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Fusão de municípios: a promessa de apagar cidades do mapa esbarra no plebiscito

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Eleições 2026 · Promessa e Constituição

Dois candidatos querem reduzir o número de cidades do Brasil. A Constituição exige plebiscito em cada fusão, e nenhum dos dois planos fala nisso

Li o que os seis planos de governo dizem sobre fundir ou extinguir municípios. Depois conferi o que a Constituição exige, por que o país passou quase 30 anos sem regra para mexer no mapa das cidades, o que aconteceu com a proposta parecida do governo Bolsonaro e o que mostram as fusões feitas em outros países.

5.569
Municípios no Brasil
segundo o IBGE, depois da instalação de Boa Esperança do Norte (MT) em 2025
1.656
Municípios que sobrariam no plano de Renan Santos
corte de cerca de 70%
833
Habitantes de Serra da Saudade (MG)
o menor município do país no Censo 2022
📄

O que cada plano propõe

Renan Santos (Missão)

Renan, p. 15: o plano promete a “maior reorganização territorial da história republicana brasileira”, batizada de Grande Consolidação Municipal, com a meta de “reduzir o número de municípios brasileiros em até 70%, de 5.570 para algo próximo de 1.656”.

O critério de corte vem da PEC 188/2019: seria considerado inviável o município sem “arrecadação direta de impostos de competência municipal (IPTU, ISS e ITBI), equivalente a pelo menos 10% da receita total”. As antigas sedes “manterão status de distrito ou subprefeitura”, e o governo federal faria uma “transição cuidadosa nos repasses do FPM”.

É a proposta mais ambiciosa e a mais detalhada: lista cinco medidas, entre elas um Marco Legal da Consolidação Municipal e uma nova lei para o Fundo de Participação dos Municípios. O plano afirma que “A consolidação não será imposição de Brasília sobre o território.” Mas não menciona plebiscito, que a Constituição exige para qualquer fusão, nem o papel das assembleias estaduais, que são quem aprova a lei de fusão.

Romeu Zema (Novo)

Zema, p. 74: propõe “Criar um programa que estimule a união progressiva de municípios sem sustentação financeira para ampliar a escala na prestação de serviços”, “sem abrir mão do nome e da identidade de cada comunidade”.

A ideia é a mesma de Renan, mas em versão mais branda: fala em estimular, e não em impor, e não traz meta de número de municípios, critério de corte, custo nem prazo. Também não menciona plebiscito.

Flávio Bolsonaro (PL)

Flávio, p. 69: “Promoveremos a revisão do pacto federativo e a redefinição das regras e dos processos orçamentários”.

Flávio, p. 68: diz que, no governo do pai, “o município deixou de ser um subordinado que pede favor em Brasília e passou a ser tratado como parceiro”.

O plano não fala em fundir ou extinguir municípios. O detalhe é que a proposta mais conhecida de extinção de cidades pequenas, a PEC 188/2019, foi apresentada pelo líder do governo Jair Bolsonaro no Senado, como parte do pacote do ministro Paulo Guedes. O plano do filho não a retoma.

Augusto Cury (Avante)

Cury, p. 37 e 38: “Será revisto o atual formato de divisão federativa dos tributos que, atualmente, favorece a União e os Estados desfavorecendo os Municípios.” E conclui que “o ideal seria menos União Federal e mais municípios”.

Vai na direção oposta à de Renan e Zema: em vez de reduzir o número de prefeituras, quer dar mais dinheiro a elas. Não fala em fusão.

Ronaldo Caiado (PSD)

O plano não fala em fusão nem em extinção de municípios. A solução que aparece para cidades pequenas é o consórcio, a parceria entre prefeituras para dividir um serviço. No capítulo de turismo, diz que “Consórcios permitirão que pequenos municípios compartilhem promoção, sinalização, calendários e serviços” (p. 97).

Lula (PT)

O plano não fala em fusão nem em extinção de municípios. A única menção a arranjos entre cidades está no capítulo ambiental, que defende “arranjos regionais de planejamento e governança, envolvendo União, estados, municípios, consórcios públicos” (p. 71).

