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O decreto de desapropriação parou antes da Imigrantes, e o processo mostra quando o trecho final saiu
A primeira versão das plantas, de julho, ia até a Rodovia dos Imigrantes. Em agosto, a Procuradoria do Município tirou as duas últimas folhas, com 122.903 m², por serem, nas palavras do documento, “áreas descobertas por Lei de Melhoramento Viário”. O decreto publicado em setembro ficou com 497.215 m².
O seu imóvel está na área do decreto?
ou toque no mapa, no lugar do imóvel.
As áreas coloridas vêm de arquivos oficiais: o Decreto 65.546 e o trecho retirado, do GeoPackage do processo SEI 6022.2026/0004990-1; os decretos de 2009 e 2011, do GeoSampa. Perto da linha, a margem de erro é de alguns metros. A planta do projeto é a foto do painel apresentado pela Prefeitura, ajustada sobre o mapa, e serve só de ilustração. Para um imóvel específico, quem responde é a certidão do DESAP.
No mapa, a área laranja é a do Decreto 65.546. A cinza tracejada é o trecho que estava no projeto de julho e saiu antes da publicação. Toque no mapa no lugar de um imóvel para ver se ele fica dentro ou fora. A busca por nome de rua está no mapa das ruas do decreto.
O trecho que saiu do decreto
O processo administrativo do decreto, SEI 6022.2026/0004990-1, foi aberto pela Secretaria de Infraestrutura Urbana e Obras (SIURB) em 16 de julho, com o motivo “OUCAE – Prolongamento da Av. Jornalista Roberto Marinho”. No dia seguinte, a secretaria juntou sete plantas de desapropriação, um arquivo de desenho (DWG) e um arquivo de mapa (GeoPackage). Somadas, as sete folhas tinham cerca de 623 mil m².
| Folha | Trecho, segundo o carimbo | Área em julho e o que virou |
|---|---|---|
| 1 | Entre a Av. Dr. Lino de Moraes Leme e a Av. Hélio Lobo | Mesmo desenho da planta P-33.931, com 118.570 m² (a nota de julho dizia 118.550 m²) |
| 2 | Entre a R. Jorge Duprat Figueiredo e a R. Atos Damasceno | Virou a planta P-33.932, com 112.730 m², a mesma área do perímetro da nota de julho (o total da nota dizia 112.950 m²) |
| 3 | Entre a R. Atos Damasceno e a R. Belmiro Zanetti Esteves | 98.418 m². Virou a planta P-33.933, com 95.353 m², sem 3.065 m² da quadra 089-549 |
| 4 | Entre a R. Belmiro Zanetti Esteves e a R. Guian | 84.255 m². Virou a planta P-33.934, sem mudança |
| 5 | Entre a R. Guian e a R. Tupiritama | 86.307 m². Virou a planta P-33.935, sem mudança |
| 6 | Entre a R. Tupiritama e a R. Agapito José da Silva | 74.056 m². Retirada |
| 7 | Entre a R. Agapito José da Silva e a R. Dr. Rene Fernandes | 48.847 m². Retirada |
O desenho da folha 7 chega à Rodovia dos Imigrantes: no mapa, é a parte cinza que cruza a rodovia.
A explicação está numa informação da Procuradoria Geral do Município, assinada em 21 de agosto pela seção que preparou os elementos técnicos do decreto. O item 5 diz:
“Conforme entendimentos com DESAP G, deixamos de considerar as folhas 6 e 7 (docs. SEI 161325557 e 161325621) por abrangerem áreas descobertas por Lei de Melhoramento Viário. De igual modo, excluímos da folha 3 (planta P-33.933-A0 doc. SEI 163560426) 3.065,00 m² referentes à área da quadra fiscal 549 do setor 089 descoberta por Lei de Melhoramento Viário.”
