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Surfe e skate: dos quintais da Califórnia ao pódio olímpico, com o Brasil na crista da onda

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Esportes · Surfe e skate

O skate nasceu quando os surfistas da Califórnia ficaram sem ondas. Décadas depois, os dois estrearam juntos na Olimpíada, e o Brasil subiu ao pódio nos dois

Surfe e skate são irmãos. Um veio das ilhas da Polinésia e do Havaí; o outro, das calçadas e piscinas vazias da Califórnia, criado para imitar o movimento das ondas no asfalto. Por muito tempo, os dois foram vistos como passatempo ou até como rebeldia. Em Tóquio, estrearam no programa olímpico, e o Brasil saiu de lá com um ouro no surfe e três pratas no skate.

2021
Estreia olímpica do surfe e do skate
nos Jogos de Tóquio 2020
8
Títulos mundiais do Brasil no surfe
de 2014 a 2025
13
Idade de Rayssa Leal na prata olímpica
uma das medalhistas mais jovens do país
🌊

As raízes do surfe

O surfe tem origem polinésia e séculos de tradição no Havaí, onde fazia parte da vida social das ilhas. Os primeiros relatos europeus vieram das viagens do capitão James Cook. Em 1769, o naturalista Joseph Banks descreveu nativos do Taiti pegando ondas em canoas. Em março de 1779, cerca de um mês depois da morte de Cook no Havaí, o tenente James King registrou em seu diário os havaianos deslizando sobre as ondas em pranchas.

O grande divulgador do esporte no século 20 foi o havaiano Duke Kahanamoku, campeão olímpico de natação em 1912 e 1920. Ele fez exibições de surfe em Long Beach, na Califórnia, em 1913, e em Sydney, na Austrália, em dezembro de 1914, com uma prancha de madeira de cerca de 2,6 metros. Os dois lugares se tornariam potências do esporte.

O circuito profissional veio depois. A IPS, criada em 1976, organizou o primeiro circuito mundial. Em 1983, a ASP assumiu o comando, e em 2015 a entidade passou a se chamar World Surf League (WSL), nome atual do circuito.

🛹

O skate: surfe no asfalto

Nos anos 1950, surfistas da Califórnia procuravam algo para fazer quando o mar ficava sem ondas. Colocaram rodinhas de patins em tábuas e começaram a “surfar na calçada”. Em Los Angeles, o comerciante Bill Richard fechou parceria com uma fábrica de patins para vender os primeiros skates. Nos anos 1960, fabricantes de pranchas de surfe entraram no negócio, e em 1964 surgiu a primeira revista dedicada ao esporte.

  • 1972: Frank Nasworthy lança as rodas de uretano, que aderiam melhor ao chão e mudaram o que era possível fazer em cima do skate.
  • 1975 e 1976: os Z-Boys, grupo de Venice e Santa Monica com Tony Alva, Jay Adams, Stacy Peralta e Peggy Oki, levam o estilo do surfe para as competições. Na seca de 1976, piscinas vazias viram pistas, e nasce o skate vertical.
  • 1976 a 1982: Alan Gelfand cria o ollie, o salto com o skate “grudado” nos pés, e Rodney Mullen o adapta para o chão plano, base do skate de rua.
  • 1995: os X Games estreiam e colocam o skate na televisão de forma permanente.
🇧🇷

Como os dois chegaram ao Brasil

A primeira prancha de surfe feita no Brasil surgiu em Santos, entre 1937 e 1938, mas a autoria é disputada. A versão mais conhecida, registrada pela Prefeitura de Santos, credita Osmar Gonçalves, João Roberto Suplicy Haffers e Julio Putz, que construíram uma prancha de quase 4 metros inspirados numa revista americana. Outra versão, baseada no depoimento do próprio pioneiro, credita o americano Thomas Rittscher Jr., que morava em Santos e montou uma prancha a partir de um artigo da revista Popular Mechanics.

O skate chegou entre os anos 1960 e 1970, com o nome de “surfinho”, e seguiu o caminho do surfe: primeiro nas cidades litorâneas, depois nas metrópoles. Em 1976, Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, inaugurou a primeira pista de skate da América Latina. Em 1988, a Prefeitura de São Paulo chegou a proibir o skate na cidade. A Confederação Brasileira de Skate foi criada em 1999.

🥇

Juntos na Olimpíada

Jogos Surfe Skate
Tóquio 2020 (disputados em 2021) Ouro de Ítalo Ferreira, o primeiro campeão olímpico da história Pratas de Kelvin Hoefler (street), Rayssa Leal (street) e Pedro Barros (park)
Paris 2024 Prata de Tatiana Weston-Webb e bronze de Gabriel Medina, em Teahupoo, no Taiti Bronzes de Rayssa Leal (street) e Augusto Akio (park)
Los Angeles 2028 Em Lower Trestles, na Califórnia Esporte olímpico permanente, com provas no Sepulveda Basin
  • Tóquio. Kelvin Hoefler deu ao Brasil a primeira medalha dos Jogos, no skate street. Rayssa Leal ganhou a prata aos 13 anos. No surfe, Ítalo Ferreira venceu o japonês Kanoa Igarashi na final e conquistou o primeiro ouro do Brasil em Tóquio.
  • Paris. O surfe foi disputado a cerca de 15 mil quilômetros da capital francesa, na onda de Teahupoo. Ali nasceu uma das fotos mais famosas dos Jogos: Gabriel Medina “flutuando” ao lado da prancha depois de uma onda de nota 9,90, registrada pelo fotógrafo Jérôme Brouillet.
⛈️

A tempestade brasileira

A partir de 2014, o surfe mundial ganhou um apelido para a geração brasileira que passou a dominar o circuito: Brazilian Storm, a tempestade brasileira. Em 11 temporadas, o Brasil ganhou oito títulos mundiais masculinos.

