⏳ Áudio em breve
Dois candidatos querem reduzir o número de cidades do Brasil. A Constituição exige plebiscito em cada fusão, e nenhum dos dois planos fala nisso
Li o que os seis planos de governo dizem sobre fundir ou extinguir municípios. Depois conferi o que a Constituição exige, por que o país passou quase 30 anos sem regra para mexer no mapa das cidades, o que aconteceu com a proposta parecida do governo Bolsonaro e o que mostram as fusões feitas em outros países.
›Os seis lado a lado
›Como o Brasil chegou a 5.569 cidades
›O que a Constituição exige
›A PEC que tentou extinguir 1.254 municípios
›Os números do plano que propõe a fusão
›O que aconteceu em outros países
›Os pontos em discussão
›O que fica para o eleitor
O que cada plano propõe
Renan Santos (Missão)
Renan, p. 15: o plano promete a “maior reorganização territorial da história republicana brasileira”, batizada de Grande Consolidação Municipal, com a meta de “reduzir o número de municípios brasileiros em até 70%, de 5.570 para algo próximo de 1.656”.
O critério de corte vem da PEC 188/2019: seria considerado inviável o município sem “arrecadação direta de impostos de competência municipal (IPTU, ISS e ITBI), equivalente a pelo menos 10% da receita total”. As antigas sedes “manterão status de distrito ou subprefeitura”, e o governo federal faria uma “transição cuidadosa nos repasses do FPM”.
É a proposta mais ambiciosa e a mais detalhada: lista cinco medidas, entre elas um Marco Legal da Consolidação Municipal e uma nova lei para o Fundo de Participação dos Municípios. O plano afirma que “A consolidação não será imposição de Brasília sobre o território.” Mas não menciona plebiscito, que a Constituição exige para qualquer fusão, nem o papel das assembleias estaduais, que são quem aprova a lei de fusão.
Romeu Zema (Novo)
Zema, p. 74: propõe “Criar um programa que estimule a união progressiva de municípios sem sustentação financeira para ampliar a escala na prestação de serviços”, “sem abrir mão do nome e da identidade de cada comunidade”.
A ideia é a mesma de Renan, mas em versão mais branda: fala em estimular, e não em impor, e não traz meta de número de municípios, critério de corte, custo nem prazo. Também não menciona plebiscito.
Flávio Bolsonaro (PL)
Flávio, p. 69: “Promoveremos a revisão do pacto federativo e a redefinição das regras e dos processos orçamentários”.
Flávio, p. 68: diz que, no governo do pai, “o município deixou de ser um subordinado que pede favor em Brasília e passou a ser tratado como parceiro”.
O plano não fala em fundir ou extinguir municípios. O detalhe é que a proposta mais conhecida de extinção de cidades pequenas, a PEC 188/2019, foi apresentada pelo líder do governo Jair Bolsonaro no Senado, como parte do pacote do ministro Paulo Guedes. O plano do filho não a retoma.
Augusto Cury (Avante)
Cury, p. 37 e 38: “Será revisto o atual formato de divisão federativa dos tributos que, atualmente, favorece a União e os Estados desfavorecendo os Municípios.” E conclui que “o ideal seria menos União Federal e mais municípios”.
Vai na direção oposta à de Renan e Zema: em vez de reduzir o número de prefeituras, quer dar mais dinheiro a elas. Não fala em fusão.
Ronaldo Caiado (PSD)
O plano não fala em fusão nem em extinção de municípios. A solução que aparece para cidades pequenas é o consórcio, a parceria entre prefeituras para dividir um serviço. No capítulo de turismo, diz que “Consórcios permitirão que pequenos municípios compartilhem promoção, sinalização, calendários e serviços” (p. 97).
Lula (PT)
O plano não fala em fusão nem em extinção de municípios. A única menção a arranjos entre cidades está no capítulo ambiental, que defende “arranjos regionais de planejamento e governança, envolvendo União, estados, municípios, consórcios públicos” (p. 71).
