de 370 km/h (230 milhas por hora); a meta citada por Musk é metade da velocidade do som | evento, segundo Axios e Drive Tesla |
| Autonomia | mais de 480 km (300 milhas), em todas as versões | Tesla, segundo Drive Tesla e Fortune |
| Lugares | 2 no Performance e no Thrust; 1 no Rocket | página da Tesla |
Fontes da tabela: (página oficial da Tesla; BGR; Not a Tesla App; Drive Tesla; Teslarati; Axios; Fortune). As conversões de milhas para quilômetros são minhas.
Musk resumiu o espírito do carro sem rodeios. Admitiu que ele “not necessarily a safety optimized car”, não é necessariamente um carro pensado para a segurança, e o chamou de último carro da Tesla dirigido por humanos, num momento em que a empresa aposta em táxis sem motorista (Axios).
Como ele “voa” e manobra no ar
Não tem asa, hélice nem motor de foguete. O que tira o Roadster do chão são propulsores de gás frio: bicos que soltam, de uma vez, ar guardado sob altíssima pressão. O ar sai para um lado, e o carro é empurrado para o outro. É o mesmo princípio de um balão de festa que escapa da mão quando você solta o bico.
Segundo o vice-presidente de engenharia da Tesla, Lars Moravy, a versão Rocket tem dez desses bicos, alimentados por cerca de 600 litros de ar comprimido em tanques de fibra de carbono, que podem ser recarregados (Fortune; Olhar Digital). A página da Tesla diz que os bicos têm atuadores elétricos que fazem “micro ajustes em uma fração de segundo” para estabilizar o carro no ar (página oficial da Tesla). É isso que permite girar e pousar de pé.
O limite está no próprio ar. Quando o tanque esvazia, acabou o impulso. A Tesla não divulgou quanto tempo o carro fica no ar nem a que altura chega (Fortune). As demonstrações mostraram saltos e giros curtos, não um voo de um ponto a outro (24/7 Wall St.). Um site especializado em Tesla relatou cerca de 5 segundos por jato na versão Rocket (Not a Tesla App), número que a empresa não confirmou na página.
📎 Para quem quer conferir: a física dos propulsores
- Propulsor de gás frio é o tipo mais simples de propulsor: não queima nada. Ele só libera gás pressurizado por um bico. Por isso não tem chama; a nuvem branca que aparece nas imagens é o próprio ar, que esfria ao se expandir.
- Foguetes e satélites usam esse sistema para pequenos ajustes de posição, não para subir. Segundo a Teslarati, os do Roadster são parecidos com os que a SpaceX usa no Falcon 9 (Teslarati).
- A força vem da terceira lei de Newton, a da ação e reação. Para erguer um carro de mais de uma tonelada, é preciso soltar muito ar em pouco tempo, e o tanque de 600 litros esvazia rápido. É por isso que o “voo” se mede em segundos.
- A Tesla não informou a pressão dos tanques nem o peso do carro, dados que permitiriam calcular o tempo de voo.
Quem deixa (ou não) ele voar
A FAA, agência de aviação dos Estados Unidos, disse à CBS e ao Politico que o veículo não se encaixa na definição de aeronave. Na prática, ele não precisa do certificado de aeronavegabilidade que um avião precisa (Fortune). A NHTSA, que cuida da segurança dos carros, deixa as próprias montadoras certificarem que cumprem as normas; o Departamento de Transportes disse só que vai “continuar monitorando a situação” (Fortune; CBS News).
A própria Tesla resolve parte da questão: a versão que salta, a Rocket, “não é aprovada para uso em vias públicas” (página oficial da Tesla). Musk disse não ter certeza se o carro será permitido em todos os lugares, mas que ele poderá ser comprado (AFP, via swissinfo).
A ligação com a SpaceX
A Tesla faz questão de misturar as duas marcas. Na página do carro, a frase de abertura da parte espacial é: “We already put Roadster in a rocket. Now we put a rocket in Roadster”, ou seja, “já colocamos o Roadster num foguete; agora colocamos um foguete no Roadster”. O texto segue dizendo que “componentes adicionais da SpaceX” transformam o desempenho do carro (página oficial da Tesla).
