⏳ Áudio em breve
O túnel contratado em 2011 nunca passou do canteiro, e o decreto de 2026 recomeça a história com outro desenho
A ligação da Avenida Jornalista Roberto Marinho com a Rodovia dos Imigrantes já teve contrato assinado, dinheiro pago e obra parada. Entre um projeto e outro, moradores do Jabaquara passaram mais de uma década sob declaração de utilidade pública.
⏸️A suspensão de 2013
⚖️O cartel e o fim do contrato
🚝O monotrilho da Copa
📊O que mudou entre os projetos
Quem mora no Jabaquara e ouviu falar do decreto de setembro tem razão em desconfiar. O prolongamento da Roberto Marinho não é novidade: é a terceira versão de uma obra que a cidade anuncia há mais de quinze anos, e a primeira delas chegou a ter contrato assinado e canteiro montado.
O primeiro decreto de utilidade pública para esse trecho é de 2009, o de número 51.037, alterado em 2011. É a partir dele que a história precisa ser contada, porque muitas das famílias que hoje recebem o decreto 65.546 estão na mesma rua desde então.
O túnel de 2011
Em julho de 2011, a Câmara Municipal aprovou a mudança na Operação Urbana Consorciada Água Espraiada que incluía a ligação com a Imigrantes. O projeto trazia um parque linear no lugar das desapropriações e o prolongamento da Avenida Chucri Zaidan em um quilômetro, e a previsão era de que o túnel começasse em outubro daquele ano.
No mesmo ano, a gestão Gilberto Kassab assinou os contratos, com valor original de R$ 1,98 bilhão, divididos em quatro lotes liderados por OAS, Odebrecht, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão. Os lotes somavam o túnel até a rodovia, viadutos, trechos do parque linear e quatro mil moradias populares.
Até deixar a Prefeitura, em dezembro de 2012, a gestão Kassab pagou R$ 105 milhões às empreiteiras. O túnel ainda estava na fase de instalação do canteiro de obras.
A suspensão de 2013
Em fevereiro de 2013, no segundo mês de mandato, a gestão Fernando Haddad suspendeu o túnel e manteve as demais obras dos mesmos contratos. A nota oficial da SPObras falava em inverter prioridades depois das audiências do Programa de Metas: passariam na frente as 8 mil moradias de interesse social, o parque linear e a extensão da Chucri Zaidan até a João Dias.
O argumento declarado era dinheiro. Nas palavras do então prefeito, reproduzidas na nota: “Não há recursos para isso tudo e para o túnel.”
Nos anos seguintes, a Prefeitura pagou R$ 245 milhões às empreiteiras pelas outras obras incluídas naqueles contratos. Em 2016, já com a Operação Lava Jato em curso, Haddad passou a dizer que a paralisação havia sido motivada por indícios de superfaturamento. A nota de 2013 não mencionava suspeita alguma.
O cartel e o fim do contrato
Em junho de 2018, a Odebrecht admitiu ao Ministério Público paulista que venceu a licitação da obra com a formação de um cartel com outras construtoras. Segundo os delatores, o grupo formado na gestão Kassab reunia 11 empresas e disputou contratos que somavam R$ 4 bilhões.
Em fevereiro de 2020, a gestão Bruno Covas rescindiu de vez o contrato com Odebrecht e Constran para o complexo viário que incluía o túnel. Sem fonte de recursos, a obra voltou para o papel.
Nenhum dos fatos acima foi julgado nesta apuração. A admissão do cartel é declaração da própria empresa ao Ministério Público, e o processo contra o ex-prefeito Haddad, aberto com base em outra delação, foi arquivado pela Justiça por falta de provas.
O monotrilho da Copa
A promessa para a Copa de 2014 não foi a avenida. Foi a Linha 17-Ouro do Metrô, o monotrilho que corre ao longo da Roberto Marinho. O projeto original tinha 17,7 quilômetros e 18 estações, ligando o Jabaquara ao Estádio do Morumbi e a Congonhas.
A estação Washington Luís foi inaugurada em 30 de junho de 2026, com doze anos de atraso, no cruzamento da Roberto Marinho com a Washington Luís. É exatamente onde a avenida termina hoje e onde o prolongamento vai começar. Nesta primeira fase a linha tem 6,7 quilômetros e 8 estações, e o ramal até o Jabaquara ficou de fora.
As duas obras dependem uma da outra. O projeto atual da Prefeitura prevê que o parque linear do prolongamento abra espaço para levar o monotrilho até o Jabaquara. Enquanto a avenida não sair, o trilho também não chega.
O que mudou entre os projetos
| Item | Projeto antigo, de 2009 a 2013 | Projeto atual |
|---|---|---|
| Túnel | cerca de 2,4 km até a Imigrantes | 460 metros, perto da Av. Armando de Arruda Pereira |
| Parque linear | 250 mil m² | 314 mil m² |
| Vias | túnel como eixo principal | vias de superfície ao lado do parque, três viadutos |
| Valor | R$ 1,98 bi em contratos | R$ 2,4 bi a R$ 2,7 bi em estimativas, com números divergentes entre fontes |
| Prazo divulgado | túnel a partir de 2011 | conclusão em 2030 |
Os valores de 2011 e os atuais estão em reais de épocas diferentes e não podem ser comparados sem correção pela inflação. A extensão do túnel antigo aparece como 2,3 km em material da Prefeitura e 2,4 km em reportagem do Estadão de 2018.
Segundo reportagem da Gazeta de Pinheiros de novembro de 2025, a Prefeitura apresentou o novo desenho como cerca de 37% mais barato que o anterior. A comparação exata depende de saber sobre qual valor antigo e em que data a conta foi feita, dado que não está no material divulgado.
A troca do túnel longo por vias de superfície tende a pesar para quem mora no traçado, porque obra na superfície ocupa terreno que o túnel deixaria intacto. O tamanho exato dessa diferença só vai aparecer quando as plantas de 2026 forem publicadas e puderem ser comparadas com o perímetro de 2009.
Nota de método
A linha do tempo foi montada com notas oficiais da Prefeitura e da SPObras, registros da Câmara Municipal e reportagens de veículos que tiveram acesso a dados da Prefeitura. Os contratos de 2011 não foram lidos na íntegra: os valores citados são os divulgados pela imprensa com base em dados oficiais.
Não foi encontrada fonte que coloque o túnel da Roberto Marinho entre as obras da Copa de 2014. A promessa para a Copa foi a Linha 17-Ouro, que corre na mesma avenida.
Esta reportagem é assinada por um morador do traçado da obra. A informação é declarada aqui por transparência.
Leia também
⚖️Desapropriação: o que a lei garante a quem mora no caminho da obra
Fontes
Prefeitura de São Paulo e SPObras, nota de esclarecimento sobre a suspensão das obras do túnel, 14 de fevereiro de 2013.
Câmara Municipal de São Paulo, aprovação da alteração da Operação Urbana Água Espraiada, julho de 2011.
O Estado de S. Paulo, reproduzido pela Exame, sobre os pagamentos aos consórcios, outubro de 2018.
Estadão Conteúdo, reproduzido pelo MEON, sobre a rescisão do contrato, fevereiro de 2020.
Diário do Transporte, Metrô de São Paulo e Metrô CPTM, sobre a inauguração da estação Washington Luís, junho de 2026.
Gazeta de Pinheiros, sobre o novo projeto, novembro de 2025.
Decretos municipais 51.037/2009 e 65.546/2026.
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