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Os números dos planos de governo que não conferem

Alex News — Pesquisa Quaest: Lula 37% e Flávio 30%, com empate técnico no segundo turno — Eleições 2026

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Eleições 2026 · Checagem

De 8 milhões de empregos ao Auxílio “triplicado”: o que não bate nos planos de governo 2026

Os candidatos usam estatísticas para justificar suas propostas. Conferi 19 delas, dos planos de Lula, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Augusto Cury, contra os dados oficiais.

19
Números checados
em seis planos registrados no TSE
8
Conferem sem ressalva
três de Caiado, três de Cury, um de Lula e um de Renan Santos
4
Sem fonte ou acima dos dados
o plano não diz de onde vêm
1
Erro contra o próprio autor
o plano de Lula subestima a queda da pobreza
📉

Os dois recordes de pobreza

Lula e Flávio Bolsonaro dizem, cada um em seu plano, que a pobreza extrema chegou à menor marca da história no seu governo. Os dois podem citar fonte, porque usam medições diferentes.

Flávio cita um relatório do Banco Mundial, pelo qual a extrema pobreza caiu de 5,4% em 2019 para 1,9% em 2020, no auge do Auxílio Emergencial. Lula cita a série do IBGE, iniciada em 2012, pela qual o menor nível veio em 2024.

As duas coisas convivem porque a linha de pobreza e o método não são os mesmos. O que não dá é comparar um número com o outro como se medissem a mesma coisa.

Lula (PT)

Lula, p. 10: “A inflação registrou o menor índice acumulado de um mandato presidencial na história do país, alcançando uma média anual de 4,6%”

Resultado: confere, com ressalvas. A média vem dos três anos já fechados: o IPCA foi de 4,62% em 2023, 4,83% em 2024 e 4,26% em 2025, o que dá 4,57% ao ano. O mandato ainda não terminou. De janeiro a agosto de 2026, o índice acumula 3,11%, e em 12 meses está em 4,22%. Se o ano fechar nesse ritmo, o mandato terá a menor inflação acumulada desde o Plano Real, abaixo dos 22,21% do segundo mandato de Lula, de 2007 a 2010, segundo cálculo do Poder360. Já a expressão “na história do país” não dá para confirmar: a série do IPCA começa em 1980.

Lula, p. 12: “A desigualdade, medida pelo coeficiente de Gini, atingiu o menor patamar histórico de 0,504”

Resultado: confere. O IBGE registrou Gini de 0,504 em 2024, o menor valor da série iniciada em 2012. Em 2023, era 0,517. A única ressalva é a palavra histórico: a série tem 13 anos.

Lula, p. 12: “a pobreza extrema recuou para o menor nível da série de 4,6% da população”

Resultado: número errado, e para menos. O nível mais baixo é de fato o de 2024, mas o dado do IBGE é 3,5%, e não 4,6%. A proporção caiu de 4,4% em 2023 para 3,5% em 2024. O plano erra o número contra o próprio candidato. O mesmo 4,6% aparece duas páginas antes, na página 10, como média anual de inflação.

Lula, p. 73: “O Brasil chegou às mais baixas taxas de desemprego da história”

Resultado: confere, com ressalva. A taxa descontada a sazonalidade chegou a 5,3% em janeiro de 2026, a menor da série da PNAD Contínua. Mas a série começa em 2012. O correto seria dizer a mais baixa da série, e não da história.

Lula, p. 73: “gerou 8,0 milhões de empregos entre 2023 e junho de 2026”

Resultado: acima dos dados oficiais que localizei. O plano não informa a fonte. Pelo Novo Caged, que conta o emprego com carteira assinada, o saldo foi de 1,48 milhão em 2023, 1,69 milhão em 2024, 1,27 milhão em 2025 e 921,6 mil no primeiro semestre de 2026: cerca de 5,4 milhões no período. Pela PNAD Contínua, que inclui o trabalho informal, a população ocupada passou de 99,4 milhões no fim de 2022 para 103,1 milhões no trimestre encerrado em junho de 2026, um aumento de 3,7 milhões. Nenhuma das duas medições chega a 8 milhões.

