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Uma nasceu nos Grand Prix da Europa, a outra num oval de tijolos em Indianápolis. Há mais de um século, as duas tradições disputam o topo do automobilismo
A Fórmula 1 e a Fórmula Indy correm com carros de roda descoberta, pilotos de um lugar só e velocidades que passam de 350 km/h. Por fora, parecem primas. Por dentro, têm histórias, regras e filosofias opostas: a F1 é uma disputa entre fábricas, e a Indy, uma disputa entre pilotos com carros quase iguais. E o Brasil tem capítulos importantes nas duas.
›A Indy que se dividiu e se reencontrou
›Fábricas contra carros iguais
›Os maiores campeões
›O Brasil nas duas
›Os que venceram nos dois mundos
›Guia de telas
›A temporada 2026 e onde assistir
›Duas escolas de velocidade
As origens: Grand Prix e tijolos
| Critério | Fórmula 1 | Fórmula Indy |
|---|---|---|
| Raiz | Os Grand Prix europeus, desde 1906 | As 500 Milhas de Indianápolis, desde 1911 |
| Primeiro campeonato mundial ou nacional | 1950, com Giuseppe Farina campeão | Campeonatos nacionais da AAA desde o início do século 20 |
| Quem manda | FIA (regras) e Liberty Media (negócio) | Penske Entertainment, dona da categoria e do autódromo de Indianápolis |
| Pistas | Circuitos mistos e de rua no mundo todo | Ovais, mistos e de rua, quase todos nos Estados Unidos |
Fórmula 1: filha dos Grand Prix
O primeiro Grand Prix da história foi disputado em 26 de junho de 1906, em Le Mans, na França, organizado pelo Automóvel Clube da França. Venceu o húngaro Ferenc Szisz, de Renault. Nas décadas seguintes, as corridas de Grand Prix viraram vitrine das fábricas europeias, mas só depois da Segunda Guerra ganharam um campeonato mundial. A primeira corrida do Mundial de Fórmula 1 foi em 13 de maio de 1950, em Silverstone, na Inglaterra, diante do rei George VI e de cerca de 120 mil pessoas. Giuseppe Farina venceu com uma Alfa Romeo e foi o primeiro campeão.
A F1 que se conhece foi moldada por Bernie Ecclestone, que comprou a equipe Brabham em 1972, liderou a associação das equipes e ficou com os direitos comerciais e de televisão por cerca de 40 anos. Em janeiro de 2017, o grupo americano Liberty Media concluiu a compra da categoria por US$ 4,7 bilhões.
Fórmula Indy: filha de um autódromo
O Indianapolis Motor Speedway foi inaugurado em 1909, com piso de tijolos que deu ao autódromo o apelido de “Brickyard”, o pátio de tijolos. Em 30 de maio de 1911, 40 carros largaram para a primeira edição das 500 Milhas de Indianápolis, vencida por Ray Harroun, com média de 74,59 milhas por hora. A prova virou o centro de um campeonato nacional americano, organizado pela Associação Automobilística Americana (AAA) até 1955 e pelo United States Auto Club (USAC) a partir de 1956.
A Indy que se dividiu e se reencontrou
A história da Indy tem um capítulo que a F1 nunca viveu: uma divisão que durou 12 anos.
- 1978: donos de equipe como Roger Penske, Dan Gurney e Pat Patrick criam a CART, que passa a organizar o campeonato no lugar do USAC.
- 1994 a 1996: Tony George, neto de Tony Hulman, dono do autódromo de Indianápolis, cria a Indy Racing League (IRL), que estreia em 1996 com uma regra que reservava 25 das 33 vagas das 500 Milhas para os seus pilotos. As equipes da CART boicotam a prova.
- 26 de maio de 1996: no mesmo dia, a IRL corre as 500 Milhas de Indianápolis e a CART corre a US 500, em Michigan. É o símbolo do racha.
- 2003 a 2008: a CART vai à falência e vira Champ Car. Em fevereiro de 2008, as duas categorias se unificam.
- 2020: Roger Penske compra a IndyCar e o autódromo de Indianápolis. Em 2025, a Fox comprou um terço da empresa.
O racha coincidiu com a era de ouro dos brasileiros na Indy, e parte dos títulos brasileiros foi conquistada na CART, que reunia a maioria das grandes equipes.
Fábricas contra carros iguais
A diferença mais importante entre as duas está na regra de quem faz o carro.
Fórmula 1: cada equipe é uma fábrica
- Construtores. Cada equipe precisa projetar e ser dona do chassi e das peças aerodinâmicas. Motor e câmbio podem ser comprados de outra equipe. Por isso, o carro pesa tanto quanto o piloto no resultado.
