⏳ Áudio em breve
A operação urbana que pagou a ponte estaiada agora precisa pagar a Roberto Marinho
A Água Espraiada nasceu há quase 25 anos para financiar obras na Zona Sul com a venda do direito de construir prédios mais altos. Refiz a história dela, do córrego desapropriado nos anos 1970 ao contrato de 2026, e fiz as contas do que sobra no caixa para terminar a avenida.
⏱️ Em 1 minuto
O que é: um combinado da cidade para uma região da Zona Sul. Quem quer construir acima do limite normal no Brooklin, na Berrini ou no Jabaquara compra títulos da Prefeitura, e esse dinheiro fica num caixa separado, que só pode ser gasto em obras dentro da própria região.
O que já pagou: a ponte estaiada, parte do prolongamento da Av. Chucri Zaidan, desapropriações e os primeiros conjuntos de moradia popular para famílias removidas.
O que falta: levar a Roberto Marinho até a Imigrantes, fazer o parque ao longo do córrego e dar casa definitiva a centenas de famílias que esperam no auxílio-aluguel, algumas há mais de 15 anos.
A conta: o caixa tem cerca de R$ 630 milhões, parte deles reservada para moradia. Só o contrato da obra custa R$ 2,2 bilhões, sem contar as desapropriações. O resto depende de vender os títulos que sobraram.
O relógio: a operação já tem regra para acabar. Cerca de três quartos do espaço extra de construção já foi usado; quando chegar a 95%, começa a contagem final.
🗺️Onde ela vale
🏚️Antes da lei: a avenida e as remoções
📅Linha do tempo
💰De onde veio e para onde foi o dinheiro
🏠As moradias prometidas
🔁A regra que mudou três vezes
🛣️Como tudo isso chega à Roberto Marinho
➡️O que vem agora
O que é uma operação urbana, sem complicação
Toda área da cidade tem um limite de quanto se pode construir em cada terreno. Numa operação urbana, a Prefeitura escolhe uma região e diz: quem quiser passar desse limite paga a mais por isso. O pagamento é feito com um título chamado CEPAC, que funciona como um vale para construir metros quadrados extras. Ele é vendido em leilão na bolsa de valores, como uma ação.
A diferença para um imposto comum está no destino do dinheiro. Ele não vai para o caixa geral da Prefeitura. Fica numa conta separada e só pode ser gasto nas obras que a lei da operação lista para aquela região. É como um cofre do bairro, com regra de uso escrita.
O “consorciada” do nome quer dizer que a operação tem dono coletivo: um grupo com representantes da Prefeitura e da sociedade civil acompanha as contas e as decisões. As reuniões são abertas ao público.
📎 Para quem quer conferir: a base legal
- O modelo vem do Estatuto da Cidade (Lei federal 10.257/2001), artigos 32 a 34. O artigo 34 autoriza o município a emitir “certificados de potencial adicional de construção”, que serão “alienados em leilão ou utilizados diretamente no pagamento das obras necessárias à própria operação”.
- A Água Espraiada foi criada pela Lei municipal 13.260, de 28 de dezembro de 2001. O artigo 11 autorizou a emissão de 3.750.000 CEPACs. A lei foi assinada por Hélio Bicudo, então prefeito em exercício.
- O registro e a negociação dos CEPACs na bolsa seguem a Instrução CVM 401/2003. O primeiro leilão foi em 20 de julho de 2004.
- O artigo 19 criou o Grupo de Gestão (GGOUCAE). A composição atual tem 18 titulares, metade do poder público e metade da sociedade civil, entre elas IAB, OAB, FAU-USP, Instituto de Engenharia, Secovi e associações de moradores. A composição está na portaria publicada pela SP Urbanismo, e atas e apresentações ficam na página da operação.
Onde ela vale
A operação cobre partes de seis distritos da Zona Sul: Jabaquara, Campo Belo, Itaim Bibi, Morumbi, Vila Andrade e Santo Amaro. É a faixa que acompanha o antigo córrego Água Espraiada, da Marginal Pinheiros até a Imigrantes, mais o miolo comercial do Brooklin e da Berrini.