Pelo sentido do texto, a Procuradoria considerou que não havia lei de melhoramento viário cobrindo aquelas áreas, e por isso as deixou fora do decreto. O documento não diz qual lei faltaria, nem se a Prefeitura pretende aprovar uma lei nova, publicar outro decreto ou mudar o traçado. Não sou jurista: descrevo o que os documentos dizem, sem avaliar se a Prefeitura agiu certo ou errado.
A camada de plantas de decreto do GeoSampa, carregada depois da publicação, ainda desenha a planta P-33.933 com esse pedaço da quadra 089-549, na R. Simão Rocha, perto da R. Elmano Sadino: no GeoSampa, a planta mede cerca de 98.400 m², e não os 95.353 m² do decreto. As outras quatro plantas coincidem com o arquivo do processo, com diferença de até 3 metros nas bordas.

A diferença pesa porque a obra contratada vai até a Imigrantes. Na descrição publicada pela própria Prefeitura em 18 de setembro, o complexo viário tem túneis e um viaduto estaiado sobre a rodovia. O decreto de setembro cobre o trecho entre a Av. Pedro Bueno e a região das ruas das Corruíras e dos Guassatungas. O caminho final até a rodovia ficou fora do Decreto 65.546. Cerca de 64% da área das folhas 6 e 7 estava nos perímetros dos decretos de 2009 e 2011; se esses decretos antigos ainda produzem efeito é questão jurídica que não avalio.
As três versões do desenho
O decreto de 2026 não saiu do zero. No portal de processos da Prefeitura, ele aparece ligado a um processo de março de 2025, o 6022.2025/0001581-9, que um leitor do AN Social encontrou. Comparando os arquivos de mapa das três versões, dá para ver o que mudou em cada passo.
| Versão | Data | Área | Situação |
|---|---|---|---|
| Plantas da SIURB no processo de 2025 | Março de 2025 (uma folha é de maio de 2024) | 246.786 m² em sete folhas | Sem número de planta e sem decreto |
| Plantas da SIURB | 17 de julho de 2026 | Cerca de 623 mil m² em sete folhas | Base do pedido de decreto |
| Plantas da Procuradoria | 6 e 7 de agosto de 2026 | 497.215 m² em cinco plantas | Viraram o Decreto 65.546 |
As plantas de 2025 eram divididas por tipo de obra: viário de ligação com a Imigrantes, via parque e parque linear com reservatório. Cerca de 78% da área delas está dentro do decreto de 2026. A exceção é justamente a ponta da Imigrantes: a folha de 2025 que levava a ligação até a rodovia não tem nenhum metro quadrado no decreto, e quase toda ela estava nas folhas 6 e 7 de julho.
O mesmo chão dos decretos de 2009 e 2011
Cerca de 94% da área do Decreto 65.546 já tinha sido declarada de utilidade pública pelos decretos 51.037, de 2009, e 52.862, de 2011, da mesma Operação Urbana Água Espraiada. Os cerca de 6% restantes são, na maior parte, faixas estreitas nas bordas.

Antes de fechar o decreto, a Procuradoria levantou as desapropriações antigas dentro da área. O resultado, em duas informações de 10 e 11 de agosto, mostra processos que se arrastam há mais de uma década:
- Dos decretos de 2009 e 2011, incluindo um de interesse social para habitação: 68 áreas estão em ações judiciais ainda em andamento, reunidas em 44 processos. Quase todos foram ajuizados entre 2014 e 2016. A Prefeitura conseguiu a imissão na posse, que é a autorização da Justiça para ocupar o imóvel, em 5 desses processos, e há carta de adjudicação registrada em cartório para 5 áreas.
- Do decreto 37.321, de 1998, do melhoramento do córrego Água Espraiada: 53 itens foram declarados de utilidade pública, e a Procuradoria não encontrou registro de ação judicial para nenhum deles.
- Uma ação de indenização de 1992, de quem alegava que a Prefeitura tinha ocupado uma área sem desapropriar, foi julgada improcedente em 1994, por falta de prova da ocupação.