- Motores. A F1 passou pelos V10 e pelos V8 de 2,4 litros até 2013. Desde 2014, usa motores V6 de 1,6 litro turbo com sistema híbrido.
- O regulamento de 2026. A maior mudança em uma década: a potência passou a vir quase metade do motor a combustão e metade da parte elétrica, que saltou de 120 para 350 kW. O combustível é 100% sustentável, as asas dianteira e traseira se ajustam durante a volta, e os carros ficaram mais curtos, 10 centímetros mais estreitos e 30 quilos mais leves.
- Dinheiro. Desde 2021, há teto de gastos. Em 2026, ele é de US$ 215 milhões por equipe por ano, valor que passou a incluir itens que antes ficavam de fora da conta.
- Velocidade. O recorde em corrida é de 372,5 km/h, de Valtteri Bottas, no GP do México de 2016.
Fórmula Indy: todos com o mesmo chassi
- Chassi único. Todas as equipes usam o mesmo chassi, feito pela italiana Dallara, o DW12, que estreou em 2012 e leva as iniciais de Dan Wheldon, piloto que morreu em 2011. Desde 2018 o pacote aerodinâmico é igual para todos, e desde 2020 os carros têm o aeroscreen, a proteção de cabine desenvolvida com a Red Bull.
- Motores. V6 de 2,2 litros com dois turbos, fornecido por Honda e Chevrolet. Em julho de 2024, a categoria adotou um sistema híbrido com ultracapacitores, que junto com o botão de ultrapassagem leva a potência a mais de 800 cavalos.
- O carro de 2028. Apresentado em julho de 2026, também da Dallara, terá motor V6 de 2,4 litros com até 760 cavalos, sistema híbrido com bateria e cerca de 45 quilos a menos.
- Pistas. Em 2026 foram 18 corridas: seis em ovais, seis em mistos e seis de rua.
- Velocidade. Nos ovais, a Indy é mais rápida que a F1. O recorde de Indianápolis é de Arie Luyendyk, em 1996: 237,498 milhas por hora numa volta, cerca de 382 km/h. A pole de 2026, de Álex Palou, foi a cerca de 374 km/h de média.
Em resumo. Na F1, o carro é a principal arma, e a equipe mais rica tende a ganhar. Na Indy, os carros são parecidos, e o acerto, a estratégia e o piloto fazem mais diferença. Por isso, a F1 costuma ter longas eras de domínio de uma equipe, e a Indy, temporadas mais imprevisíveis.
Os maiores campeões
| Categoria | Piloto | Títulos | Marca |
|---|---|---|---|
| F1 | Michael Schumacher | 7 (1994, 1995 e 2000 a 2004) | 91 vitórias |
| F1 | Lewis Hamilton | 7 (2008, 2012 a 2015 e 2017 a 2020) | 106 vitórias, recorde |
| Indy | A.J. Foyt | 7 | 67 vitórias, recorde; 4 vitórias nas 500 Milhas |
| Indy | Scott Dixon | 6 | Segundo maior campeão da história |
| Indy | Álex Palou | 5 (2021 e 2023 a 2026) | Quatro títulos seguidos |
- Na F1, Schumacher e Hamilton dividem o recorde de sete títulos. Hamilton tem o de vitórias: a 106ª veio em junho de 2026, em Barcelona, a primeira dele pela Ferrari. Max Verstappen foi tetracampeão seguido, de 2021 a 2024, e Lando Norris, da McLaren, ganhou o título de 2025 por dois pontos, na última corrida.
- Na Indy, A.J. Foyt tem sete títulos e 67 vitórias, e é um dos quatro pilotos que venceram as 500 Milhas quatro vezes, ao lado de Al Unser, Rick Mears e do brasileiro Hélio Castroneves. O espanhol Álex Palou fechou em 30 de agosto de 2026, em Milwaukee, o quinto título, o quarto seguido, com seis vitórias no ano. Só está atrás de Foyt e de Scott Dixon.