A primeira parte da frase é literal. Em 6 de fevereiro de 2018, o Roadster vermelho de Musk, da primeira geração, foi lançado ao espaço no primeiro voo do foguete Falcon Heavy, com um boneco de astronauta, o Starman, ao volante. O carro passou perto de Marte em novembro daquele ano e segue em órbita em volta do Sol (Olhar Digital). O Starman voltou a aparecer na transmissão de 15 de outubro (BGR).
E o dinheiro? A Tesla não informou quanto paga à SpaceX pelos propulsores nem como divide o custo do projeto. O que se sabe é que os laços financeiros entre as empresas cresceram em 2026. No começo do ano, a Tesla investiu US$ 2 bilhões na xAI, a empresa de inteligência artificial de Musk. Em fevereiro, a xAI se fundiu à SpaceX, e o investimento virou uma participação de menos de 1% na SpaceX (TIKR). Em 12 de junho, a SpaceX abriu capital na Nasdaq, a US$ 135 por ação, captou US$ 75 bilhões e estreou valendo US$ 1,77 trilhão (CNN Brasil).
Por isso, parte do mercado viu o evento como um ensaio de fusão. Dan Ives, analista de tecnologia, estimou em 80% a chance de Tesla e SpaceX se unirem até o fim de 2027. O Barclays escreveu que uma união “se tornou cada vez mais a expectativa de consenso”. Gene Munster, da Deepwater, chamou o carro de “demonstração de engenharia sem valor comercial” e disse que Musk “não vê a hora” de juntar as empresas (Yahoo Finance; Teslarati). Nenhuma fusão foi anunciada. Musk, nas últimas falas públicas, não descartou nada e disse que o assunto não pode ser tratado numa teleconferência de resultados (Teslarati).
A próxima chance de ver números é 21 de outubro, quando a Tesla divulga o balanço do terceiro trimestre (CBS News).
Vai ser vendido ou é só um show?
Existe reserva aberta, então há intenção de vender. Na página de reserva dos Estados Unidos, o Performance pede US$ 5 mil na hora, “totalmente reembolsáveis”, e mais US$ 45 mil em até dez dias; a reserva é cancelada se o segundo pagamento não for feito, e a Tesla avisa que não devolve dinheiro por “modificações” (página de reserva da Tesla). A reserva do Thrust é de US$ 250 mil, segundo a imprensa (Fortune; Drive Tesla). A do Rocket não tem valor público, porque é só por convite.
O preço final não foi anunciado. A produção, segundo Musk, começa em 2028 (CBS News; Axios), na fábrica do Texas, conforme a Teslarati (Teslarati). Musk também disse que não tem certeza se o carro “move muito o ponteiro” das receitas da Tesla (24/7 Wall St.).
O histórico pede cautela. O Roadster foi apresentado como protótipo em novembro de 2017, com entrega prometida para 2020 (Wikipédia). A data foi adiada várias vezes, e o que chegou agora é bem diferente do prometido:
| Item | Prometido em 2017 | Apresentado em 2026 |
|---|---|---|
| Entrega | 2020 | produção a partir de 2028 |
| Autonomia | cerca de 1.000 km (620 milhas) | mais de 480 km (300 milhas) |
| Lugares | 4 | 2 ou 1, conforme a versão |
| 0 a 96 km/h | 1,9 segundo | menos de 1 segundo (Thrust) |
| Preço | a partir de US$ 200 mil | não divulgado |
| Reserva | US$ 50 mil (US$ 250 mil na série Founders) | US$ 50 mil no Performance, US$ 250 mil no Thrust |
Fontes da tabela: (Wikipédia; 24/7 Wall St.; Fortune; página de reserva da Tesla). A Tesla não disse o que acontece com quem pagou reserva em 2017 (Fortune).
E no Brasil? A Tesla não vende carros oficialmente no país; os que circulam aqui vieram por importação particular (Canaltech). A página do Roadster diz que a disponibilidade depende das leis de cada região. Não há informação sobre venda no Brasil.