Os seis lado a lado
| Candidato | Propõe fundir municípios? | Como | Fala em plebiscito? |
|---|---|---|---|
| Renan Santos | Sim | Programa federal com meta de chegar a cerca de 1.656 municípios | Não |
| Romeu Zema | Sim, por estímulo | Programa para incentivar a união de municípios sem sustentação financeira | Não |
| Flávio Bolsonaro | Não | Revisão do pacto federativo, sem detalhar | Não se aplica |
| Augusto Cury | Não | Mais dinheiro dos tributos para os municípios | Não se aplica |
| Ronaldo Caiado | Não | Consórcios entre municípios pequenos | Não se aplica |
| Lula | Não | Arranjos regionais e consórcios, no capítulo ambiental | Não se aplica |
Como o Brasil chegou a 5.569 cidades
| Ano | Municípios |
|---|---|
| 1940 | 1.574 |
| 1960 | 2.765 |
| 1980 | 3.992 |
| 1991 | 4.491 |
| 2000 | 5.507 |
| 2010 | 5.565 |
| 2025 | 5.569 |
O salto maior veio depois da Constituição de 1988, que deixou a criação de municípios a cargo de leis estaduais. Entre 1991 e 2000, segundo o IBGE, 1.016 municípios foram emancipados, um aumento de 18% em nove anos. Para cada novo município nasciam uma prefeitura, uma câmara de vereadores e uma nova cota do Fundo de Participação dos Municípios, dividida com todos os outros do mesmo estado.
Em 1996, a Emenda Constitucional 15 fechou a porteira: passou a exigir uma lei complementar federal definindo o período em que cidades podem ser criadas, fundidas ou divididas. Essa lei não veio, e o que aconteceu depois foi uma sequência de remendos:
- 2007: o STF julgou inconstitucional a lei que criou Luís Eduardo Magalhães (BA), sem anular o município de imediato, e, no mesmo dia, deu 18 meses ao Congresso para fazer a lei que faltava.
- 2008: em vez da lei, o Congresso aprovou a Emenda Constitucional 57, que validou os municípios criados até o fim de 2006.
- 2013 e 2014: a presidente Dilma Rousseff vetou dois projetos que regulamentavam a criação de municípios, citando o risco de uma nova explosão de prefeituras e de despesas. Os vetos foram mantidos.
- 2025: o STF concluiu, por maioria, que não havia omissão do Congresso a ser corrigida.
- 2026: foi sancionada a Lei Complementar 230, que regula só um caso: a transferência de parte de um município para o vizinho. Ela proíbe criar município novo e não trata de fusão de municípios inteiros.
O número usado de 2013 a 2024 era 5.570, que incluía o Distrito Federal e o distrito de Fernando de Noronha. Com Boa Esperança do Norte, em Mato Grosso, instalado em janeiro de 2025, o país passou a ter 5.569 municípios, ou 5.571 unidades nessa mesma conta.
O que a Constituição exige
Não sou jurista. Registro o que está escrito na Constituição e nas decisões já tomadas, sem dizer se as propostas seriam aprovadas ou derrubadas.
Constituição, art. 18, § 4º: “A criação, a incorporação, a fusão e o desmembramento de Municípios, far-se-ão por lei estadual, dentro do período determinado por Lei Complementar Federal, e dependerão de consulta prévia, mediante plebiscito, às populações dos Municípios envolvidos, após divulgação dos Estudos de Viabilidade Municipal, apresentados e publicados na forma da lei.”
Traduzindo para o que interessa aqui: fundir municípios exige quatro coisas. Uma lei do estado, e não do governo federal. Uma lei complementar federal dizendo em que período isso pode ser feito, que continua sem existir para fusões. Um estudo de viabilidade publicado antes. E um plebiscito com a população de todos os municípios envolvidos.
Na prática, um presidente não tem caneta para fundir cidades. Pode propor a lei complementar que falta, oferecer dinheiro para quem quiser se unir, como sugere Zema, ou tentar mudar a própria Constituição, como fez a PEC 188/2019, que precisaria de três quintos dos votos na Câmara e no Senado, em dois turnos. O plano de Renan diz que “a lei complementar exigida nunca foi editada”, o que ficou parcialmente desatualizado com a lei de 2026, que resolveu o desmembramento e deixou a fusão de fora.
A PEC que tentou extinguir 1.254 municípios
Em novembro de 2019, o líder do governo Bolsonaro no Senado, Fernando Bezerra Coelho, apresentou a PEC 188, parte do pacote do Pacto Federativo. A regra era direta: municípios com até 5 mil habitantes teriam de provar que os impostos municipais (IPTU, ISS e ITBI) somavam pelo menos 10% da receita. Quem não conseguisse seria incorporado a um vizinho a partir de 2025.
| Ponto | O que aconteceu |
|---|---|
| Municípios atingidos | Até 1.254, segundo o governo na época; a Confederação Nacional de Municípios estimou que 1.217 não passariam no critério, com cerca de 4 milhões de moradores |
| Reação | A CNM se opôs e argumentou que medir o município só pela arrecadação própria ignora as transferências previstas na Constituição |
| Consulta pública do Senado | 325 votos a favor e 1.107 contra |
| Destino | Nunca foi votada. Foi arquivada em 22 de dezembro de 2022, ao fim da legislatura, sem chegar à Câmara |
É esse o critério que o plano de Renan diz querer retomar. A diferença é a escala: a PEC mirava só os municípios de até 5 mil habitantes, e o plano da Missão fala em chegar a cerca de 1.656 municípios no país inteiro.