O Brasil nas duas
| Piloto | Fórmula 1 | Fórmula Indy |
|---|---|---|
| Emerson Fittipaldi | Campeão em 1972 e 1974 | Campeão da CART em 1989; venceu as 500 Milhas em 1989 e 1993 |
| Nelson Piquet | Campeão em 1981, 1983 e 1987 | Não disputou temporada completa |
| Ayrton Senna | Campeão em 1988, 1990 e 1991; 41 vitórias | Não correu |
| Gil de Ferran | Não correu | Campeão da CART em 2000 e 2001; venceu as 500 Milhas em 2003 |
| Cristiano da Matta | Correu pela Toyota em 2003 e 2004 | Campeão da CART em 2002 |
| Tony Kanaan | Não correu | Campeão da IRL em 2004; venceu as 500 Milhas em 2013 |
| Hélio Castroneves | Não correu | Venceu as 500 Milhas em 2001, 2002, 2009 e 2021 |
Emerson foi campeão da F1 aos 25 anos, o mais jovem da história até 2005, e depois abriu o caminho dos brasileiros nos Estados Unidos. Nos anos 1990 e 2000, o Brasil teve mais campeões na Indy que na F1. Nas 500 Milhas, pilotos brasileiros somam oito vitórias. Gil de Ferran, morto em dezembro de 2023, ainda tem o recorde de volta mais rápida num circuito fechado: 241,428 milhas por hora, cerca de 388,5 km/h, em Fontana, em 2000.
Em 2026, o Brasil tem um piloto em cada categoria. Na F1, Gabriel Bortoleto corre pela Audi, que comprou a Sauber, e marcou todos os dez pontos da equipe até o GP do Azerbaijão; a Audi já confirmou o brasileiro para 2027. Na Indy, o paulistano Caio Collet fez a temporada completa pela equipe de A.J. Foyt e liderou nove voltas nas 500 Milhas antes de bater na volta 191. Hélio Castroneves disputou só as 500 Milhas e virou o piloto com mais quilômetros percorridos na história da prova. A Indy correu em São Paulo de 2010 a 2013, no circuito de rua do Anhembi, e negocia uma volta ao Brasil em Goiânia, sem data confirmada.
Os que venceram nos dois mundos
- Jim Clark: venceu as 500 Milhas e o título da F1 no mesmo ano, 1965. É o único.
- Graham Hill: venceu as 500 Milhas em 1966 e é o único dono da Tríplice Coroa do automobilismo: título da F1, 500 Milhas e 24 Horas de Le Mans.
- Mario Andretti: venceu as 500 Milhas em 1969 e foi campeão da F1 em 1978. É o único piloto que soma as 500 Milhas de Indianápolis, as 500 Milhas de Daytona, da NASCAR (1967), e um título da F1.
- Nigel Mansell: campeão da F1 em 1992, foi para a CART e ganhou o título de 1993 como estreante. Por uma semana, foi ao mesmo tempo o campeão vigente das duas.
- Alexander Rossi (2016), Takuma Sato (2017 e 2020) e Marcus Ericsson (2022): outros vencedores das 500 Milhas que passaram antes pela F1.
- Jacques Villeneuve: venceu as 500 Milhas e o título da CART em 1995 e, dois anos depois, foi campeão da F1.
- Juan Pablo Montoya: venceu as 500 Milhas em 2000 e em 2015, com 15 anos de intervalo, recorde da prova, e correu na F1 entre as duas vitórias.
- Fernando Alonso: bicampeão da F1, tentou as 500 Milhas três vezes. Em 2017, liderou e abandonou com o motor quebrado; em 2019, não conseguiu se classificar; em 2020, terminou em 21º.
- Em 2026: Mick Schumacher, filho do heptacampeão, estreou na Indy pela Rahal Letterman Lanigan, foi o melhor estreante das 500 Milhas, em 18º, e vai para a Meyer Shank em 2027. Romain Grosjean, ex-F1, voltou à categoria pela Dale Coyne. O americano Colton Herta fez o caminho contrário, deixou a Indy para tentar a F1 e é reserva da nova equipe Cadillac.
Guia de telas
Fórmula 1
- Grand Prix (1966). De John Frankenheimer, com James Garner. Ganhou três Oscars e é referência em cenas de corrida.
- Senna (2010). Documentário de Asif Kapadia sobre Ayrton Senna, premiado no Bafta e em Sundance.
- Rush: No Limite da Emoção (2013). De Ron Howard, conta a rivalidade entre James Hunt e Niki Lauda em 1976.
- F1: O Filme (2025). De Joseph Kosinski, com Brad Pitt. Passou de US$ 600 milhões de bilheteria e ganhou o Oscar de Melhor Som.
- F1: Dirigir para Viver (Netflix). A série que popularizou a F1 entre novos fãs estreou em 2019 e chegou à oitava temporada em fevereiro de 2026.
- Senna (Netflix, 2024). Série de ficção com Gabriel Leone no papel do piloto.
Fórmula Indy
- Winning (1969). Com Paul Newman, filmado durante cerca de seis semanas no próprio autódromo de Indianápolis. Newman depois virou piloto e dono de equipe na Indy.