Mais de um século de carros voadores
Em 1940, Henry Ford, o pai do carro popular, fez uma aposta: “Mark my word: a combination airplane and motorcar is coming. You may smile, but it will come.” Em português: “Guardem minhas palavras: uma combinação de avião e automóvel está chegando. Vocês podem sorrir, mas ela virá” (Wikipédia). Mais de 80 anos depois, ela chegou em pedaços: vários projetos voaram, poucos foram aprovados, e nenhum virou carro de massa.
| Ano | Projeto | País | O que aconteceu |
|---|---|---|---|
| 1917 | Curtiss Autoplane, de Glenn Curtiss | EUA | só deu saltos curtos; é tido como o primeiro protótipo |
| 1937 | Waterman Arrowbile | EUA | primeiro carro com asas fixas a voar de verdade |
| 1946 | Fulton Airphibian | EUA | voou; quatro unidades; uma está no museu Smithsonian |
| 1946 e 1947 | ConvAirCar | EUA | voou; duas unidades |
| 1949 | Taylor Aerocar | EUA | seis unidades; aprovado para produção em 1956, nunca fabricado em série |
| 1973 | AVE Mizar (um Ford Pinto com a traseira de um avião Cessna) | EUA | quebrou em voo de teste em 11 de setembro de 1973 e matou o inventor Henry Smolinski e o sócio Harold Blake |
| Desde os anos 1960 | Moller Skycar | EUA | nunca voou livre; só flutuou preso a um guindaste; acordo com a SEC em 2003 |
| 2009 | Terrafugia Transition | EUA | certificado de voo da FAA na categoria esportiva leve em 2021; dirigir na rua ainda dependia de aprovação |
| 2012 | PAL-V Liberty (um girocóptero que dirige) | Holanda | a agência europeia de aviação aprovou a empresa como fabricante, anúncio de setembro de 2026 |
| 2021 | Klein Vision AirCar | Eslováquia | certificado de aeronavegabilidade em janeiro de 2022 |
| 2023 | Alef Model A | EUA | certificado especial da FAA; cerca de US$ 300 mil; mais de 440 pré-reservas |
| 2023 | EHang EH216-S (táxi aéreo elétrico) | China | primeiro certificado de tipo do mundo para esse tipo de aeronave, em outubro de 2023 |
| 2025 | Xpeng “porta-aviões terrestre” (veículo que carrega uma aeronave de dois lugares) | China | mais de 7 mil encomendas; produção em série prevista para 2027 |
| 2025 | Eve, da Embraer (táxi aéreo elétrico) | Brasil | primeiro voo do protótipo em Gavião Peixoto (SP), sem piloto; operação prevista para 2027 |
Fontes da tabela: (Wikipédia; Wikipédia, Mizar; Wikipédia, Skycar; AOPA; AIAA; Euronews; KTVU; AIN; Notebookcheck; Forbes Brasil).
A lista mostra dois caminhos. No primeiro, um carro que vira avião: precisa de asas, pista e brevê de piloto. No segundo, um drone gigante que leva gente, o táxi aéreo elétrico, que decola na vertical e não anda na rua. O Roadster não é nenhum dos dois. É um carro esportivo que dá saltos, uma terceira categoria que nem a FAA considera aeronave.
Dos Jetsons ao DeLorean
O carro voador chegou à ficção muito antes dos laboratórios. Jules Verne já imaginava uma máquina que andava, navegava e voava em “O Senhor do Mundo”, de 1904 (Wikipédia). Nos quadrinhos, o detetive Dick Tracy, criado por Chester Gould em 1931, ganhou nos anos 1960 uma nave com propulsão magnética, o Space Coupe (Wikipédia).
Para muita gente, a imagem vem dos Jetsons. O desenho da Hanna-Barbera estreou na TV americana em 23 de setembro de 1962, passava em 2062, e George Jetson ia trabalhar num carro em forma de disco voador (Space.com). Depois vieram o carro mágico de “O Calhambeque Mágico” (Chitty Chitty Bang Bang, 1968), os “spinners” de “Blade Runner” (1982), que decolavam na vertical, e os táxis voadores de “O Quinto Elemento” (1997) (Wikipédia).
O fio que leva ao DeLorean. No fim do primeiro “De Volta para o Futuro” (1985), o Doc volta do futuro com o DeLorean adaptado para voar. Em “De Volta para o Futuro Parte II” (1989), o carro chega a 21 de outubro de 2015 saindo de um congestionamento no céu de Hill Valley (Trumpf; Wikipédia). O 2015 de verdade chegou sem carros voadores.
O DeLorean DMC-12 existiu fora do cinema, e por pouco tempo: foi fabricado na Irlanda do Norte, perto de Belfast, de janeiro de 1981 a dezembro de 1982, em cerca de 9 mil unidades. Tinha carroceria de aço inoxidável sem pintura e portas que abriam para cima, como asas de gaivota, sustentadas por barras de torção desenvolvidas pela Grumman, uma empresa aeroespacial. A fábrica faliu em outubro de 1982, o mesmo mês em que o fundador, John DeLorean, foi preso (Wikipédia).