O espaço extra para construir foi dividido em pedaços, um para cada setor. E a procura foi muito desigual. Na Berrini, quase não sobrou nada. No Jabaquara, onde passa a obra, o mercado praticamente não comprou: dos 250 mil metros quadrados reservados, foram usados menos de 8 mil.
📎 Para quem quer conferir: o estoque por setor
| Setor | Permitido (mil m²) | Usado (mil m²) | % |
|---|---|---|---|
| Brooklin | 1.400 | 830 | 59% |
| Berrini | 350 | 338 | 97% |
| Marginal Pinheiros | 600 | 459 | 77% |
| Chucri Zaidan | 2.000 | 1.803 | 90% |
| Jabaquara | 250 | 8 | 3% |
| Total | 4.600 | 3.438 | 74,7% |
Posição de 24 de abril de 2026, no quadro de controle de estoque do grupo gestor. Os limites por setor são os da Lei 16.975/2018, que também criou uma reserva técnica de 250 mil m². A lei de 2001 dividiu a área em sete setores; Americanópolis e o setor de ZEIS não têm estoque para venda. Na apresentação de agosto, o total usado já era de 3.464.432 m². Se a conta incluir a reserva técnica, a base sobe para 4,85 milhões de m² e o uso fica perto de 71%.
Antes da lei: a avenida e as remoções
A história começa bem antes da operação. Nos anos 1970, as margens do córrego Água Espraiada foram desapropriadas para um anel viário que nunca saiu do papel. O terreno ficou vazio, e nele cresceram favelas, entre elas a Jardim Edite, perto da Berrini.
Nos anos 1990, na gestão Paulo Maluf, a Prefeitura abriu a avenida entre a Marginal Pinheiros e a Av. Dr. Lino de Moraes Leme. A obra custou cerca de R$ 800 milhões, e parte desse dinheiro foi desviada, segundo a acusação aceita pela Justiça. O Supremo Tribunal Federal condenou o ex-prefeito por lavagem de dinheiro tirado da construção da avenida, com pena de sete anos e nove meses.
Para abrir a avenida, favelas inteiras foram removidas. A pesquisadora Mariana Fix, que estudou a região, falou em mais de 50 mil pessoas expulsas, a maioria sem outra alternativa senão ir para outras favelas. As ofertas relatadas por moradores e pesquisadores eram uma quantia em dinheiro, uma passagem de volta para a terra natal ou um apartamento em conjuntos distantes, como Cidade Tiradentes. Parte da Jardim Edite resistiu, e os moradores que ficaram só ganharam um conjunto habitacional no mesmo lugar quase 20 anos depois.
Foi só depois de a avenida pronta que a operação urbana virou lei, na virada de 2001 para 2002. Ela trouxe a promessa de reassentamento definitivo para as famílias atingidas pelas obras dali em diante. Em 2003, a avenida ganhou o nome atual, Jornalista Roberto Marinho.
📎 Para quem quer conferir: as fontes desta parte
- Condenação: a Primeira Turma do STF condenou Paulo Maluf em maio de 2017, e a pena foi confirmada em 10 de outubro de 2017. Segundo a Agência Brasil, o dinheiro foi desviado da “construção da Avenida Água Espraiada, hoje chamada Avenida Roberto Marinho”, obra de cerca de R$ 800 milhões.
- Remoções dos anos 1990: Mariana Fix (2004), citada no estudo da revista Oculum, fala na “expulsão de mais de cinqüenta mil pessoas, a maioria sem outra alternativa senão ir para outras favelas”. Em artigo de 2009 no Caderno CRH, a mesma autora fala em mais de 15 mil famílias. Não existe cadastro oficial público desse período, e por isso os números variam.
- Desapropriação dos anos 1970: as fontes divergem sobre o ano (1970 ou 1972) e sobre o órgão do projeto. Não achei o ato original.