📊

Os seis lado a lado

Candidato Propõe fundir municípios? Como Fala em plebiscito?
Renan Santos Sim Programa federal com meta de chegar a cerca de 1.656 municípios Não
Romeu Zema Sim, por estímulo Programa para incentivar a união de municípios sem sustentação financeira Não
Flávio Bolsonaro Não Revisão do pacto federativo, sem detalhar Não se aplica
Augusto Cury Não Mais dinheiro dos tributos para os municípios Não se aplica
Ronaldo Caiado Não Consórcios entre municípios pequenos Não se aplica
Lula Não Arranjos regionais e consórcios, no capítulo ambiental Não se aplica
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Como o Brasil chegou a 5.569 cidades

Ano Municípios
1940 1.574
1960 2.765
1980 3.992
1991 4.491
2000 5.507
2010 5.565
2025 5.569

O salto maior veio depois da Constituição de 1988, que deixou a criação de municípios a cargo de leis estaduais. Entre 1991 e 2000, segundo o IBGE, 1.016 municípios foram emancipados, um aumento de 18% em nove anos. Para cada novo município nasciam uma prefeitura, uma câmara de vereadores e uma nova cota do Fundo de Participação dos Municípios, dividida com todos os outros do mesmo estado.

Em 1996, a Emenda Constitucional 15 fechou a porteira: passou a exigir uma lei complementar federal definindo o período em que cidades podem ser criadas, fundidas ou divididas. Essa lei não veio, e o que aconteceu depois foi uma sequência de remendos:

  • 2007: o STF julgou inconstitucional a lei que criou Luís Eduardo Magalhães (BA), sem anular o município de imediato, e, no mesmo dia, deu 18 meses ao Congresso para fazer a lei que faltava.
  • 2008: em vez da lei, o Congresso aprovou a Emenda Constitucional 57, que validou os municípios criados até o fim de 2006.
  • 2013 e 2014: a presidente Dilma Rousseff vetou dois projetos que regulamentavam a criação de municípios, citando o risco de uma nova explosão de prefeituras e de despesas. Os vetos foram mantidos.
  • 2025: o STF concluiu, por maioria, que não havia omissão do Congresso a ser corrigida.
  • 2026: foi sancionada a Lei Complementar 230, que regula só um caso: a transferência de parte de um município para o vizinho. Ela proíbe criar município novo e não trata de fusão de municípios inteiros.

O número usado de 2013 a 2024 era 5.570, que incluía o Distrito Federal e o distrito de Fernando de Noronha. Com Boa Esperança do Norte, em Mato Grosso, instalado em janeiro de 2025, o país passou a ter 5.569 municípios, ou 5.571 unidades nessa mesma conta.

📜

O que a Constituição exige

Não sou jurista. Registro o que está escrito na Constituição e nas decisões já tomadas, sem dizer se as propostas seriam aprovadas ou derrubadas.

Constituição, art. 18, § 4º: “A criação, a incorporação, a fusão e o desmembramento de Municípios, far-se-ão por lei estadual, dentro do período determinado por Lei Complementar Federal, e dependerão de consulta prévia, mediante plebiscito, às populações dos Municípios envolvidos, após divulgação dos Estudos de Viabilidade Municipal, apresentados e publicados na forma da lei.”

Traduzindo para o que interessa aqui: fundir municípios exige quatro coisas. Uma lei do estado, e não do governo federal. Uma lei complementar federal dizendo em que período isso pode ser feito, que continua sem existir para fusões. Um estudo de viabilidade publicado antes. E um plebiscito com a população de todos os municípios envolvidos.

Na prática, um presidente não tem caneta para fundir cidades. Pode propor a lei complementar que falta, oferecer dinheiro para quem quiser se unir, como sugere Zema, ou tentar mudar a própria Constituição, como fez a PEC 188/2019, que precisaria de três quintos dos votos na Câmara e no Senado, em dois turnos. O plano de Renan diz que “a lei complementar exigida nunca foi editada”, o que ficou parcialmente desatualizado com a lei de 2026, que resolveu o desmembramento e deixou a fusão de fora.

🗂️

A PEC que tentou extinguir 1.254 municípios

Em novembro de 2019, o líder do governo Bolsonaro no Senado, Fernando Bezerra Coelho, apresentou a PEC 188, parte do pacote do Pacto Federativo. A regra era direta: municípios com até 5 mil habitantes teriam de provar que os impostos municipais (IPTU, ISS e ITBI) somavam pelo menos 10% da receita. Quem não conseguisse seria incorporado a um vizinho a partir de 2025.