Os números do plano que propõe a fusão
O capítulo de Renan Santos sobre o tema traz vários números. Conferi os principais:
| O que o plano diz | O que conferi |
|---|---|
| O país tem 5.570 municípios | Número de 2013 a 2024, que contava o Distrito Federal e Fernando de Noronha. O IBGE registra 5.569 municípios desde 2025 |
| A redução para cerca de 1.656 vem de um estudo da UFPB | O estudo existe: é de Amarando Dantas Junior e Josedilton Diniz, publicado em 2025. Ele simula a fusão de municípios vizinhos do mesmo estado com menos de 119 mil habitantes e calcula ganho de 36% na capacidade de pagar as próprias contas |
| “quase 90% gastam mais com folha de pessoal do que arrecadam em tributos próprios” | Não encontrei estudo com esse número. O índice da Firjan de 2025 aponta que 25% dos municípios não geram receita local suficiente nem para manter a estrutura administrativa |
| R$ 196 bilhões de FPM no último ano, mais que o gasto com o Bolsa Família | O valor de 2025 aparece em levantamentos do setor, e o orçamento do Bolsa Família foi de R$ 158 bilhões. Mas o FPM não é gasto do governo federal: é a parte do Imposto de Renda e do IPI que a Constituição manda repassar às prefeituras |
| Municípios gastaram R$ 5,2 bilhões com shows em 2024 e 2025 | Não encontrei a fonte desse total nacional. Há levantamentos estaduais, como o do Tribunal de Contas de Minas Gerais |
| Altamira (PA) tem 159 mil km² | Confere: 159,5 mil km², segundo o IBGE |
O que aconteceu em outros países
| País | O que fez | Resultado |
|---|---|---|
| Dinamarca (2007) | Reduziu de 271 para 98 municípios, com piso de 20 mil habitantes. Obrigatória, com plebiscitos locais em alguns casos | Estudo publicado em 2016 não encontrou redução no gasto total: a economia administrativa foi compensada por outros gastos. Moradores passaram a sentir que sua voz pesa menos |
| Japão (1999 a 2010) | De 3.232 para 1.727 municípios, por adesão voluntária com forte incentivo financeiro e um corte de transferências que pressionou os pequenos | O governo registrou ampliação de serviços especializados em cerca de 80% dos fundidos, mas também mais dificuldade para a voz do morador chegar à prefeitura |
| Grécia (1997 e 2010) | Duas reformas obrigatórias: a segunda reduziu de 1.034 para 325 municípios | Contas municipais melhoraram, mas no mesmo período da austeridade imposta pela crise, o que dificulta separar os efeitos |
| Portugal (2013) | Fundiu 1.168 freguesias, as subdivisões dos municípios, como condição do resgate financeiro | Recuou: em 2025, o Parlamento aprovou recriar 302 freguesias |
| França (desde 2015) | Fusões voluntárias, com garantia de repasses por três anos e bônus em dinheiro | O país ainda tem cerca de 34,9 mil comunas; relatório oficial concluiu que a fusão não melhora a eficiência por si só |
| Finlândia (2002 a 2009) | De 448 para 348 municípios, de forma voluntária | Estudo não encontrou efeito sobre o gasto total após oito anos |
O caso mais favorável que encontrei é o de Israel, onde um estudo de 2012 apontou queda de cerca de 9% no gasto municipal sem piora dos serviços. As revisões que reúnem vários países chegam a outra conclusão: segundo o balanço de Brian Dollery e colegas, de 2020, o peso da evidência indica que as fusões não entregaram o que prometiam. O padrão que se repete é o de economia administrativa menor que a esperada e alguma perda de participação dos moradores.
Um dado do Brasil ajuda a pôr o debate em perspectiva: a parceria entre prefeituras já é comum. Segundo mapeamento da Confederação Nacional de Municípios de 2023, 723 consórcios públicos estavam ativos, e 85,9% dos municípios participavam de pelo menos um.
Os pontos em discussão
Não sou jurista. Registro os pontos como aparecem na Constituição, nas decisões já tomadas e no debate público.
- Quem decide. Pela Constituição, a fusão é feita por lei estadual, com plebiscito. Um programa federal pode induzir, com dinheiro ou regras de repasse, mas não substituir os estados e a população.