- Uma confusão comum: a Lei 11.732/1995 é da Operação Urbana Faria Lima, e não da Água Espraiada. Nos anos 1990, a Água Espraiada não chegou a virar lei.
Linha do tempo
Aqui ficam as datas, todas num lugar só, para quem quiser seguir a ordem dos fatos.
| Quando | O que aconteceu |
|---|---|
| Anos 1970 | Margens do córrego são desapropriadas para um anel viário que não é construído |
| Anos 1990 | Gestão Maluf abre a avenida e remove favelas ao longo do córrego |
| 28/12/2001 | Lei cria a Operação Urbana Consorciada Água Espraiada |
| 2003 | A avenida passa a se chamar Jornalista Roberto Marinho |
| 20/07/2004 | Primeiro leilão: 100 mil CEPACs a R$ 300 cada |
| 10/05/2008 | Inauguração da ponte estaiada Octavio Frias de Oliveira, paga pela operação |
| 2009 e 2011 | Decretos marcam a área do prolongamento até a Imigrantes para desapropriação |
| 22/07/2011 | Lei aprova o túnel até a Imigrantes e reserva 10% do dinheiro para moradia popular |
| 2012 | Leilões arrecadam R$ 1,73 bilhão, o maior volume da história da operação; conselho ambiental aprova o estudo de impacto do prolongamento, com o túnel |
| 14/02/2013 | Prefeitura suspende o túnel por “inversão de prioridade” |
| 2013 | Entrega dos primeiros conjuntos populares: Corruíras, Gutemberg e Jardim Edite |
| 03/09/2018 | Nova lei sobe para 30% a fatia da moradia popular e amplia o número de títulos |
| 2022 | Volta dos leilões, depois de dez anos: R$ 570 milhões, com o título a R$ 3.200 |
| 25/07/2024 | Lei fixa 35% para moradia popular e cria a regra de encerramento da operação |
| 2024 | Prolongamento da Chucri Zaidan é retomado com novo contrato |
| Fevereiro de 2025 | Parceria com o Estado (CDHU) para 590 apartamentos no Campo Belo |
| Maio de 2025 | Prefeitura lança a licitação do prolongamento da Roberto Marinho |
| Janeiro de 2026 | Contrato assinado com a Acciona e suspenso dias depois por liminar da Justiça |
| 24/02/2026 | Ordem de serviço do contrato |
| 31/03/2026 | Linha 17-Ouro do monotrilho é inaugurada sem o trecho até o Jabaquara |
| Setembro de 2026 | Decreto marca 497.215 m² para desapropriação no Jabaquara e no Campo Belo |
| 04/11/2026 | Próxima reunião pública do grupo gestor |
De onde veio e para onde foi o dinheiro
A venda dos títulos rendeu cerca de R$ 3,5 bilhões. Com o rendimento do dinheiro guardado no banco, entraram R$ 4,7 bilhões no caixa da operação. Saíram R$ 4,07 bilhões. A maior fatia foi para obras, seguida de desapropriações e de moradia popular. Uma parte menor ajudou a pagar o Metrô.
O preço do título conta a história da valorização da região. No primeiro leilão, cada CEPAC saiu por R$ 300. Nos leilões de 2022, por R$ 3.200 ou pouco mais, mais de dez vezes o valor inicial. Mas o segundo leilão de 2022 mostrou o limite: de 160 mil títulos oferecidos, só 18.100 foram vendidos.
A obra mais conhecida paga com esse dinheiro é a ponte estaiada, aberta há 18 anos sobre o Rio Pinheiros e virada cartão-postal da cidade. O custo atestado foi de cerca de R$ 230 milhões.