Os levantamentos trazem nome de cada pessoa desapropriada. Não publico nomes: os números acima são a soma dos itens. Não sou jurista: descrevo o que os documentos dizem, sem avaliar se a Prefeitura agiu certo ou errado.
Do pedido à publicação
| Data | O que aconteceu |
|---|---|
| 16/07/2026 | A SIURB abre o processo do decreto |
| 17/07/2026 | Entram as sete plantas, o DWG, o GeoPackage e um encaminhamento que, segundo o parecer, informa a existência de justificativa técnica para a área |
| 21/07/2026 | O setor jurídico da SIURB considera o decreto “juridicamente viável” e avisa que não analisou os motivos técnicos |
| 21/07/2026 | Ofício do secretário Marcos Monteiro pede à Procuradoria a publicação do decreto, assinado só em 27/07, às 22h18 |
| 10 e 11/08/2026 | A Procuradoria levanta as desapropriações antigas na área |
| 21/08/2026 | A Procuradoria entrega as cinco plantas e tira as folhas 6 e 7 |
| 26 e 27/08/2026 | Assinam os secretários de Governo, Infraestrutura, Justiça e Casa Civil |
| 11/09/2026 | O prefeito Ricardo Nunes assina, às 21h36 |
| 14/09/2026 | O decreto sai no Diário Oficial |
| 15/09/2026 | A Procuradoria devolve o processo à SIURB para “as providências técnicas preparatórias das ações expropriatórias” |
Do pedido à publicação foram 60 dias. As plantas de março de 2025, que cobriam boa parte do mesmo trecho, ficaram mais de um ano sem virar decreto.
O que vem agora
Com o decreto publicado, a Procuradoria devolveu o processo à SIURB numa informação de 15 de setembro, “para as providências técnicas preparatórias das ações expropriatórias”. Em 16 de setembro, o gabinete da secretaria assinou o encaminhamento ao setor de desapropriações, onde o processo está, pedindo “análise e manifestação”. Os documentos não trazem calendário, valores nem a lista de imóveis.
Ficam perguntas sem resposta nos documentos que li:
- O que diz o encaminhamento 161326957, que, segundo o parecer, informa a justificativa técnica da área. Ainda não consegui abrir esse documento.
- Se e como a Prefeitura vai tratar o trecho até a Imigrantes, que ficou fora do Decreto 65.546.
- Por que a primeira informação da Procuradoria, de 10 de agosto, cita no cabeçalho três decretos de obras no Jardim Ângela, na região do M’Boi Mirim, sem relação com a Roberto Marinho. Parece sobra de modelo de outro processo.
Quem mora na área e quer entender os próprios direitos encontra o caminho no guia de desapropriação do AlexNews, com Defensoria Pública e escritórios-modelo que atendem de graça.
Nota de método
Li o texto do Decreto 65.546 no Catálogo de Legislação Municipal e a edição do Diário Oficial de 14 de setembro, e baixei pelo portal ARQUIP os documentos do processo SEI 6022.2026/0004990-1: as sete plantas de julho com o GeoPackage e o DWG, as cinco plantas do decreto, o parecer jurídico, o ofício, as quatro informações da Procuradoria, a minuta e os encaminhamentos. Os três decretos do Jardim Ângela citados por engano conferi no Catálogo de Legislação Municipal. A descrição da obra é a da página da Secretaria de Infraestrutura Urbana e Obras de 18 de setembro. A pista do processo de 2025 veio de um leitor no AN Social. As áreas e as porcentagens vêm do cruzamento dos arquivos de mapa, feito por mim: os números oficiais são os das plantas, e os meus cálculos têm margem de alguns metros nas bordas. Os perímetros de 2009 e 2011 vêm do GeoSampa, e em 2 de outubro comparei as cinco plantas com a camada do GeoSampa, carregada em 1º de outubro. Não sou jurista: descrevo o que os documentos dizem, sem avaliar se a Prefeitura agiu certo ou errado. Moro no traçado da obra e registro isso por transparência.
Apuração independente de Alexander Moraes, estudante de jornalismo, sem formação jurídica.
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