- Alta Velocidade (Driven, 2001). De Renny Harlin, com Sylvester Stallone. Se passa na CART, porque a F1 não apoiou o projeto, e usa imagens do GP do Rio de 2000.
- 100 Days to Indy. Série documental sobre os bastidores da preparação para as 500 Milhas. As duas primeiras temporadas passaram na The CW, em 2023 e 2024, e a terceira estreou na Fox Nation em 2025.
A temporada 2026 e onde assistir
Fórmula 1. Depois do GP do Azerbaijão, em 26 de setembro, o italiano Andrea Kimi Antonelli, da Mercedes, lidera com 302 pontos, 66 à frente do companheiro George Russell. A temporada teve duas corridas canceladas por causa da guerra no Oriente Médio, e o GP do Bahrein foi remarcado para a Malásia. O GP de São Paulo, em Interlagos, será de 6 a 8 de novembro, e o contrato do autódromo vai até 2030. No Brasil, a F1 voltou à Globo em 2026, com corridas na TV Globo, no SporTV e no Globoplay, depois de cinco temporadas na Band.
Fórmula Indy. A temporada acabou em 6 de setembro, em Laguna Seca, com vitória de Scott McLaughlin. Álex Palou foi campeão com 631 pontos, contra 545 de Kyle Kirkwood, que venceu a inédita Freedom 250, corrida de rua em Washington. A edição de 2026 das 500 Milhas teve a chegada mais apertada da história: Felix Rosenqvist venceu David Malukas por 0,0233 segundo. No Brasil, a Indy passou a ser transmitida pela Band em 2026, com contrato até 2028.
Duas escolas de velocidade
A Fórmula 1 é a competição das fábricas, dos orçamentos gigantes e da tecnologia que depois chega aos carros de rua, com eras marcadas por equipes dominantes. A Fórmula Indy é a competição dos ovais, dos carros iguais e das corridas decididas no detalhe, com a tradição de um evento que já passou dos cem anos. Uma não é a versão americana da outra: são duas escolas de velocidade, e o Brasil tem ídolos nas duas.
Nota de método
Os números foram conferidos nos sites oficiais da F1, da FIA, da IndyCar e do autódromo de Indianápolis, e na imprensa especializada. A classificação da F1 é a do fim de semana do GP do Azerbaijão, e a da Indy, a final de 2026.
Texto de Alexander Moraes, estudante de jornalismo.
Fontes
Fórmula 1: formula1.com (primeira corrida de 1950; compra pela Liberty; título de Norris em 2025; calendário 2026; regulamento de motores 2026); FIA (regulamento 2026); Motor Sport Magazine (GP da França de 1906; donos da F1; Audi); Autosport (Ecclestone); Motorsport.com (teto de gastos; vitórias; bilheteria de F1: O Filme); Williams (recordes de velocidade); PlanetF1 (Barcelona 2026; campeões mais jovens); RaceFans e GPFans (Azerbaijão 2026 e classificação); Sky Sports (calendário alterado); Racer (contrato de Interlagos); CNN Brasil (campeões brasileiros; Audi confirma Bortoleto; transmissão da Globo); Lance (pontos de Bortoleto); Guinness World Records; Itatiaia (Oscar de Melhor Som); Omelete (Dirigir para Viver); Netflix (série Senna); Britannica (Rush); site de Asif Kapadia (Senna).
Fórmula Indy: indianapolismotorspeedway.com (donos do autódromo; tetracampeões das 500 Milhas; recorde de Luyendyk; Indy 500 de 2026; filmes); indycar.com (Penske; híbrido; carro de 2028; calendário 2026; títulos de Palou; Foyt; Gil de Ferran; Kanaan; Caio Collet; Mick Schumacher; Grosjean; livro de recordes); History.com (primeira Indy 500); Indy Encyclopedia (USAC); PlanetF1 (racha e reunificação); Yahoo Sports (história oral de 1996; classificação final 2026; Alonso); Autosport (DW12); The Race (Luyendyk; Mansell); Racer (orçamentos; título de 2026; Washington); Fox Sports (pole de 2026); Motor Sport Magazine (vencedores da Indy 500 com passagem pela F1); USAC Hall of Fame (Mario Andretti); Motorsports Hall of Fame (Emerson Fittipaldi); Toyota (Cristiano da Matta); F1Mania (brasileiros na Indy 500); ESPN (São Paulo Indy 300); Grande Prêmio (Goiânia); AdoroCinema (Alta Velocidade); PR Newswire (100 Days to Indy); Máquina do Esporte e Band (transmissão).
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