- A lei que falta. A lei complementar federal que define o período para fusões continua sem existir. As emancipações feitas depois de 1996 sem essa lei acabaram questionadas no STF.
- O dinheiro. Fundir municípios muda a divisão do FPM. A CNM estimou, em 2019, perda de R$ 7 bilhões por ano para os municípios atingidos por fusões e extinções. O plano de Renan promete uma transição para evitar perda imediata, sem dizer por quanto tempo nem quanto custaria.
- A representação. Cada município extinto perde prefeito e câmara própria. As antigas sedes virariam distritos ou subprefeituras, que não têm eleição própria.
- A economia prometida. A experiência de outros países mostra ganhos menores que os anunciados, o que não quer dizer que não existam ganhos em serviços como saúde e educação, onde a escala pesa.
O que fica para o eleitor
O Brasil criou mais de mil municípios em uma década e passou as três seguintes sem conseguir fazer a lei que o próprio Congresso exigiu para pôr ordem nisso. É difícil defender que o mapa atual seja resultado de planejamento, e é difícil não ver que parte dessas cidades nasceu mais para ganhar prefeitura, câmara e cota de repasse do que por necessidade de quem mora nela.
Mas o diagnóstico certo não torna a solução simples. Renan Santos oferece a reforma mais ousada da eleição e trata como programa federal algo que a Constituição entrega aos estados e ao voto de cada comunidade, sem dizer como conduziria a consulta à população de milhares de municípios. Zema aponta na mesma direção com menos ambição e menos detalhe. Os outros quatro não tocam no assunto. Para quem vota, a pergunta a fazer aos dois primeiros é simples: e se a população disser não?
Nota de método
Matéria da série Promessa e Constituição. Busquei nos seis planos registrados no TSE todas as menções a fusão, extinção, incorporação e consolidação de municípios, pacto federativo, FPM e consórcios. As citações foram conferidas palavra por palavra no texto dos planos. O número de municípios vem do IBGE; o histórico legal, dos textos da Constituição, das emendas e das decisões do STF; os dados da PEC 188/2019, da ficha de tramitação no Senado; e as experiências estrangeiras, de estudos acadêmicos e documentos oficiais de cada país.
Apuração independente de Alexander Moraes, estudante de jornalismo, sem formação jurídica.
Leia também
🤝As coligações dos 13 candidatos à Presidência
🗳️Os treze candidatos à Presidência e onde a disputa está
Fontes
Planos de governo registrados no TSE: Renan Santos (p. 14 e 15), Romeu Zema (p. 74), Flávio Bolsonaro (p. 68 e 69), Augusto Cury (p. 37 e 38), Ronaldo Caiado (p. 97) e Lula (p. 71).
Leis e decisões: Constituição, art. 18, § 4º, na redação original e na dada pela Emenda Constitucional 15/1996; Emenda Constitucional 57/2008 (art. 96 do ADCT); STF, ADI 2.240 e ADI 3.682 (9/5/2007) e ADO 70 (setembro de 2025); vetos aos PLP 416/2008 e 397/2014 (Agência Câmara e Congresso Nacional); Lei Complementar 230/2026 (Câmara, Agência Senado e Agência Câmara); PEC 188/2019 (texto e ficha de tramitação no Senado; Agência Brasil; Agência Câmara).
Dados: IBGE (evolução da divisão territorial; 5.570 municípios em 2013; atualização das estruturas territoriais em 2025; Censo 2022); Firjan (IFGF 2025); CNM (posição sobre a PEC 188; mapeamento dos consórcios públicos de 2023; estimativa de perdas publicada pelo Estado de Minas); Poder360 e Abori (estudo da UFPB sobre fusões); Brasil61 (FPM 2025); CNN Brasil (orçamento do Bolsa Família); O Tempo (gastos com shows em Minas Gerais).
Outros países: Regioner.dk e Blom-Hansen, Houlberg, Serritzlew e Treisman, American Political Science Review, 2016 (Dinamarca); Lassen e Serritzlew, APSR, 2011; Ministério do Interior e Ministério das Finanças do Japão; Conselho da Europa, OCDE e Comissão Europeia (Grécia); Lei 39/2021, Lei 25-A/2025, Público e ECO (Portugal); relatório da Inspeção-Geral da Administração e OFGL/DGCL (França); Yle e Political Science Research and Methods (Finlândia); Reingewertz, Journal of Urban Economics, 2012 (Israel); Dollery et al., 2020 (revisão).
Comentários
Nenhum comentário publicado ainda. Seja o primeiro.