⏳ Áudio em breve
Antes de virar um negócio bilionário nos Estados Unidos, o MMA foi desafio de academia no Rio de Janeiro. E, antes de o UFC dominar o mundo, o Japão teve o evento mais popular do planeta
A história das artes marciais mistas tem três endereços principais: o vale-tudo brasileiro, que nasceu com a família Gracie; o UFC, criado em 1993 para provar qual estilo de luta era o melhor; e o Pride, o gigante japonês que reuniu as maiores estrelas do esporte até ser comprado pelo rival, em 2007. O Brasil tem capítulos decisivos nos três.
›O nascimento do UFC
›O Pride e a era japonesa
›UFC x Pride: regras e estilos
›Os brasileiros campeões do UFC
›Os cinturões em 2026 e onde assistir
›Nas telas
›Da academia ao octógono
As raízes brasileiras
Tudo começa com o japonês Mitsuyo Maeda, conhecido como Conde Koma, que chegou ao Brasil por volta de 1914 e fez demonstrações em Belém a partir de 1915. Maeda ensinava a luta que aprendera no Japão, na escola de judô de Jigoro Kano. Em 1917, um garoto de 14 anos chamado Carlos Gracie assistiu a uma dessas apresentações e virou seu aluno. Carlos repassou o que aprendeu aos irmãos, entre eles Hélio, e os dois são considerados os fundadores do jiu-jítsu brasileiro.
Para provar a eficiência do método, a família passou a aceitar desafios contra lutadores de qualquer estilo, em combates quase sem regras, que ficaram conhecidos como vale-tudo. O mais famoso aconteceu em 23 de outubro de 1951, no Maracanã: Hélio Gracie enfrentou o japonês Masahiko Kimura, cerca de 30 quilos mais pesado, diante de aproximadamente 20 mil pessoas. Kimura venceu com uma chave de braço aos 13 minutos, depois que Carlos jogou a toalha. O golpe passou a ser chamado de “kimura” no mundo todo.
Nas décadas seguintes, o vale-tudo chegou à televisão com o programa Heróis do Ringue, da TV Continental, no Rio, e ganhou uma rivalidade própria: jiu-jítsu contra luta livre. Em 1942, Euclydes Hatem, criador da luta livre, venceu George Gracie; em 1991, um evento transmitido pela TV Globo colocou os dois estilos frente a frente, com três vitórias do jiu-jítsu.
O nascimento do UFC
Rorion Gracie, filho de Hélio, mudou-se para a Califórnia em 1978. Lançou o vídeo “Gracie in Action”, em 1988, abriu uma academia em Torrance e se associou ao publicitário Art Davie para criar um torneio que respondesse à velha pergunta: qual arte marcial é a mais eficiente?
- UFC 1 (12 de novembro de 1993, Denver): oito lutadores, sem categorias de peso, sem rounds e sem juízes. Só era proibido morder, enfiar o dedo no olho e golpear a virilha. Os árbitros eram os brasileiros João Alberto Barreto e Hélio Vigio. Royce Gracie venceu Gerard Gordeau na final.
- A fase maldita: em 1996, o senador americano John McCain chamou o esporte de “rinha de galos humana” e pressionou as operadoras de TV a cabo. O alcance do pay-per-view do UFC despencou no fim da década.
- As regras unificadas: aprovadas em 2000 em Nova Jersey, criaram categorias de peso, rounds e uma lista de golpes proibidos. O UFC 28, em novembro de 2000, foi o primeiro evento sob essas regras.
- A virada: em janeiro de 2001, Dana White e os irmãos Fertitta compraram o UFC por US$ 2 milhões, segundo o próprio White. O reality show The Ultimate Fighter, que estreou em abril de 2005, levou o esporte ao grande público.
- O negócio bilionário: em 2016, o UFC foi vendido para o grupo WME-IMG por cerca de US$ 4 bilhões. Em 2023, fundiu-se com a WWE, de luta livre encenada, e formou o TKO Group.