Ano Campeão mundial
2014 Gabriel Medina
2015 Adriano de Souza, o Mineirinho
2018 Gabriel Medina
2019 Ítalo Ferreira
2021 Gabriel Medina
2022 Filipe Toledo
2023 Filipe Toledo
2025 Yago Dora

Em 2024, o título ficou com o havaiano John John Florence, que venceu Ítalo Ferreira na final. Em 2025, Yago Dora bateu o americano Griffin Colapinto na decisão, em Fiji, e devolveu a taça ao Brasil.

🛹

O Brasil no skate

  • Rayssa Leal: bicampeã mundial de street (2022 e 2024), dona de ouros no X Games e tetracampeã da liga mundial de street (SLS), título que fechou em dezembro de 2025, no Ibirapuera.
  • Augusto Akio e Pedro Barros: fizeram dobradinha no Mundial de park de 2024, em Roma, com Akio campeão e Barros em segundo.
  • Letícia Bufoni: com 12 medalhas nos X Games, entrou para o Guinness como recordista feminina da competição.
  • Sandro Dias, o Mineirinho do skate: multicampeão mundial no vert e medalhista de ouro nos X Games. Não confundir com Adriano de Souza, o Mineirinho do surfe.
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A temporada 2026 e onde assistir

Surfe. A WSL mudou o formato em 2026: o fim das finais em um só dia e a volta da decisão do título para Pipeline, no Havaí, entre 8 e 20 de dezembro. Depois da etapa de Lower Trestles, vencida por Miguel Pupo, Yago Dora assumiu a liderança do ranking masculino, com vantagem de mais de 2 mil pontos. O Grupo Globo detém os direitos de transmissão no Brasil, com SporTV e Globoplay, e a própria WSL costuma transmitir as provas de graça no site e no YouTube.

Skate. A temporada da liga de street (SLS) termina com o Super Crown de 12 e 13 de dezembro, de novo no Ibirapuera, em São Paulo. As transmissões ficam no site e no canal da liga no YouTube.

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Nas telas

  • The Endless Summer (1966). Documentário de Bruce Brown sobre dois surfistas atrás da onda perfeita pelo mundo. Virou clássico do cinema de surfe.
  • Caçadores de Emoção (Point Break, 1991). De Kathryn Bigelow, com Keanu Reeves e Patrick Swayze, mistura surfe e assaltos a banco.
  • Dogtown and Z-Boys (2001). Documentário de Stacy Peralta sobre os Z-Boys, premiado no Festival de Sundance. A história virou ficção em “Os Reis de Dogtown” (2005).
  • Anos 90 (Mid90s, 2018). Estreia de Jonah Hill na direção, sobre um garoto que encontra uma turma de skatistas em Los Angeles.
  • Make or Break (Apple TV+). Série documental sobre o circuito da WSL, com Medina e Ítalo, exibida entre 2022 e 2024.
  • Gabriel Medina (Globoplay, 2020). Documentário sobre a vida e a carreira do tricampeão mundial.
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Da contracultura ao pódio

Surfe e skate nasceram longe dos estádios e das federações, como estilo de vida mais do que como competição. A entrada na Olimpíada mudou a escala dos dois, trouxe patrocínio e transformou atletas em ídolos nacionais. No Brasil, a mudança foi ainda mais visível: o país que chegou a proibir o skate numa de suas maiores cidades viu uma menina de 13 anos subir ao pódio olímpico, e a geração que surfava nas praias do litoral brasileiro virou referência mundial.

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Nota de método

Conferi os dados nos sites da WSL, da World Skate, do Comitê Olímpico Internacional, da organização dos Jogos de Los Angeles e na imprensa especializada. A origem da primeira prancha brasileira é disputada entre as fontes, e por isso apresento as duas versões. O ranking do surfe é o de setembro de 2026, e o calendário final do circuito ainda pode mudar.

Texto de Alexander Moraes, estudante de jornalismo.

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Fontes

Surfe: Surf Research (relatos de Banks e King; Duke Kahanamoku em Sydney); Memória Santista e Prefeitura de Santos (primeira prancha brasileira); Waves (título de Yago Dora); Lance (títulos mundiais brasileiros); Olimpíada Todo Dia (formato da WSL 2026); The Inertia e Tracks (etapa de Lower Trestles e ranking); Wikipédia (origem do surfe; WSL; temporada 2024).

Skate: Wikipédia (história do skate; X Games; skate no Brasil; Rayssa Leal; Sandro Dias); PUC-SP (skate no Brasil); InfoMoney (tetra de Rayssa); CNN Brasil (Augusto Akio e Pedro Barros; Letícia Bufoni); Street League Skateboarding (temporada 2026 e Super Crown).

Olimpíada e telas: Comitê Olímpico do Brasil (Tóquio); CNN Brasil (Ítalo Ferreira); Surfer Today (foto de Medina); Wikipédia (surfe e skate em Paris 2024); World Skate e LA28 (Los Angeles 2028); NBC San Diego (Lower Trestles); Wikipédia (The Endless Summer; Point Break; Dogtown and Z-Boys; Lords of Dogtown; Mid90s); MacMagazine (Make or Break); AdNews (documentário de Medina).

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