Flávio Bolsonaro (PL)

Flávio Bolsonaro, p. 42: “Em 2020 […] a extrema pobreza no Brasil caiu para a menor marca da história […] apenas 1,95% da população, graças ao Auxílio Emergencial”

Resultado: verdadeiro, mas incompleto. O número tem fonte: o Banco Mundial registrou queda de 5,4% para 1,9%. O plano não conta o que veio depois. Em 2021, com o auxílio reduzido, a pobreza teve aumento recorde, e a renda domiciliar por pessoa chegou ao menor nível da série do IBGE, iniciada em 2012.

Flávio Bolsonaro, p. 42: “criamos o Auxílio Brasil, que triplicou o valor pago às famílias”

Resultado: exagerado. O último valor médio do Bolsa Família foi de R$ 184,30. Em dezembro de 2021, com o piso de R$ 400, o Auxílio Brasil pagou em média R$ 408,84, cerca de 2,2 vezes mais. O triplo só aparece com os R$ 600 aprovados em 2022 como pagamento temporário, até dezembro, em ano eleitoral.

Uma promessa que já está em vigor. Na página 33, o plano promete proibir o uso de dinheiro de programas sociais em apostas online. O STF determinou essa proibição em 2024, e desde outubro de 2025 as casas de apostas precisam barrar beneficiários pelo CPF. Em dezembro de 2025, o ministro Luiz Fux suspendeu o encerramento de contas antigas, mas manteve proibidos os cadastros novos.

Romeu Zema (Novo)

Romeu Zema, p. 62: “o número de beneficiários já supera o de trabalhadores formais em 12 estados”

Resultado: desatualizado. O número de 12 estados é de julho de 2024. Com dados de fevereiro de 2026, são 9 estados, e o indicador cai desde 2023, quando eram 13. A comparação também mistura unidades: de um lado estão famílias beneficiárias, do outro pessoas com carteira assinada, sem contar o setor público.

Romeu Zema, p. 62: “cerca de 40% das famílias permanecem no Bolsa Família por mais de sete anos”

Resultado: sem fonte no plano. Não localizei esse recorte. O dado mais próximo usa outro prazo: em fevereiro de 2025, 34,1% das famílias recebiam o benefício havia dez anos ou mais. O plano também omite o contraponto: segundo estudo do ministério com a FGV, 60,68% dos beneficiários de 2014 deixaram o programa até 2025.

Renan Santos (Missão)

Renan Santos, p. 20: “os gastos com assistencialismo (somando apenas o Bolsa Família e o BPC) […] chegando em 2025 a cerca de R$ 285 bilhões”

Resultado: confere. O BPC custou R$ 127,2 bilhões em 2025, segundo a Instituição Fiscal Independente do Senado, e o orçamento do Bolsa Família no ano foi de R$ 158 bilhões. A soma dá R$ 285 bilhões.

Renan Santos, p. 20: “aumentaram mais de 8 vezes no mesmo período”

Resultado: impossível verificar. O trecho não informa desde quando nem se a conta desconta a inflação. Sem correção, oito vezes em duas décadas diz pouco sobre crescimento real.

Renan Santos, p. 9: “os gastos com a Previdência e Assistência Social crescem perto de 6% ao ano”

Resultado: número sem fonte, direção confirmada. Não localizei o dado combinado, e o plano não diz se é crescimento real ou nominal. A pressão, porém, existe: só o BPC cresceu 9% em 2025, e a Instituição Fiscal Independente o descreve como despesa obrigatória que pressiona o espaço das demais.

Ronaldo Caiado (PSD)

Os números de Caiado e Cury conferem quase todos. Em geral são dados de diagnóstico, como investimento, produtividade e violência, e não balanço de governo.

Ronaldo Caiado, p. 14: “o investimento total avance dos atuais cerca de 17% do PIB em direção a aproximadamente 25%”

Resultado: confere. Pelo IBGE, a taxa de investimento foi de 16,8% do PIB em 2025 e de 16,9% em 2024. Os 25% são meta, não dado, e o trecho não diz em quanto tempo seriam alcançados.

Ronaldo Caiado, p. 14: “Entre 1981 e 2024, a produtividade por hora trabalhada cresceu apenas cerca de 0,5% ao ano”

Resultado: confere. É o mesmo número do Observatório da Produtividade da FGV Ibre: 0,5% ao ano no período, enquanto a renda por habitante cresceu 1,0% ao ano. Em 2024, a produtividade do trabalho avançou só 0,1%.

