⏳ Áudio em breve
A castração química está no plano de Flávio Bolsonaro, e dois projetos sobre o tema esperam votação no Congresso
Li os seis planos de governo, os dois projetos de lei e o que dizem médicos e juristas. A promessa depende de lei, e não de emenda à Constituição, mas a dúvida sobre a Constituição continua.
›O que é a castração química
›Os projetos no Congresso
›Onde a promessa vai além dos projetos
›A dúvida sobre a Constituição
›Funciona?
›Como é lá fora
A promessa
Flávio Bolsonaro (PL), p. 14: “Vamos usar a força da Presidência da República e a nossa experiência legislativa para aprovar e implementar a castração química de criminosos que abusam de mulheres e crianças. A medida deverá ser aplicada a estupradores e abusadores de crianças condenados pela Justiça.”
Os planos de Lula, Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Augusto Cury e Renan Santos não tratam do tema. No de Lula, a palavra castração aparece só no programa de castração de cães e gatos.
O que é a castração química
Não é cirurgia. São remédios que derrubam a produção de testosterona e, com ela, o desejo sexual. Os mais citados são o acetato de medroxiprogesterona, o acetato de ciproterona e a leuprorrelina.
O efeito dura enquanto o remédio é tomado. Quando o tratamento para, a libido tende a voltar, segundo o Conselho Federal de Farmácia. Entre os efeitos colaterais citados por especialistas ouvidos pelo conselho estão depressão, osteoporose, ganho de peso e problemas cardiovasculares.
Os projetos no Congresso
| PL 3.976/2020 | PL 3.127/2019 | |
|---|---|---|
| Onde começou | Câmara, autor Aluisio Mendes | Senado, autor Styvenson Valentim |
| Quem pode receber | condenados em definitivo por abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes | reincidentes em estupro, estupro de vulnerável e violação sexual mediante fraude |
| Obrigatória ou voluntária | somada à pena, pelo texto aprovado; não fala em aceitação do condenado | voluntária, depois de cumprido um terço da pena |
| O que o preso ganha | nenhum benefício | pode pedir liberdade condicional; a pena não diminui |
| Onde está | Senado, na Comissão de Direitos Humanos, com o relator Fabiano Contarato (PT-ES) desde março de 2026; depois passa pelas comissões de Segurança Pública e de Constituição e Justiça | Câmara, desde junho de 2024, nas comissões de Saúde, de Segurança Pública e de Constituição e Justiça |
O PL 3.976/2020 nasceu para criar um cadastro nacional de condenados por crimes sexuais contra crianças. A castração química entrou no plenário da Câmara por um destaque do PL, contra o parecer da relatora, e foi aprovada por 267 votos a 85, com o governo orientando contra.
O PL 3.127/2019 foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado em maio de 2024, em caráter terminativo, e seguiu para a Câmara sem passar pelo plenário. Pelo texto, o tratamento dura no mínimo o dobro da pena máxima do crime, e as penas mínimas desses crimes sobem um ano.
Uma diferença em relação à maioridade penal. Aqui não é preciso emenda à Constituição: a castração química entraria por lei, que passa pelo Congresso e depois pela sanção ou veto do presidente. Isso não resolve a dúvida sobre se a lei seria constitucional, tratada mais abaixo.
Onde a promessa vai além dos projetos
O plano de Flávio fala em aplicar a medida a “estupradores e abusadores de crianças condenados pela Justiça”. É um alcance maior que o dos dois projetos:
- o da Câmara vale só para crimes sexuais contra crianças e adolescentes;
- o do Senado vale só para reincidentes, e só se o condenado aceitar.
O texto diz que a medida “deverá ser aplicada” aos condenados, o que indica aplicação obrigatória, sem depender de aceitação do preso e sem benefício em troca. Nesse ponto, a promessa fica mais perto do projeto da Câmara do que do projeto do Senado.
A dúvida sobre a Constituição
O artigo 5º da Constituição, que trata dos direitos e garantias individuais, proíbe penas cruéis, proíbe tratamento desumano ou degradante e garante ao preso o respeito à integridade física e moral.
A maior parte dos juristas que escrevem sobre o tema considera a castração química obrigatória uma pena cruel, porque interfere no corpo do condenado. O Instituto dos Advogados Brasileiros foi além e defendeu que até a versão voluntária é inconstitucional. Um dos argumentos usados nesse debate é que a escolha de um preso, feita em troca de liberdade, não é livre.
Quem defende a constitucionalidade argumenta que toda pena causa sofrimento, que o tratamento é reversível e que, na forma voluntária, ele é uma condição para um benefício, e não uma pena imposta. Na Câmara, os defensores lembraram que a medida existe em países como Estados Unidos, Austrália e Inglaterra.
O STF nunca julgou o tema, porque nenhuma lei sobre castração química chegou a ser aprovada.
Não sou jurista. Registro aqui os dois lados como aparecem no debate, sem tomar posição sobre qual está certo.
Funciona?
Os especialistas divergem. O psiquiatra Danilo Baltieri, que estuda transtornos sexuais, disse ao Conselho Federal de Farmácia que não há prova científica de que a castração química reduza a reincidência. Para o urologista Eduardo Miranda, da Sociedade Brasileira de Urologia, “a testosterona não é a causa da violência sexual”.
No Reino Unido, uma revisão independente das penas, publicada em 2025, citou pesquisas que apontam queda de até 60% na reincidência de quem faz o tratamento. A mesma revisão ressalvou que ele não serve para estupradores movidos por poder e controle, e não por desejo sexual.
Como é lá fora
Nos Estados Unidos, a Califórnia foi o primeiro estado a adotar a medida, em 1996, e outros estados, como Flórida e Texas, seguiram. No Reino Unido, um programa voluntário funciona em prisões do sudoeste da Inglaterra desde 2022. Em maio de 2025, o governo anunciou a ampliação para 20 prisões e disse estudar torná-lo obrigatório em alguns casos. Coreia do Sul e Polônia estão entre os países que também preveem o tratamento, com regras diferentes entre si.
Nota de método
Segunda matéria da série Promessa e Constituição, que compara promessas dos planos de governo com o que a Constituição exige para que elas saiam do papel. Busquei o termo castração nos seis planos registrados no TSE e conferi a tramitação dos projetos nos sites da Câmara e do Senado.
Apuração independente de Alexander Moraes, estudante de jornalismo, sem formação jurídica.
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Fontes
Plano de governo de Flávio Bolsonaro registrado no TSE, p. 14, e demais planos para a busca do termo. Constituição Federal, art. 5º, incisos III, XLVII e XLIX, e art. 60.
PL 3.976/2020: Poder360 e CNN Brasil (dezembro de 2024), Agência Câmara e ficha no Senado (março de 2026). PL 3.127/2019: ficha no Senado, Agência Pública (22/05/2024) e Agência Câmara (04/09/2024).
Efeitos e eficácia: Conselho Federal de Farmácia (16/12/2024) e CNN Brasil (19/06/2026). Debate constitucional: Estratégia Concursos (2018) e Instituto dos Advogados Brasileiros. Reino Unido: RTP (23/05/2025). Outros países: Correio Braziliense (maio de 2024).
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