📎 Para quem quer conferir: o caixa e os leilões
| Entradas até 31/03/2026 | Valor |
|---|---|
| Leilões de CEPAC | R$ 3.461.450.058,00 |
| Colocação privada de CEPAC | R$ 55.030.819,86 |
| Rendimento financeiro líquido | R$ 1.319.180.037,92 |
| Desvinculação (Decreto 57.380/2016) | −R$ 130.017.045,82 |
| Total de entradas | R$ 4.705.643.869,96 |
| Saídas até 31/03/2026 | Valor |
|---|---|
| Obras e serviços | R$ 1.525.416.136,47 |
| Desapropriação | R$ 867.568.286,86 |
| Habitação de Interesse Social | R$ 627.229.673,76 |
| Desapropriação para HIS | R$ 373.171.768,02 |
| Transporte coletivo (Metrô) | R$ 390.109.364,47 |
| Taxa de administração | R$ 228.951.843,70 |
| Outras despesas | R$ 56.694.929,05 |
| Total de saídas | R$ 4.069.142.002,33 |
Saldo em 31/03/2026: R$ 636.501.867,63, dos quais R$ 195,1 milhões vinculados a moradia popular. Fonte: extrato financeiro do grupo gestor, março de 2026. Em maio, o saldo era de R$ 630.981.023, segundo a apresentação da 80ª reunião.
| Leilões | Preço por CEPAC | Arrecadado |
|---|---|---|
| 2004 a 2006 | R$ 300 a 371 | R$ 102,8 mi |
| 2007 | R$ 411 | R$ 130,6 mi |
| 2008 | R$ 1.110 | R$ 207,3 mi |
| 2008 a 2010 | R$ 535 a 750 | R$ 722,9 mi |
| 2012 | R$ 1.261 e 1.282 | R$ 1,73 bi |
| 2022 | R$ 3.200 e 3.214,09 | R$ 570,2 mi |
Leilões até 2012: relatório trimestral à CVM, 1º trimestre de 2019. Leilões de 2022: julho (160 mil vendidos a R$ 3.200) e novembro (18.100 de 160 mil vendidos a R$ 3.214,09). Um primeiro leilão marcado para março de 2022 foi suspenso por cautelar do Tribunal de Contas do Município. A ponte estaiada foi inaugurada em 10/05/2008, com custo atestado de R$ 229.679.423,86 entre 2004 e 2008, segundo o relatório da Caixa à CVM do 4º trimestre de 2019.
As moradias prometidas
Desde o começo, a lei da operação prometeu reassentamento definitivo para as famílias atingidas pelas obras. Na prática, essa foi a parte mais lenta. Os primeiros conjuntos só ficaram prontos 11 anos depois da lei.
A tabela mais recente do grupo gestor lista 963 apartamentos entregues em seis conjuntos. Fora dela, a Prefeitura conta também o Jardim Edite, com 252 apartamentos, creche, posto de saúde e restaurante-escola, no lugar da antiga favela. Ainda assim, 630 famílias removidas esperam casa definitiva recebendo auxílio-aluguel, algumas desde 2009. Só com esse auxílio já foram gastos cerca de R$ 71 milhões.
A obrigação de gastar com moradia popular foi crescendo a cada mudança da lei: primeiro 10% do dinheiro arrecadado, depois 30%, e agora 35%. O que está em obra são quatro prédios no Campo Belo, em parceria com o governo do Estado, e dois conjuntos menores. Em abril, o grupo gestor previa as entregas do Campo Belo entre agosto e dezembro deste ano.
Pesquisadores olham esse resultado com críticas. Um estudo publicado na revista Oculum, da PUC-Campinas, calculou que menos de 9% das cerca de 8.500 famílias cadastradas tinham sido atendidas em 15 anos de operação. Um estudo citado pelo LabCidade, da FAU-USP, apontou que só 7% dos recursos tinham ido para moradia até 2013. A Prefeitura, por sua vez, já afirmou ter entregue mais de 1.800 unidades.