O Pride e a era japonesa
Enquanto o UFC lutava para sobreviver, o Japão criou um fenômeno. O Pride Fighting Championships estreou em 11 de outubro de 1997, no Tokyo Dome, com Rickson Gracie finalizando o ídolo local Nobuhiko Takada com uma chave de braço no primeiro round. Em pouco tempo, o evento lotava estádios e reunia os melhores lutadores do mundo.
Os brasileiros foram protagonistas. Wanderlei Silva, da academia Chute Boxe, de Curitiba, venceu o Grand Prix de 2003 e virou um dos maiores ídolos da história do evento. Rodrigo Minotauro e Maurício Shogun também fizeram carreira no Japão antes de chegar ao UFC. Entre os estrangeiros, o russo Fedor Emelianenko e o croata Mirko Cro Cop viraram lendas.
O fim veio rápido. Em 2006, a emissora Fuji TV rompeu o contrato de transmissão depois de denúncias de ligação do evento com a máfia japonesa, a yakuza. Em março de 2007, Lorenzo Fertitta, dono do UFC, comprou o Pride. O último evento foi em abril daquele ano, e as principais estrelas migraram para o octógono.
UFC x Pride: regras e estilos
| Critério | UFC | Pride |
|---|---|---|
| Local de luta | Octógono, com grade | Ringue, com cordas |
| Rounds | 3 de 5 minutos (5 rounds em disputas de cinturão) | Primeiro round de 10 minutos, seguido de dois de 5 |
| Oponente caído | Chutes e joelhadas na cabeça proibidos | Chutes, pisões e joelhadas na cabeça permitidos |
| Cotoveladas | Permitidas, com restrições | Proibidas na cabeça |
| Formato marcante | Disputas de cinturão por categoria | Grand Prix, torneios eliminatórios em uma ou duas noites |
As diferenças mudavam o jeito de lutar. No Pride, os chutes na cabeça de quem estava no chão, os chamados “soccer kicks”, e os pisões favoreciam lutadores agressivos, como Wanderlei Silva. Os rounds longos também premiavam quem aguentava ritmo alto por muito tempo. No UFC, a grade virou ferramenta de luta, usada para prender o adversário ou se levantar do chão.
Os brasileiros campeões do UFC
| Categoria | Brasileiros campeões |
|---|---|
| Peso-pesado | Minotauro (interino, 2008), Júnior Cigano (2011 e 2012) e Fabrício Werdum (interino em 2014; campeão em 2015 e 2016) |
| Meio-pesado | Vitor Belfort (2004), Lyoto Machida (2009 e 2010), Maurício Shogun (2010 e 2011), Glover Teixeira (2021 e 2022) e Alex Poatan (2023 a 2026) |
| Peso-médio | Murilo Bustamante (2002), Anderson Silva (2006 a 2013) e Alex Poatan (2022 e 2023) |
| Peso-leve | Rafael dos Anjos (2015 e 2016) e Charles do Bronx (2021 e 2022) |
| Peso-pena | José Aldo (2010 a 2015), o primeiro campeão da categoria no UFC |
| Peso-galo | Renan Barão (interino em 2012 e 2013; campeão em 2014) |
| Peso-mosca | Deiveson Figueiredo (2020 e 2021; 2022 e 2023) e Alexandre Pantoja (2023 a 2025) |
| Feminino | Amanda Nunes (galo, 2016 a 2023, e pena), Cris Cyborg (pena, 2017 e 2018), Jéssica Andrade (palha, 2019) e Mackenzie Dern (palha, desde 2025) |
Antes dos cinturões por categoria, Royce Gracie, Marco Ruas e Vitor Belfort venceram torneios do UFC nos anos 1990. Dois recordes merecem destaque. Anderson Silva ficou 2.457 dias como campeão dos médios, com dez defesas seguidas, o reinado mais longo da história da organização. E Amanda Nunes foi a primeira mulher a ter cinturões em duas categorias ao mesmo tempo, depois de nocautear Cris Cyborg em 51 segundos, em dezembro de 2018.
