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1.356 deputados ocuparam 513 cadeiras em 16 anos, o retrato de 4 legislaturas.

Alex News — 1.441 deputados ocuparam 513 cadeiras em 16 anos, o retrato de 4 legislaturas. — Politica

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Câmara dos Deputados · Dados

O retrato de quem passou pela Câmara entre 2003 e 2019

Peguei o cadastro oficial de quatro legislaturas seguidas e contei nome por nome. Em dezesseis anos, 1.356 pessoas diferentes ocuparam as 513 cadeiras da Câmara dos Deputados. Mais da metade delas apareceu uma única vez e nunca mais voltou.

1.356
Pessoas diferentes
para 513 cadeiras, em 16 anos
706
Passaram uma vez só
52,1% do total
102
Atravessaram as quatro
7,5%, dezesseis anos seguidos
9,9%
De mulheres, no melhor ano
51 das 513 eleitas em 2014

A Câmara dos Deputados publica um cadastro com todo mundo que passou por lá, e ele fica aberto para qualquer pessoa baixar. Peguei o arquivo que cobre as legislaturas 52 a 55, ou seja, de 2003 a 2019, e escrevi um programa para somar o que o arquivo permite somar.

São 2.481 registros. Como a mesma pessoa aparece uma vez por legislatura em que esteve, o número de gente de carne e osso é menor: 1.441.

🪑 Por que trabalho com 1.356, e não com 1.441

Dessas 1.441 pessoas, 85 aparecem apenas como suplentes que nunca foram convocados. Constam do registro da legislatura para a qual concorreram e jamais sentaram na cadeira.

Como aqui a conta é de quem ocupou vaga, elas ficam de fora dos números. Sobram 1.356 pessoas que em algum momento exerceram o mandato, seja como titular eleito, seja como suplente chamado.

Quem entrou e saiu no meio do caminho continua na conta, porque ocupou a cadeira. São 174 casos de vacância, gente que morreu, renunciou ou saiu para assumir ministério, secretaria ou prefeitura.

🚪

A porta giratória

O dado que mais me chamou atenção é a rotatividade. Boa parte de quem chega à Câmara não volta.

Apareceu em Pessoas Proporção
1 legislatura 706 52,1%
2 legislaturas 366 27,0%
3 legislaturas 182 13,4%
4 legislaturas 102 7,5%

Quantas das quatro legislaturas entre 2003 e 2019 cada uma das 1.356 pessoas ocupou. Quem aparece nas quatro foi eleito em 2002, 2006, 2010 e 2014.

Ou seja: a cada dez pessoas que ocupam uma cadeira, cinco vêm uma vez e somem. E sete em cada cem ficam os dezesseis anos inteiros.

Esse grupo de 102 é o que dá continuidade à Casa. São eles que conhecem o regimento de cor, presidem comissão e sabem onde cada projeto emperra. Também são eles que os partidos protegem na hora de montar a lista.

🔄 Onde a cadeira troca mais de dono

Cruzei o número de pessoas distintas de cada estado com o número de cadeiras que ele tem. O resultado mede quanta gente diferente ocupou a mesma vaga ao longo dos dezesseis anos.

A média do país é de 2,64 pessoas por cadeira. Só que ela varia bastante.

Onde mais troca: Alagoas, com 3,44 pessoas por cadeira, seguida de Roraima, Distrito Federal e Acre, com 3,12 cada.

Onde menos troca: Goiás, com 2,12, Santa Catarina com 2,25, Bahia com 2,36 e Paraná com 2,37.

Repare no padrão: os estados de bancada pequena aparecem no topo da rotatividade, e os de bancada grande, embaixo. Com oito ou nove cadeiras, uma troca já mexe muito na conta. Com cinquenta, o efeito se dilui.

👩

O teto que quase não se moveu

Cada uma das quatro legislaturas elegeu exatamente 513 titulares, o que torna a comparação limpa.

