⏳ Áudio em breve
O skate nasceu quando os surfistas da Califórnia ficaram sem ondas. Décadas depois, os dois estrearam juntos na Olimpíada, e o Brasil subiu ao pódio nos dois
Surfe e skate são irmãos. Um veio das ilhas da Polinésia e do Havaí; o outro, das calçadas e piscinas vazias da Califórnia, criado para imitar o movimento das ondas no asfalto. Por muito tempo, os dois foram vistos como passatempo ou até como rebeldia. Em Tóquio, estrearam no programa olímpico, e o Brasil saiu de lá com um ouro no surfe e três pratas no skate.
›O skate: surfe no asfalto
›Como os dois chegaram ao Brasil
›Juntos na Olimpíada
›A tempestade brasileira
›O Brasil no skate
›A temporada 2026 e onde assistir
›Nas telas
›Da contracultura ao pódio
As raízes do surfe
O surfe tem origem polinésia e séculos de tradição no Havaí, onde fazia parte da vida social das ilhas. Os primeiros relatos europeus vieram das viagens do capitão James Cook. Em 1769, o naturalista Joseph Banks descreveu nativos do Taiti pegando ondas em canoas. Em março de 1779, cerca de um mês depois da morte de Cook no Havaí, o tenente James King registrou em seu diário os havaianos deslizando sobre as ondas em pranchas.
O grande divulgador do esporte no século 20 foi o havaiano Duke Kahanamoku, campeão olímpico de natação em 1912 e 1920. Ele fez exibições de surfe em Long Beach, na Califórnia, em 1913, e em Sydney, na Austrália, em dezembro de 1914, com uma prancha de madeira de cerca de 2,6 metros. Os dois lugares se tornariam potências do esporte.
O circuito profissional veio depois. A IPS, criada em 1976, organizou o primeiro circuito mundial. Em 1983, a ASP assumiu o comando, e em 2015 a entidade passou a se chamar World Surf League (WSL), nome atual do circuito.
O skate: surfe no asfalto
Nos anos 1950, surfistas da Califórnia procuravam algo para fazer quando o mar ficava sem ondas. Colocaram rodinhas de patins em tábuas e começaram a “surfar na calçada”. Em Los Angeles, o comerciante Bill Richard fechou parceria com uma fábrica de patins para vender os primeiros skates. Nos anos 1960, fabricantes de pranchas de surfe entraram no negócio, e em 1964 surgiu a primeira revista dedicada ao esporte.
- 1972: Frank Nasworthy lança as rodas de uretano, que aderiam melhor ao chão e mudaram o que era possível fazer em cima do skate.
- 1975 e 1976: os Z-Boys, grupo de Venice e Santa Monica com Tony Alva, Jay Adams, Stacy Peralta e Peggy Oki, levam o estilo do surfe para as competições. Na seca de 1976, piscinas vazias viram pistas, e nasce o skate vertical.
- 1976 a 1982: Alan Gelfand cria o ollie, o salto com o skate “grudado” nos pés, e Rodney Mullen o adapta para o chão plano, base do skate de rua.
- 1995: os X Games estreiam e colocam o skate na televisão de forma permanente.
Como os dois chegaram ao Brasil
A primeira prancha de surfe feita no Brasil surgiu em Santos, entre 1937 e 1938, mas a autoria é disputada. A versão mais conhecida, registrada pela Prefeitura de Santos, credita Osmar Gonçalves, João Roberto Suplicy Haffers e Julio Putz, que construíram uma prancha de quase 4 metros inspirados numa revista americana. Outra versão, baseada no depoimento do próprio pioneiro, credita o americano Thomas Rittscher Jr., que morava em Santos e montou uma prancha a partir de um artigo da revista Popular Mechanics.
O skate chegou entre os anos 1960 e 1970, com o nome de “surfinho”, e seguiu o caminho do surfe: primeiro nas cidades litorâneas, depois nas metrópoles. Em 1976, Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, inaugurou a primeira pista de skate da América Latina. Em 1988, a Prefeitura de São Paulo chegou a proibir o skate na cidade. A Confederação Brasileira de Skate foi criada em 1999.
Juntos na Olimpíada
| Jogos | Surfe | Skate |
|---|---|---|
| Tóquio 2020 (disputados em 2021) | Ouro de Ítalo Ferreira, o primeiro campeão olímpico da história | Pratas de Kelvin Hoefler (street), Rayssa Leal (street) e Pedro Barros (park) |
| Paris 2024 | Prata de Tatiana Weston-Webb e bronze de Gabriel Medina, em Teahupoo, no Taiti | Bronzes de Rayssa Leal (street) e Augusto Akio (park) |
| Los Angeles 2028 | Em Lower Trestles, na Califórnia | Esporte olímpico permanente, com provas no Sepulveda Basin |
- Tóquio. Kelvin Hoefler deu ao Brasil a primeira medalha dos Jogos, no skate street. Rayssa Leal ganhou a prata aos 13 anos. No surfe, Ítalo Ferreira venceu o japonês Kanoa Igarashi na final e conquistou o primeiro ouro do Brasil em Tóquio.
- Paris. O surfe foi disputado a cerca de 15 mil quilômetros da capital francesa, na onda de Teahupoo. Ali nasceu uma das fotos mais famosas dos Jogos: Gabriel Medina “flutuando” ao lado da prancha depois de uma onda de nota 9,90, registrada pelo fotógrafo Jérôme Brouillet.