Ronaldo Caiado, p. 97: “Em 2025, o país superou nove milhões de chegadas internacionais, novo recorde”

Resultado: confere. A Embratur registrou mais de 9 milhões de turistas internacionais em 2025, o maior número já contado.

Augusto Cury (Avante)

Augusto Cury, p. 3: “em 2025, dados oficiais preliminares registraram 1.568 feminicídios no Brasil, ou seja, quatro a cinco mulheres assassinadas por dia”

Resultado: confere. O número é o do levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado em março de 2026: alta de 4,7% sobre 2024 e o maior total desde 2015, quando a lei passou a prever o feminicídio. Dá 4,3 mortes por dia. O plano repete o dado na página 86.

Augusto Cury, p. 3: “em 2025, quase 8 milhões de jovens, entre 15 e 29 anos de idade, nem trabalham nem estudam, segundo dados do IBGE”

Resultado: confere, com imprecisão. O IBGE contou 8,2 milhões em 2025, ou 17,5% dos jovens dessa idade. O número passa de 8 milhões, em vez de ficar abaixo. O plano também não menciona a queda: eram 11 milhões em 2019.

Augusto Cury, p. 81: “O Censo 2022 identificou 2,4 milhões de brasileiros diagnosticados com autismo, 1,2% da população”

Resultado: confere. São os números divulgados pelo IBGE em maio de 2025, os primeiros do Censo sobre o tema.

Augusto Cury, p. 105: “aproximadamente 16,4 milhões de brasileiros vivem em favelas e comunidades urbanas, distribuídos em mais de 12 mil comunidades”

Resultado: confere. O Censo 2022 contou 16,4 milhões de moradores em 12.348 favelas e comunidades urbanas.

O único custo que localizei no plano. O plano de Cury traz estimativa de custo para uma proposta, o Projeto 5, Comunidades Empreendedoras do Brasil (p. 105 a 111): de R$ 145 bilhões a R$ 280 bilhões em dez anos, somando regularização fundiária, urbanização, escolas de empreendedorismo e o capital inicial de um banco do empreendedor. A soma dos quatro blocos confere.

O próprio plano avisa que parte do valor é fundo de crédito, que volta quando os empréstimos são pagos, e que a estimativa definitiva depende de um levantamento dos territórios. Para as demais propostas, incluindo a mudança no Bolsa Família (p. 98 e 99), não localizei custo estimado.

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Nota de método

Checagem independente feita por Alexander Moraes, estudante de jornalismo, sem formação jurídica. As frases foram transcritas dos planos de governo registrados no TSE, com a página indicada. Cada número foi comparado com a fonte oficial mais recente disponível: IBGE, Banco Mundial, Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Instituição Fiscal Independente, Ministério do Trabalho e Emprego, FGV Ibre, Fórum Brasileiro de Segurança Pública e Embratur.

No caso de Cury, usei a versão do plano registrada no sistema do TSE, porque circulam dois arquivos com diferenças de digitação. Os planos dos outros sete candidatos não foram checados.

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Leia também

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Fontes

Planos de governo registrados no TSE por Lula, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Augusto Cury.

IBGE, Síntese de Indicadores Sociais 2025 e PNAD Contínua. Banco Mundial, relatório sobre pobreza de 2020, citado pelo MDS.

Instituição Fiscal Independente do Senado, Relatório de Acompanhamento Fiscal de março de 2026. Lei Orçamentária de 2025.

Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social e FGV, estudo Filhos do Bolsa Família, dezembro de 2025. Poder360, levantamentos de abril de 2025 e abril de 2026.

STF, decisão de 19 de dezembro de 2025, e Portaria SPA/MF 2.217/2025, sobre apostas.

IBGE, IPCA de 2023 a agosto de 2026, Contas Nacionais de 2025, PNAD Contínua dos trimestres encerrados em dezembro de 2022 e junho de 2026, divulgação de junho de 2026 sobre jovens que não estudam nem trabalham, e Censo 2022 (favelas e autismo).

Ministério do Trabalho e Emprego, Novo Caged, balanços de 2023, 2024, 2025 e do primeiro semestre de 2026. Poder360, inflação acumulada por mandato, outubro de 2025.

FGV Ibre, Observatório da Produtividade, relatório de 2024. Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Retrato dos Feminicídios no Brasil, março de 2026. Embratur, balanço de chegadas internacionais de 2025.

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