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Lula x Flávio: todas as pesquisas do segundo turno
Oito institutos divulgaram pesquisas nacionais de segundo turno depois da apuração de 4 de outubro. Flávio Bolsonaro aparece à frente em sete, com 51,8% a 55% dos votos válidos. Em quatro delas, a diferença cabe na margem de erro. Juntei todas numa tabela, refiz as contas de margem e mostrei de onde vem a vantagem.
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O placar: Flávio lidera em sete das oito pesquisas; a Vox Brasil traz Lula 1,5 ponto à frente, dentro da margem.
Nos votos válidos: Flávio vai de 51,8% (Futura) a 55% (Gerp).
Margem: em quatro pesquisas as faixas dos dois se encostam ou se cruzam. Em outras quatro, a vantagem de Flávio fica fora da margem.
Por quê: quem votou em Cury, Renan Santos, Caiado e os demais migra mais para Flávio. Só essa migração explica quase toda a vantagem.
Cautela: as pesquisas da véspera do primeiro turno davam Lula na frente, e a urna inverteu.
O que vem: Quaest na quarta (14), às 18h, e Datafolha na quinta (15).
As oito pesquisas depois do primeiro turno
Desde a apuração de 4 de outubro, oito institutos registraram e divulgaram pesquisas nacionais de segundo turno até 13 de outubro. Flávio Bolsonaro (PL) aparece numericamente à frente em sete. A exceção é a Vox Brasil, que traz Lula (PT) com 1,5 ponto a mais, dentro da margem de erro.
| Instituto (contratante) | Entrevistas | Divulgação | Amostra e margem | Votos totais: Flávio x Lula | Votos válidos: Flávio x Lula |
|---|---|---|---|---|---|
| PoderData/Aya (Poder360) | 5 a 7/10 | 8/10 | 3.000; 1,8 ponto | não localizei | 53% x 47% |
| Datafolha (Folha e TV Globo) | 6 a 7/10* | 8/10 | 2.520; 2 pontos | 49% x 45% | 52% x 48% |
| Vox Brasil (próprio instituto) | 5 a 7/10 | 9/10 | 2.100; 2,15 pontos | 42,7% x 44,2% | não publicou |
| AtlasIntel (Bloomberg) | 3 a 8/10 | 9/10 | 5.026; 1 ponto | 51,1% x 45,7% | 52,8% x 47,2% |
| Ipespe (recursos próprios) | 6 a 8/10 | 10/10 | 1.500; 2,6 pontos | 49% x 44% | 52,7% x 47,3% |
| DataTrends | 7 a 9/10 | 11/10 | 2.000; 2,19 pontos | 50% x 44% | 53,1% x 46,9% |
| Futura (100% Cidades) | 7 a 10/10 | 13/10 | 2.000; 2,2 pontos | 50% x 46,6% | 51,8% x 48,2% |
| Gerp (próprio instituto) | 8 a 12/10 | 13/10 | 2.400; 2 pontos | 53% x 44% | 55% x 45% |
* O Datafolha aparece com entrevistas de 6 a 7 de outubro em parte dos veículos e de 6 a 8 em outros. Todas as pesquisas usam 95% de confiança, a não ser a Gerp, que informa 95,55%.
Fontes da tabela: PoderData e Ipespe (Poder360); Datafolha (CNN Brasil; Metrópoles; O Liberal); AtlasIntel (Money Times); Futura (Exame); Gerp (Gazeta do Povo); Vox Brasil e DataTrends (Jornal Grande Bahia).
Somando os votos válidos das sete pesquisas que publicaram esse número, a média simples dá 52,9% para Flávio e 47,1% para Lula. É conta minha, sem peso por tamanho de amostra nem por método, e serve só como resumo do conjunto: pesquisa não se soma como urna.
Vantagem ou empate técnico?
A imprensa costuma falar em empate técnico quando as faixas dos dois candidatos se encostam ou se cruzam, depois de aplicada a margem para mais e para menos. Pela régua mais simples, que é essa, o placar fica dividido ao meio.
| Pesquisa | Faixa de Flávio | Faixa de Lula | Leitura |
|---|---|---|---|
| Datafolha | 47% a 51% | 43% a 47% | as faixas se encostam em 47% |
| Vox Brasil | 40,6% a 44,9% | 42,1% a 46,4% | as faixas se cruzam |
| Ipespe | 46,4% a 51,6% | 41,4% a 46,6% | as faixas se cruzam |
| Futura | 47,8% a 52,2% | 44,4% a 48,8% | as faixas se cruzam |
| AtlasIntel | 50,1% a 52,1% | 44,7% a 46,7% | vantagem fora da margem |
| DataTrends | 47,8% a 52,2% | 41,8% a 46,2% | vantagem fora da margem |
| Gerp | 51% a 55% | 42% a 46% | vantagem fora da margem |
| PoderData/Aya | 51,2% a 54,8%* | 45,2% a 48,8%* | vantagem fora da margem |
Faixas calculadas por mim sobre os votos totais. * No PoderData, só localizei os votos válidos, então apliquei a margem sobre eles.