📎 Para quem quer conferir: os conjuntos e as famílias
| Conjunto | Apartamentos | Entrega |
|---|---|---|
| Corruíras | 244 | abr/2013 |
| Gutemberg | 19 | abr/2013 |
| HIS 18 Nova Esperança | 102 | jun/2016 |
| HIS 46 Belford Duarte | 254 | jun/2018 |
| HIS 42 Pérola Byington | 44 | nov/2019 |
| Estevão Baião | 300 | jun/2021 |
| Total da tabela | 963 |
- Fonte da tabela: apresentação da 79ª reunião do grupo gestor, 06/05/2026, que também traz “630 famílias que aguardam em Auxílio Aluguel desde 2009”, a meta de “atendimento definitivo das 856 famílias removidas” e o gasto acumulado de R$ 70.910.750 com auxílio-aluguel.
- Jardim Edite: 252 apartamentos, inaugurado em junho de 2013, segundo a Secretaria de Habitação. O conjunto não aparece na tabela do grupo gestor.
- Em obra: quatro condomínios no Campo Belo, com 590 apartamentos em parceria com a CDHU (acordo de fevereiro de 2025), entre 36% e 55% prontos em abril de 2026; e os conjuntos HIS-27 e HIS-41, com 61,7% e 76,9% da obra feita, segundo a apresentação de agosto.
- Percentual para moradia: 10% pela Lei 15.416/2011, 30% pela Lei 16.975/2018 (artigo 20) e 35% pela Lei 18.174/2024 (artigo 18), sempre sobre o que for arrecadado a partir de cada lei. Na aprovação de 2018, a Câmara registrou 8.500 famílias cadastradas, das quais 1.789 em auxílio-aluguel.
- Críticas: Paulo Emilio Buarque Ferreira, Oculum, 2019; LabCidade/FAU-USP, citando Santoro e Macedo, 2014, que registra 7% na Água Espraiada e 8% na Faria Lima até 2013. A Prefeitura citou mais de 1.800 unidades entregues em 2022; a diferença para as 963 da tabela pode estar em conjuntos contados de outra forma, e não consegui fechar essa conta.
A regra que mudou três vezes
A lei da operação não ficou parada. Desde que nasceu, ela foi reescrita três vezes, e cada mudança respondeu a um problema do momento.
A primeira mudança, há 15 anos, desenhou a ligação com a Imigrantes: um túnel por baixo do bairro, com um parque em cima. Também criou a primeira reserva obrigatória para moradia popular. O túnel chegou a ter estudo ambiental aprovado, mas foi suspenso pouco depois, quando a Prefeitura decidiu priorizar moradias, o parque e a Chucri Zaidan. Contei essa parte na matéria sobre o túnel que nunca foi cavado.
A segunda, há oito anos, aumentou a fatia da moradia popular, autorizou a venda de mais títulos e redistribuiu o espaço extra entre os setores. Parte das desapropriações de ruas saiu dessa lei para ser tratada separadamente.
A terceira, há dois anos, criou o fim da operação. Quando 95% do espaço extra de construção estiver usado, começa uma transição de até cinco anos. Depois disso, os títulos que a Prefeitura ainda tiver são cancelados, os de particulares perdem a validade, e a região volta à regra comum de construção da cidade. A mesma lei transformou o projeto da avenida numa “Avenida Parque” e permitiu parcerias com empresas privadas para fazê-la.
📎 Para quem quer conferir: as leis
- Lei 15.416, de 22/07/2011: aprova “via expressa subterrânea em túnel, promovendo a ligação da atual Av. Jornalista Roberto Marinho à Rodovia dos Imigrantes”, conforme as plantas BE-04-7B-002 a 008, com as alterações das plantas 26.933/01 a 09, e fixa o mínimo de 10% da receita de CEPAC para HIS.
- Estudo de impacto ambiental do prolongamento: aprovado pela Resolução 144/CADES/2012, de 10/02/2012. A suspensão do túnel, em 14/02/2013, está na nota da SPObras.
- Lei 16.975, de 03/09/2018: artigo 20 (30% para HIS) e artigo 11 (até 4.490.999 CEPACs). Os estoques por setor são os da tabela acima.