Ponto O que aconteceu
Municípios atingidos Até 1.254, segundo o governo na época; a Confederação Nacional de Municípios estimou que 1.217 não passariam no critério, com cerca de 4 milhões de moradores
Reação A CNM se opôs e argumentou que medir o município só pela arrecadação própria ignora as transferências previstas na Constituição
Consulta pública do Senado 325 votos a favor e 1.107 contra
Destino Nunca foi votada. Foi arquivada em 22 de dezembro de 2022, ao fim da legislatura, sem chegar à Câmara

É esse o critério que o plano de Renan diz querer retomar. A diferença é a escala: a PEC mirava só os municípios de até 5 mil habitantes, e o plano da Missão fala em chegar a cerca de 1.656 municípios no país inteiro.

🔎

Os números do plano que propõe a fusão

O capítulo de Renan Santos sobre o tema traz vários números. Conferi os principais:

O que o plano diz O que conferi
O país tem 5.570 municípios Número de 2013 a 2024, que contava o Distrito Federal e Fernando de Noronha. O IBGE registra 5.569 municípios desde 2025
A redução para cerca de 1.656 vem de um estudo da UFPB O estudo existe: é de Amarando Dantas Junior e Josedilton Diniz, publicado em 2025. Ele simula a fusão de municípios vizinhos do mesmo estado com menos de 119 mil habitantes e calcula ganho de 36% na capacidade de pagar as próprias contas
“quase 90% gastam mais com folha de pessoal do que arrecadam em tributos próprios” Não encontrei estudo com esse número. O índice da Firjan de 2025 aponta que 25% dos municípios não geram receita local suficiente nem para manter a estrutura administrativa
R$ 196 bilhões de FPM no último ano, mais que o gasto com o Bolsa Família O valor de 2025 aparece em levantamentos do setor, e o orçamento do Bolsa Família foi de R$ 158 bilhões. Mas o FPM não é gasto do governo federal: é a parte do Imposto de Renda e do IPI que a Constituição manda repassar às prefeituras
Municípios gastaram R$ 5,2 bilhões com shows em 2024 e 2025 Não encontrei a fonte desse total nacional. Há levantamentos estaduais, como o do Tribunal de Contas de Minas Gerais
Altamira (PA) tem 159 mil km² Confere: 159,5 mil km², segundo o IBGE
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O que aconteceu em outros países

País O que fez Resultado
Dinamarca (2007) Reduziu de 271 para 98 municípios, com piso de 20 mil habitantes. Obrigatória, com plebiscitos locais em alguns casos Estudo publicado em 2016 não encontrou redução no gasto total: a economia administrativa foi compensada por outros gastos. Moradores passaram a sentir que sua voz pesa menos
Japão (1999 a 2010) De 3.232 para 1.727 municípios, por adesão voluntária com forte incentivo financeiro e um corte de transferências que pressionou os pequenos O governo registrou ampliação de serviços especializados em cerca de 80% dos fundidos, mas também mais dificuldade para a voz do morador chegar à prefeitura
Grécia (1997 e 2010) Duas reformas obrigatórias: a segunda reduziu de 1.034 para 325 municípios Contas municipais melhoraram, mas no mesmo período da austeridade imposta pela crise, o que dificulta separar os efeitos
Portugal (2013) Fundiu 1.168 freguesias, as subdivisões dos municípios, como condição do resgate financeiro Recuou: em 2025, o Parlamento aprovou recriar 302 freguesias
França (desde 2015) Fusões voluntárias, com garantia de repasses por três anos e bônus em dinheiro O país ainda tem cerca de 34,9 mil comunas; relatório oficial concluiu que a fusão não melhora a eficiência por si só
Finlândia (2002 a 2009) De 448 para 348 municípios, de forma voluntária Estudo não encontrou efeito sobre o gasto total após oito anos

O caso mais favorável que encontrei é o de Israel, onde um estudo de 2012 apontou queda de cerca de 9% no gasto municipal sem piora dos serviços. As revisões que reúnem vários países chegam a outra conclusão: segundo o balanço de Brian Dollery e colegas, de 2020, o peso da evidência indica que as fusões não entregaram o que prometiam. O padrão que se repete é o de economia administrativa menor que a esperada e alguma perda de participação dos moradores.

Um dado do Brasil ajuda a pôr o debate em perspectiva: a parceria entre prefeituras já é comum. Segundo mapeamento da Confederação Nacional de Municípios de 2023, 723 consórcios públicos estavam ativos, e 85,9% dos municípios participavam de pelo menos um.

⚖️

Os pontos em discussão

Não sou jurista. Registro os pontos como aparecem na Constituição, nas decisões já tomadas e no debate público.