Musk tem uma história própria com carros de cinema. Em 2013, comprou por quase US$ 1 milhão o Lotus Esprit que virava submarino em “007, O Espião que me Amava” e disse que queria fazê-lo “transformar de verdade”. Mais tarde, contou que o carro inspirou em parte o visual do Cybertruck, uma picape de aço inoxidável como o DeLorean (Hagerty). No evento do Roadster, prometeu um carro “Better than any James Bond car”, melhor que qualquer carro de James Bond (BGR).
E há uma coincidência de calendário: 21 de outubro, a data em que Marty McFly chega ao futuro, é o dia em que a Tesla divulga o balanço do trimestre e responde aos investidores sobre o Roadster.
💬 Minha leitura
Esta parte é análise minha. O Roadster é engenharia de verdade: segurar um carro de cabeça para baixo por sucção e estabilizá-lo no ar com ar comprimido não é truque de computação gráfica. Mas chamar isso de carro voador é esticar a palavra. É um salto controlado, de segundos, na versão que nem pode andar na rua.
O que me parece mais importante não é o carro, que a própria Tesla diz que não mexe nas receitas, e sim a mensagem: a Tesla e a SpaceX cada vez mais juntas, num evento feito na casa da SpaceX. Quem tem reserva desde 2017 tem motivo para desconfiar de 2028. Quem só quer ver, já viu o melhor show do ano.
Alexander Moraes
🔎 Conferi o que circulou
- “A Tesla lançou um carro voador.” Só a versão Rocket, por convite, “pode voar”, nas palavras da Tesla, e ela não é aprovada para vias públicas (página oficial da Tesla). As demonstrações foram saltos e giros curtos (24/7 Wall St.), e a FAA diz que o veículo não é aeronave (Fortune).
- “A reserva custa US$ 5 mil.” / “A reserva custa US$ 50 mil.” As duas versões circularam (CBS News; Fortune). Na página de reserva do Performance, são US$ 5 mil na hora, reembolsáveis, mais US$ 45 mil em até dez dias (página de reserva da Tesla).
- “Vai de 0 a 100 km/h em 0,8 segundo.” A página da Tesla diz “menos de 1 segundo” de 0 a 60 milhas por hora (cerca de 96 km/h), para o Thrust (página oficial da Tesla). O 0,81 segundo foi uma passada no evento (BGR). O Performance, sem propulsores, fica em menos de 1,6 segundo (Drive Tesla).
- “Usa combustível de foguete.” Não. Os propulsores soltam ar comprimido e não queimam nada (Axios; Drive Tesla).
- “Tem 1.000 km de autonomia.” Era a promessa de 2017. A informação atual é mais de 480 km (Fortune).
- “Saltou sobre cinco carros.” / “Saltou sobre quatro.” O Olhar Digital lista Cybercab, Cybertruck, Semi, Model Y e Model 3 (Olhar Digital); o 24/7 Wall St. cita quatro, sem o Cybercab (24/7 Wall St.). Os relatos variam.
Como apurei
Comecei pela Tesla: a página oficial do Roadster, a página de reserva dos Estados Unidos e a página da transmissão. O texto das duas primeiras foi conferido nas páginas completas, abertas no navegador. O que não está nessas páginas veio de quem acompanhou o evento: CBS News, Axios, BGR, Fortune, 24/7 Wall St., AFP, Olhar Digital e os sites especializados Drive Tesla, Teslarati e Not a Tesla App, sempre identificados no texto. Onde os relatos divergem, aponto no Conferi. A ligação financeira com a SpaceX vem da CNN Brasil, TIKR, Yahoo Finance e Teslarati. A história dos carros voadores vem da Wikipédia, conferida com AOPA, Euronews, KTVU, AIN, AIAA, Notebookcheck e Forbes Brasil; a cultura pop, da Space.com, Trumpf, Hagerty e Wikipédia. As conversões de milhas para quilômetros são minhas. Situação até a tarde de 17 de outubro de 2026.
Apuração independente de Alexander Moraes, estudante de jornalismo, sem formação jurídica. Não sou jurista: os trechos sobre leis explicam regras gerais e não são parecer jurídico.
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