- Lei 18.174, de 25/07/2024: ementa “Aprova a etapa de encerramento da Lei nº 13.260”; artigo 1º, I: “o período de transição iniciar-se-á quando o estoque de área adicional de construção consumido atingir 95%”; artigo 18: “no mínimo 35% dos recursos arrecadados a partir da promulgação desta Lei”; artigos 3º-A e 3º-B: parceria público-privada ou concessão para a Avenida Parque.
Como tudo isso chega à Roberto Marinho
O prolongamento da avenida até a Imigrantes é a maior obra que a operação ainda deve. O contrato, assinado com a Acciona, vale R$ 2,22 bilhões com o reajuste e tem quatro anos de prazo. O projeto mudou bastante desde o túnel de 15 anos atrás: agora são viadutos, dois túneis curtos e um viaduto estaiado sobre a rodovia, com um parque linear ao longo do córrego. Em setembro, a Prefeitura publicou o decreto que marca a área para desapropriação.
O dinheiro em caixa cobre menos de um terço do contrato, e nem todo ele pode ir para a obra: perto de R$ 195 milhões estão reservados para moradia popular. O que fica livre, cerca de R$ 450 milhões no começo do ano, paga um quinto do contrato. E o contrato não inclui as desapropriações nem os apartamentos para quem for removido, que saem de outras contas. Para fechar, a Prefeitura conta com novos leilões dos títulos que restam e, se faltar, com dinheiro do orçamento geral da cidade.
Fiz uma conta simples, que não é oficial. Restam 921.900 títulos para vender. Se todos saíssem pelo preço do último leilão, entrariam cerca de R$ 3 bilhões. Tirando os 35% obrigatórios para moradia, sobrariam perto de R$ 1,9 bilhão para obras. Só que, no último leilão, o mercado comprou pouco mais de um décimo do que foi oferecido.
Há também o relógio da operação. Com três quartos do espaço extra já usado, a contagem final pode começar antes de a avenida ficar pronta. Quando a transição acabar, os títulos que a Prefeitura não vendeu deixam de valer, e com eles a principal fonte de dinheiro da obra.
Por fim, há uma peça de lei pendente. As plantas do decreto de setembro param na R. Tupiritama, antes da rodovia, como mostra o mapa da área. Em fevereiro, nos documentos do grupo gestor, a Prefeitura registrou que aguardava “o novo Decreto e Lei de Melhoramento Viário”. O decreto saiu; a lei, não achei. A lei que existe aprovou o túnel antigo, por outras plantas, e o projeto contratado é outro desenho.
A obra também conversa com o monotrilho. A Linha 17-Ouro corre ao longo da avenida e foi inaugurada neste ano sem o trecho até o Jabaquara. A operação urbana já repassou R$ 390 milhões para o Metrô.
📎 Para quem quer conferir: a obra em números
- Contrato 01/SPOBRAS/2026: R$ 2.099.437.055,00 a preços iniciais e R$ 2.221.403.850,71 com reajuste; ordem de serviço em 24/02/2026; prazo de 48 meses; 1,30% medido até junho de 2026 (R$ 27,4 milhões). Fonte: 80ª reunião do grupo gestor.
- O contrato foi suspenso em 22/01/2026 por liminar do Tribunal de Justiça, em recurso de uma concorrente (Diário do Transporte). A ordem de serviço saiu em 24/02. Não encontrei a decisão que derrubou a liminar.
- Projeto atual, segundo o comunicado da Prefeitura de 18/09/2026: 4,7 km em cada sentido, três viadutos (um estaiado sobre a Imigrantes), dois túneis de cerca de 460 m, parque linear de cerca de 320 mil m² e conclusão prevista para fevereiro de 2030. A apresentação de agosto do grupo gestor fala em término em junho de 2030.
- Lei de melhoramento: a apresentação de 04/02/2026 registra “Aguardando assinatura do novo Decreto e Lei de Melhoramento Viário”. O decreto é o Decreto 65.546/2026.