A tempestade brasileira
A partir de 2014, o surfe mundial ganhou um apelido para a geração brasileira que passou a dominar o circuito: Brazilian Storm, a tempestade brasileira. Em 11 temporadas, o Brasil ganhou oito títulos mundiais masculinos.
| Ano | Campeão mundial |
|---|---|
| 2014 | Gabriel Medina |
| 2015 | Adriano de Souza, o Mineirinho |
| 2018 | Gabriel Medina |
| 2019 | Ítalo Ferreira |
| 2021 | Gabriel Medina |
| 2022 | Filipe Toledo |
| 2023 | Filipe Toledo |
| 2025 | Yago Dora |
Em 2024, o título ficou com o havaiano John John Florence, que venceu Ítalo Ferreira na final. Em 2025, Yago Dora bateu o americano Griffin Colapinto na decisão, em Fiji, e devolveu a taça ao Brasil.
O Brasil no skate
- Rayssa Leal: bicampeã mundial de street (2022 e 2024), dona de ouros no X Games e tetracampeã da liga mundial de street (SLS), título que fechou em dezembro de 2025, no Ibirapuera.
- Augusto Akio e Pedro Barros: fizeram dobradinha no Mundial de park de 2024, em Roma, com Akio campeão e Barros em segundo.
- Letícia Bufoni: com 12 medalhas nos X Games, entrou para o Guinness como recordista feminina da competição.
- Sandro Dias, o Mineirinho do skate: multicampeão mundial no vert e medalhista de ouro nos X Games. Não confundir com Adriano de Souza, o Mineirinho do surfe.
A temporada 2026 e onde assistir
Surfe. A WSL mudou o formato em 2026: o fim das finais em um só dia e a volta da decisão do título para Pipeline, no Havaí, entre 8 e 20 de dezembro. Depois da etapa de Lower Trestles, vencida por Miguel Pupo, Yago Dora assumiu a liderança do ranking masculino, com vantagem de mais de 2 mil pontos. O Grupo Globo detém os direitos de transmissão no Brasil, com SporTV e Globoplay, e a própria WSL costuma transmitir as provas de graça no site e no YouTube.
Skate. A temporada da liga de street (SLS) termina com o Super Crown de 12 e 13 de dezembro, de novo no Ibirapuera, em São Paulo. As transmissões ficam no site e no canal da liga no YouTube.
Nas telas
- The Endless Summer (1966). Documentário de Bruce Brown sobre dois surfistas atrás da onda perfeita pelo mundo. Virou clássico do cinema de surfe.
- Caçadores de Emoção (Point Break, 1991). De Kathryn Bigelow, com Keanu Reeves e Patrick Swayze, mistura surfe e assaltos a banco.
- Dogtown and Z-Boys (2001). Documentário de Stacy Peralta sobre os Z-Boys, premiado no Festival de Sundance. A história virou ficção em “Os Reis de Dogtown” (2005).
- Anos 90 (Mid90s, 2018). Estreia de Jonah Hill na direção, sobre um garoto que encontra uma turma de skatistas em Los Angeles.
- Make or Break (Apple TV+). Série documental sobre o circuito da WSL, com Medina e Ítalo, exibida entre 2022 e 2024.
- Gabriel Medina (Globoplay, 2020). Documentário sobre a vida e a carreira do tricampeão mundial.
Da contracultura ao pódio
Surfe e skate nasceram longe dos estádios e das federações, como estilo de vida mais do que como competição. A entrada na Olimpíada mudou a escala dos dois, trouxe patrocínio e transformou atletas em ídolos nacionais. No Brasil, a mudança foi ainda mais visível: o país que chegou a proibir o skate numa de suas maiores cidades viu uma menina de 13 anos subir ao pódio olímpico, e a geração que surfava nas praias do litoral brasileiro virou referência mundial.
Nota de método
Conferi os dados nos sites da WSL, da World Skate, do Comitê Olímpico Internacional, da organização dos Jogos de Los Angeles e na imprensa especializada. A origem da primeira prancha brasileira é disputada entre as fontes, e por isso apresento as duas versões. O ranking do surfe é o de setembro de 2026, e o calendário final do circuito ainda pode mudar.
Texto de Alexander Moraes, estudante de jornalismo.
Fontes
Surfe: Surf Research (relatos de Banks e King; Duke Kahanamoku em Sydney); Memória Santista e Prefeitura de Santos (primeira prancha brasileira); Waves (título de Yago Dora); Lance (títulos mundiais brasileiros); Olimpíada Todo Dia (formato da WSL 2026); The Inertia e Tracks (etapa de Lower Trestles e ranking); Wikipédia (origem do surfe; WSL; temporada 2024).
Skate: Wikipédia (história do skate; X Games; skate no Brasil; Rayssa Leal; Sandro Dias); PUC-SP (skate no Brasil); InfoMoney (tetra de Rayssa); CNN Brasil (Augusto Akio e Pedro Barros; Letícia Bufoni); Street League Skateboarding (temporada 2026 e Super Crown).
Olimpíada e telas: Comitê Olímpico do Brasil (Tóquio); CNN Brasil (Ítalo Ferreira); Surfer Today (foto de Medina); Wikipédia (surfe e skate em Paris 2024); World Skate e LA28 (Los Angeles 2028); NBC San Diego (Lower Trestles); Wikipédia (The Endless Summer; Point Break; Dogtown and Z-Boys; Lords of Dogtown; Mid90s); MacMagazine (Make or Break); AdNews (documentário de Medina).
Comentários
Nenhum comentário publicado ainda. Seja o primeiro.