Legislatura Mulheres eleitas Proporção
52ª (2003-2007) 42 8,2%
53ª (2007-2011) 45 8,8%
54ª (2011-2015) 45 8,8%
55ª (2015-2019) 51 9,9%

Mulheres entre os 513 deputados titulares eleitos em cada legislatura, conforme o cadastro oficial da Câmara.

Em dezesseis anos e quatro eleições, a Câmara ganhou nove deputadas. A proporção saiu de 8,2% para 9,9%, um avanço de menos de dois pontos.

Parte desse número tem explicação legal. A exigência de que cada partido registre no mínimo 30% de candidaturas de cada sexo existe desde 2009 e valia, portanto, para três das quatro eleições dessa série. A cota é de candidatura, não de cadeira, e o intervalo entre uma coisa e outra é exatamente o que a tabela mostra.

💼

A profissão que domina

O cadastro traz a profissão declarada por cada parlamentar. Das 1.356 pessoas, 1.135 preencheram o campo.

⚖️ Advogado, 214

Quase uma em cada cinco pessoas com profissão declarada. Nenhuma outra chega perto.

🏢 Empresário e produtor rural, 152

Inclui industrial, comerciante, pecuarista e produtor rural, que são atividades vizinhas no cadastro.

🩺 Médico, 123

Contando as especialidades declaradas separadamente, como pediatra e cardiologista.

📚 Professor, 104

Junto com pedagogo e educador.

📐 Engenheiro, 100

Civil, agrônomo, elétrico e demais especialidades somadas.

📊 Administrador e contador, 75

Seguidos de servidor público com 56, economista com 46 e jornalismo e comunicação com 41.

Ficam de fora do ranking 201 pessoas cuja profissão não se encaixa em nenhuma família grande. Ali aparecem agropecuarista, bancário, arquiteto, metalúrgico, sociólogo, corretor de imóveis e até quem declarou simplesmente “político”.

🙏 Sete religiosos e um sindicalista

Chama atenção o tamanho de dois grupos que costumam aparecer no debate público como blocos organizados.

Somando pastor, padre, bispo e missionário, são sete pessoas que declararam profissão religiosa em dezesseis anos. Sindicalista aparece uma vez.

Isso não mede a força da bancada evangélica nem da sindical, que se organizam por frente parlamentar e reúnem gente de várias profissões. Mede outra coisa: como cada um escolhe se apresentar no cadastro oficial. Quem é pastor e advogado costuma escrever advogado.

🪑

Os 158 que não foram eleitos e viraram deputados

Tem um caminho para a Câmara que quase não aparece na cobertura de eleição: a suplência.

Nas quatro legislaturas, 158 pessoas entraram como suplentes e foram efetivadas. Elas assumiram porque o titular morreu, renunciou, virou ministro, secretário estadual ou prefeito, ou perdeu o mandato.

Para dar tamanho ao número: 158 pessoas é mais do que a bancada de qualquer partido isolado na Câmara de hoje.

📋 O rodízio dentro do mandato

Os registros mostram o movimento por dentro. Aparecem 177 casos de vacância e 108 de licenciamento, além de 60 registros de suplência entre quem chegou a ser convocado.

É o retrato de uma Casa em que a cadeira raramente fica com a mesma pessoa do primeiro ao último dia dos quatro anos.

🗺️

De onde vem cada um

São Paulo mandou 200 pessoas diferentes à Câmara no período, seguido de Minas Gerais com 129 e do Rio de Janeiro com 127. No outro extremo, Amazonas e Rio Grande do Norte mandaram 20 cada.

A diferença parece enorme, mas ela quase desaparece quando se divide pelo número de cadeiras de cada estado, como mostrei mais acima. São Paulo tem 2,86 pessoas por cadeira, e o Rio Grande do Norte, 2,50. Perto demais para valer manchete.