- Desapropriações e reassentamento ficam fora do contrato, segundo a resposta da SPObras à consulta pública 01/25. O aviso de licitação de maio de 2025 prevê a obra paga pela operação, com possível complementação do Tesouro municipal.
- Conta não oficial: 921.900 × R$ 3.214,09 = cerca de R$ 2,96 bilhões; menos 35% para HIS = cerca de R$ 1,93 bilhões. Em novembro de 2022, foram vendidos 18.100 de 160 mil CEPACs oferecidos (11%).
- Linha 17-Ouro: inaugurada em 31/03/2026 com 6,7 km, sem o trecho até o Jabaquara (Diário do Transporte). Repasse da operação ao Metrô: R$ 390.109.364,47 até março de 2026.
O que vem agora
- Reunião aberta em 4 de novembro. É a primeira do grupo gestor depois do decreto. A reunião é pública, e a ata sai depois na página da operação.
- Novo leilão de títulos. A SP Urbanismo prepara a contratação de estudos econômicos sobre como financiar o que falta. Não há data oficial para um novo leilão.
- Entrega dos apartamentos do Campo Belo. É a parte que mais interessa às famílias que estão no auxílio-aluguel.
- A lei do trecho final. Em fevereiro, a Prefeitura registrou que aguardava uma lei de melhoramento viário. Não achei sinal dela até agora.
Se você mora na área da obra, o mapa da desapropriação mostra se a sua rua está dentro. Os seus direitos estão explicados no guia de desapropriação.
Nota de método
Li as leis da operação no site de legislação da Prefeitura e no acervo da Câmara Municipal, e os números do caixa, do estoque e das moradias nos documentos do grupo gestor publicados pela SP Urbanismo. Os leilões até 2012 vêm do relatório trimestral enviado à CVM. Conferi as somas das tabelas: as entradas menos as saídas dão exatamente o saldo de março, e os seis conjuntos somam 963 apartamentos.
A parte dos anos 1970 e 1990 depende de pesquisas acadêmicas e reportagens, porque não há cadastro público das remoções daquela época. Onde as fontes divergem, deixei a divergência registrada na caixa da seção. A conta do que os títulos restantes poderiam render é minha e não é previsão oficial.
Vou atualizar a linha do tempo e os números do caixa a cada reunião do grupo gestor e a cada novo leilão, com a data da mudança registrada no fim do texto.
Não sou jurista: descrevo o que as leis e os documentos dizem, sem avaliar se a Prefeitura agiu certo ou errado. Moro no traçado da obra e registro isso por transparência.
Apuração independente de Alexander Moraes, estudante de jornalismo, sem formação jurídica.
Leia também
🚧O túnel da Roberto Marinho que nunca foi cavado
⚖️Desapropriação: o que a lei garante a quem mora no caminho da obra
Fontes
- Lei federal 10.257/2001 (Estatuto da Cidade); Lei municipal 13.260/2001; Lei 15.416/2011; Lei 16.975/2018; Lei 18.174/2024; Decreto 65.546/2026.
- Grupo de Gestão da OUCAE: extrato financeiro de março de 2026; controle de estoque de abril de 2026; apresentações das reuniões 78ª, 79ª e 80ª.
- Relatório trimestral da OUCAE à CVM, 1º trimestre de 2019; notícias da Gestão Urbana sobre os leilões de julho e novembro de 2022 e a suspensão de março de 2022.
- Resolução 144/CADES/2012; nota da SPObras sobre a suspensão do túnel; Secretaria de Habitação sobre o Jardim Edite; parceria com a CDHU; Câmara Municipal, aprovação de 2018; comunicado da Prefeitura de 18/09/2026.
- Agência Brasil sobre a condenação de Paulo Maluf; Mariana Fix, Caderno CRH; Paulo Emilio Buarque Ferreira, Oculum; LabCidade/FAU-USP; Diário do Transporte sobre a liminar de janeiro e a Linha 17-Ouro.
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