  • Quem decide. Pela Constituição, a fusão é feita por lei estadual, com plebiscito. Um programa federal pode induzir, com dinheiro ou regras de repasse, mas não substituir os estados e a população.
  • A lei que falta. A lei complementar federal que define o período para fusões continua sem existir. As emancipações feitas depois de 1996 sem essa lei acabaram questionadas no STF.
  • O dinheiro. Fundir municípios muda a divisão do FPM. A CNM estimou, em 2019, perda de R$ 7 bilhões por ano para os municípios atingidos por fusões e extinções. O plano de Renan promete uma transição para evitar perda imediata, sem dizer por quanto tempo nem quanto custaria.
  • A representação. Cada município extinto perde prefeito e câmara própria. As antigas sedes virariam distritos ou subprefeituras, que não têm eleição própria.
  • A economia prometida. A experiência de outros países mostra ganhos menores que os anunciados, o que não quer dizer que não existam ganhos em serviços como saúde e educação, onde a escala pesa.
🧭

O que fica para o eleitor

O Brasil criou mais de mil municípios em uma década e passou as três seguintes sem conseguir fazer a lei que o próprio Congresso exigiu para pôr ordem nisso. É difícil defender que o mapa atual seja resultado de planejamento, e é difícil não ver que parte dessas cidades nasceu mais para ganhar prefeitura, câmara e cota de repasse do que por necessidade de quem mora nela.

Mas o diagnóstico certo não torna a solução simples. Renan Santos oferece a reforma mais ousada da eleição e trata como programa federal algo que a Constituição entrega aos estados e ao voto de cada comunidade, sem dizer como conduziria a consulta à população de milhares de municípios. Zema aponta na mesma direção com menos ambição e menos detalhe. Os outros quatro não tocam no assunto. Para quem vota, a pergunta a fazer aos dois primeiros é simples: e se a população disser não?

📐

Nota de método

Matéria da série Promessa e Constituição. Busquei nos seis planos registrados no TSE todas as menções a fusão, extinção, incorporação e consolidação de municípios, pacto federativo, FPM e consórcios. As citações foram conferidas palavra por palavra no texto dos planos. O número de municípios vem do IBGE; o histórico legal, dos textos da Constituição, das emendas e das decisões do STF; os dados da PEC 188/2019, da ficha de tramitação no Senado; e as experiências estrangeiras, de estudos acadêmicos e documentos oficiais de cada país.

Apuração independente de Alexander Moraes, estudante de jornalismo, sem formação jurídica.

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Leia também

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Fontes

Planos de governo registrados no TSE: Renan Santos (p. 14 e 15), Romeu Zema (p. 74), Flávio Bolsonaro (p. 68 e 69), Augusto Cury (p. 37 e 38), Ronaldo Caiado (p. 97) e Lula (p. 71).

Leis e decisões: Constituição, art. 18, § 4º, na redação original e na dada pela Emenda Constitucional 15/1996; Emenda Constitucional 57/2008 (art. 96 do ADCT); STF, ADI 2.240 e ADI 3.682 (9/5/2007) e ADO 70 (setembro de 2025); vetos aos PLP 416/2008 e 397/2014 (Agência Câmara e Congresso Nacional); Lei Complementar 230/2026 (Câmara, Agência Senado e Agência Câmara); PEC 188/2019 (texto e ficha de tramitação no Senado; Agência Brasil; Agência Câmara).

Dados: IBGE (evolução da divisão territorial; 5.570 municípios em 2013; atualização das estruturas territoriais em 2025; Censo 2022); Firjan (IFGF 2025); CNM (posição sobre a PEC 188; mapeamento dos consórcios públicos de 2023; estimativa de perdas publicada pelo Estado de Minas); Poder360 e Abori (estudo da UFPB sobre fusões); Brasil61 (FPM 2025); CNN Brasil (orçamento do Bolsa Família); O Tempo (gastos com shows em Minas Gerais).

Outros países: Regioner.dk e Blom-Hansen, Houlberg, Serritzlew e Treisman, American Political Science Review, 2016 (Dinamarca); Lassen e Serritzlew, APSR, 2011; Ministério do Interior e Ministério das Finanças do Japão; Conselho da Europa, OCDE e Comissão Europeia (Grécia); Lei 39/2021, Lei 25-A/2025, Público e ECO (Portugal); relatório da Inspeção-Geral da Administração e OFGL/DGCL (França); Yle e Political Science Research and Methods (Finlândia); Reingewertz, Journal of Urban Economics, 2012 (Israel); Dollery et al., 2020 (revisão).

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