É a mesma lógica que explica por que o voto para deputado funciona diferente do voto para presidente. Escrevi um guia sobre o quociente eleitoral, que é a conta que decide quem ocupa essas cadeiras.

🏛️

Os partidos daquele tempo

Uma curiosidade que o arquivo entrega de graça: o ranking de partidos daquele período parece de outro país.

O PT aparece na frente, com 381 registros, seguido de perto pelo PMDB, com 374, e pelo PSDB, com 288. Depois vêm DEM com 171, PSB com 140, PP com 131, PTB com 114 e PDT com 107. Ainda aparecem 84 registros do PFL.

A liderança entre os dois primeiros é frágil, e vale explicar por quê. Contando todo mundo que consta do cadastro, inclusive os suplentes nunca convocados, o PMDB passa à frente com 391 contra 389. Contando só quem ocupou cadeira, que é o critério adotado aqui, o PT fica com 381 contra 374. São sete registros de diferença num universo de 2.481, ou seja, empate técnico com dois critérios possíveis.

Dessas siglas, várias mudaram de nome, se fundiram ou encolheram. O PFL virou DEM, que depois se fundiu com o PSL e virou União Brasil. O PMDB voltou a se chamar MDB. Nenhum dos três primeiros colocados daquele ranking lidera a Câmara hoje.

🧾 Nota de método

Os números saem do arquivo XML de cadastro de parlamentares publicado pela Câmara dos Deputados, cobrindo as legislaturas 52 a 55. Escrevi um programa para processar os 2.481 registros, e ele está descrito abaixo.

Registro não é pessoa. Quem esteve em três legislaturas aparece três vezes. Por isso a contagem de gente usa o identificador de cadastro, e não a linha do arquivo.

Nem todo nome do cadastro ocupou cadeira. O arquivo traz 1.441 pessoas, e 85 delas aparecem só como suplentes que nunca foram convocados. Elas ficam fora de todas as contagens, e a base usada aqui é de 1.356. Quem exerceu e depois saiu, por vacância ou licença, continua na conta, porque chegou a ocupar a vaga.

Comparei apenas titulares na tabela de gênero. Cada legislatura tem exatamente 513 titulares, o que torna a comparação justa. Se eu somasse suplentes, o resultado sairia torto: o arquivo foi gerado em maio de 2015, poucos meses depois do início da 55ª legislatura, e por isso ela aparece com 32 suplentes e nenhum efetivado, contra 97 e 61 da legislatura anterior, que já tinha corrido inteira.

O campo de profissão precisou ser limpo. Ele vem com maiúsculas e minúsculas misturadas, e “Advogado” e “ADVOGADO” contavam separado. Sem essa limpeza, advogado apareceria com 68 em vez de 214, e o ranking inteiro sairia errado. Agrupei também as especialidades numa mesma família, como pediatra e cardiologista dentro de médico. Quem quiser conferir encontra os agrupamentos no programa.

Profissão é autodeclaração. O parlamentar escreve o que quer, e muita gente com duas formações escolhe só uma. Os números medem como cada um se apresenta, não o que cada um exerce.

A série termina em 2019 porque é até onde vai este arquivo. As legislaturas 56 e 57, que cobrem de 2019 até hoje, ficam para uma próxima.

🧭

Leia também

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Fontes

Cadastro de parlamentares da Câmara dos Deputados, arquivo XML das legislaturas 52 a 55, obtido no serviço de Dados Abertos da Casa. Os dados são públicos e de uso livre.

Distribuição de cadeiras por estado conforme a Lei Complementar nº 78/1993, que fixa o total de 513 e não sofre alteração desde então, e o artigo 45 da Constituição Federal, que estabelece o piso de oito e o teto de setenta cadeiras por unidade da federação.

Cota de gênero conforme a Lei nº 12.034/2009, que alterou a Lei nº 9.504/1997.

Todos os cálculos foram feitos por mim a partir do arquivo original.

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