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Castração química para estupradores: o que Flávio promete e o que já tramita no Congresso

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Eleições 2026 · Promessa e Constituição

A castração química está no plano de Flávio Bolsonaro, e dois projetos sobre o tema esperam votação no Congresso

Li os seis planos de governo, os dois projetos de lei e o que dizem médicos e juristas. A promessa depende de lei, e não de emenda à Constituição, mas a dúvida sobre a Constituição continua.

1
Plano propõe
o de Flávio Bolsonaro, entre os seis que li
2
Projetos em andamento
um no Senado e outro na Câmara
267
Votos a favor na Câmara
em dezembro de 2024
📄

A promessa

Flávio Bolsonaro (PL), p. 14: “Vamos usar a força da Presidência da República e a nossa experiência legislativa para aprovar e implementar a castração química de criminosos que abusam de mulheres e crianças. A medida deverá ser aplicada a estupradores e abusadores de crianças condenados pela Justiça.”

Os planos de Lula, Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Augusto Cury e Renan Santos não tratam do tema. No de Lula, a palavra castração aparece só no programa de castração de cães e gatos.

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O que é a castração química

Não é cirurgia. São remédios que derrubam a produção de testosterona e, com ela, o desejo sexual. Os mais citados são o acetato de medroxiprogesterona, o acetato de ciproterona e a leuprorrelina.

O efeito dura enquanto o remédio é tomado. Quando o tratamento para, a libido tende a voltar, segundo o Conselho Federal de Farmácia. Entre os efeitos colaterais citados por especialistas ouvidos pelo conselho estão depressão, osteoporose, ganho de peso e problemas cardiovasculares.

🏛️

Os projetos no Congresso

PL 3.976/2020 PL 3.127/2019
Onde começou Câmara, autor Aluisio Mendes Senado, autor Styvenson Valentim
Quem pode receber condenados em definitivo por abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes reincidentes em estupro, estupro de vulnerável e violação sexual mediante fraude
Obrigatória ou voluntária somada à pena, pelo texto aprovado; não fala em aceitação do condenado voluntária, depois de cumprido um terço da pena
O que o preso ganha nenhum benefício pode pedir liberdade condicional; a pena não diminui
Onde está Senado, na Comissão de Direitos Humanos, com o relator Fabiano Contarato (PT-ES) desde março de 2026; depois passa pelas comissões de Segurança Pública e de Constituição e Justiça Câmara, desde junho de 2024, nas comissões de Saúde, de Segurança Pública e de Constituição e Justiça

O PL 3.976/2020 nasceu para criar um cadastro nacional de condenados por crimes sexuais contra crianças. A castração química entrou no plenário da Câmara por um destaque do PL, contra o parecer da relatora, e foi aprovada por 267 votos a 85, com o governo orientando contra.

O PL 3.127/2019 foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado em maio de 2024, em caráter terminativo, e seguiu para a Câmara sem passar pelo plenário. Pelo texto, o tratamento dura no mínimo o dobro da pena máxima do crime, e as penas mínimas desses crimes sobem um ano.

Uma diferença em relação à maioridade penal. Aqui não é preciso emenda à Constituição: a castração química entraria por lei, que passa pelo Congresso e depois pela sanção ou veto do presidente. Isso não resolve a dúvida sobre se a lei seria constitucional, tratada mais abaixo.

🔍

Onde a promessa vai além dos projetos

O plano de Flávio fala em aplicar a medida a “estupradores e abusadores de crianças condenados pela Justiça”. É um alcance maior que o dos dois projetos:

  • o da Câmara vale só para crimes sexuais contra crianças e adolescentes;
  • o do Senado vale só para reincidentes, e só se o condenado aceitar.

O texto diz que a medida “deverá ser aplicada” aos condenados, o que indica aplicação obrigatória, sem depender de aceitação do preso e sem benefício em troca. Nesse ponto, a promessa fica mais perto do projeto da Câmara do que do projeto do Senado.

⚖️

A dúvida sobre a Constituição

O artigo 5º da Constituição, que trata dos direitos e garantias individuais, proíbe penas cruéis, proíbe tratamento desumano ou degradante e garante ao preso o respeito à integridade física e moral.

A maior parte dos juristas que escrevem sobre o tema considera a castração química obrigatória uma pena cruel, porque interfere no corpo do condenado. O Instituto dos Advogados Brasileiros foi além e defendeu que até a versão voluntária é inconstitucional. Um dos argumentos usados nesse debate é que a escolha de um preso, feita em troca de liberdade, não é livre.

Quem defende a constitucionalidade argumenta que toda pena causa sofrimento, que o tratamento é reversível e que, na forma voluntária, ele é uma condição para um benefício, e não uma pena imposta. Na Câmara, os defensores lembraram que a medida existe em países como Estados Unidos, Austrália e Inglaterra.

O STF nunca julgou o tema, porque nenhuma lei sobre castração química chegou a ser aprovada.

Não sou jurista. Registro aqui os dois lados como aparecem no debate, sem tomar posição sobre qual está certo.

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Funciona?

Os especialistas divergem. O psiquiatra Danilo Baltieri, que estuda transtornos sexuais, disse ao Conselho Federal de Farmácia que não há prova científica de que a castração química reduza a reincidência. Para o urologista Eduardo Miranda, da Sociedade Brasileira de Urologia, “a testosterona não é a causa da violência sexual”.

No Reino Unido, uma revisão independente das penas, publicada em 2025, citou pesquisas que apontam queda de até 60% na reincidência de quem faz o tratamento. A mesma revisão ressalvou que ele não serve para estupradores movidos por poder e controle, e não por desejo sexual.

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Como é lá fora

Nos Estados Unidos, a Califórnia foi o primeiro estado a adotar a medida, em 1996, e outros estados, como Flórida e Texas, seguiram. No Reino Unido, um programa voluntário funciona em prisões do sudoeste da Inglaterra desde 2022. Em maio de 2025, o governo anunciou a ampliação para 20 prisões e disse estudar torná-lo obrigatório em alguns casos. Coreia do Sul e Polônia estão entre os países que também preveem o tratamento, com regras diferentes entre si.

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Nota de método

Segunda matéria da série Promessa e Constituição, que compara promessas dos planos de governo com o que a Constituição exige para que elas saiam do papel. Busquei o termo castração nos seis planos registrados no TSE e conferi a tramitação dos projetos nos sites da Câmara e do Senado.

Apuração independente de Alexander Moraes, estudante de jornalismo, sem formação jurídica.

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Fontes

Plano de governo de Flávio Bolsonaro registrado no TSE, p. 14, e demais planos para a busca do termo. Constituição Federal, art. 5º, incisos III, XLVII e XLIX, e art. 60.

PL 3.976/2020: Poder360 e CNN Brasil (dezembro de 2024), Agência Câmara e ficha no Senado (março de 2026). PL 3.127/2019: ficha no Senado, Agência Pública (22/05/2024) e Agência Câmara (04/09/2024).

Efeitos e eficácia: Conselho Federal de Farmácia (16/12/2024) e CNN Brasil (19/06/2026). Debate constitucional: Estratégia Concursos (2018) e Instituto dos Advogados Brasileiros. Reino Unido: RTP (23/05/2025). Outros países: Correio Braziliense (maio de 2024).

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