O Brasil também sediou o UFC desde cedo. O primeiro evento no país foi em 16 de outubro de 1998, em São Paulo, quando Vitor Belfort nocauteou Wanderlei Silva em 44 segundos. Depois de quase 13 anos de espera, o UFC 134, no Rio, em agosto de 2011, abriu uma sequência de eventos no país. O mais recente foi em outubro de 2025, também no Rio, o 41º em solo brasileiro.
Os cinturões em 2026 e onde assistir
A situação atual. O Brasil vive uma fase rara, com apenas uma campeã: Mackenzie Dern, que conquistou o cinturão peso-palha em outubro de 2025 ao vencer a também brasileira Virna Jandiroba. Alex Poatan deixou o cinturão dos meio-pesados para subir de categoria e perdeu para o francês Ciryl Gane em junho de 2026, na disputa do título interino dos pesados, no evento realizado na Casa Branca. Alexandre Pantoja perdeu o cinturão dos moscas para Joshua Van no UFC 323, depois de uma lesão em 26 segundos de luta, e voltou a perder a revanche em 19 de setembro.
O próximo capítulo. Em 3 de outubro, no UFC 332, em Salt Lake City, Natália Silva disputa o cinturão vago dos moscas femininos contra a chinesa Wang Cong. Nenhuma brasileira foi campeã dessa categoria.
Onde assistir. Desde janeiro de 2026, todos os eventos do UFC no Brasil são transmitidos com exclusividade pelo Paramount+, sem pay-per-view à parte. O serviço de streaming próprio do UFC no país foi encerrado.
Nas telas
- Choke (1999). Documentário de Robert Raphael Goodman que acompanha Rickson Gracie num torneio de vale-tudo no Japão, em 1995.
- Anderson Spider Silva (Paramount+, 2023). Série de ficção sobre a trajetória do lutador, com William Nascimento no papel principal. Foi indicada ao Emmy Internacional em 2024.
- The Smashing Machine (2025). Filme de Benny Safdie com Dwayne Johnson no papel de Mark Kerr, lutador americano que brilhou no Pride. A história passa pelo Grand Prix japonês de 2000.
Da academia ao octógono
O MMA moderno é resultado de um encontro improvável: uma técnica japonesa adaptada por uma família brasileira, transformada em espetáculo por empresários americanos e levada ao auge por um evento japonês. O UFC venceu a disputa comercial e comprou o rival, mas as regras, os estilos e boa parte dos ídolos que construíram o esporte vieram do vale-tudo e do Pride. E, mesmo numa fase com menos cinturões, o Brasil segue entre os países que mais produzem lutadores de ponta.
Nota de método
Conferi os dados no site oficial do UFC, na base de resultados do Sherdog e na imprensa especializada em lutas. Parte da história do vale-tudo brasileiro vem de relatos da época e de enciclopédias, e por isso evitei números que só aparecem numa única fonte. A situação dos cinturões é a de 29 de setembro de 2026.
Texto de Alexander Moraes, estudante de jornalismo.
Fontes
Raízes e UFC: ufc.com (Hélio x Kimura; 30 anos do UFC; regras unificadas; The Ultimate Fighter; primeiro evento no Brasil; UFC no Rio); ufc.com.br (lista de campeões; rankings; UFC Freedom 250; UFC 332; Paramount+); Museu da TV (Heróis do Ringue); Slate (John McCain); EssentiallySports (compra pela Zuffa); ESPN (venda à WME-IMG); TKO Group (fusão com a WWE); Wikipédia (Maeda; Rorion Gracie; UFC 1; vale-tudo e luta livre).
Pride: Sherdog (Pride 1); Wikipédia (regras, Grand Prix e fim do evento).
Campeões e 2026: ufc.com (maiores reinados; Amanda Nunes; UFC 331); CNN Brasil (Mackenzie Dern); ESPN (UFC 323); Ag. Fight (Ciryl Gane); Lance (calendário 2026).
Telas: Bloody Elbow (Choke); Wikipédia (Anderson Spider Silva; The Smashing Machine).
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