Há um detalhe que a régua simples esconde: a margem de erro vale para cada candidato. A margem da diferença entre os dois, numa disputa apertada, chega perto do dobro. Por isso uma vantagem de 4 pontos numa pesquisa com margem de 2 fica na fronteira, e não deve ser lida nem como vitória certa nem como empate perfeito.
De onde vem a vantagem de Flávio
O ponto de partida é a urna. No primeiro turno, Flávio teve 56.104.503 votos (47,03% dos válidos) e Lula, 53.879.538 (45,16%). Os outros dez candidatos somaram 7,81% dos válidos, com Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD) acima de 2% cada (TSE; DGABC).
O Datafolha perguntou a quem votou nesses candidatos o que fará no segundo turno: 46% dizem Flávio, 32% dizem Lula e 15% votam em branco ou nulo (CNN Brasil). Fiz a conta aplicando essa divisão aos votos do primeiro turno, sem mudar mais nada: Flávio iria a cerca de 51,5% dos válidos e Lula a 48,5%. É muito perto dos 52% a 48% que o próprio Datafolha mediu. Ou seja, a vantagem atual se explica quase toda pela migração de quem ficou pelo caminho.
Os recortes do Datafolha mostram o mapa de cada lado. Lula lidera no Nordeste (61% a 35%), entre quem ganha até dois salários mínimos (52% a 41%) e entre católicos (53% a 41%). Flávio lidera no Sul (58% a 35%) e entre evangélicos (69% a 25%). E 94% dos eleitores dizem que já decidiram o voto (CNN Brasil).
Falta uma variável que nenhuma pesquisa resolve sozinha: quem vai votar. A abstenção do primeiro turno foi de 21,08%, a maior desde 1998 (DGABC). Num segundo turno decidido por poucos pontos, 33 milhões de ausentes pesam mais do que qualquer margem de erro.
O tropeço do primeiro turno
As últimas pesquisas antes de 4 de outubro mostravam Lula à frente. A urna inverteu a ordem.
| Pesquisa (véspera) | Lula | Flávio | Diferença prevista | Urna (Lula 45,16% x Flávio 47,03%) |
|---|---|---|---|---|
| Quaest | 46% | 45% | Lula +1 | errou o líder por pouco, no limite da margem |
| Datafolha | 45% | 42% | Lula +3 | errou o líder |
| AtlasIntel | 47% | 44,1% | Lula +2,9 | errou o líder, fora da margem de 1 ponto |
| CNT/MDA | 47,8% | 42,1% | Lula +5,7 | errou o líder |
| Palver | 43% | 47% | Flávio +4 | acertou o líder |
Números de véspera em votos válidos, conforme A Crítica (A Crítica); o da CNT/MDA, conforme a Revista Fórum (Revista Fórum). A coluna da direita é leitura minha.
O estatístico Raphael Nishimura, da Universidade de Michigan, lembra que pesquisa é retrato do momento, e que parte do eleitorado decide na véspera ou no próprio dia. Andrei Roman, da AtlasIntel, levantou a hipótese de que os institutos não captaram eleitores que mudaram de lado desde 2022, sobretudo em cidades menores. Beto Vasques, da FESPSP, fala em “antipetismo de chegada”: eleitores de terceira via que migraram no fim para quem tinha mais chance contra o PT (A Crítica).
O erro foi na mesma direção nos quatro institutos tradicionais da tabela; a Palver, que pesquisa pela internet, apontou Flávio à frente. Isso não anula as pesquisas do segundo turno, mas pede cautela com diferenças pequenas.
As próximas pesquisas
- Quaest (TV Globo e O Globo): divulgação na quarta-feira, 14 de outubro, a partir das 18h. Entrevistas de 10 a 13 de outubro, 2.154 pessoas, margem de 2 pontos, registro BR-08729/2026.
- Datafolha (Folha de S.Paulo): divulgação na quinta-feira, 15 de outubro. Entrevistas de 13 a 15 de outubro, 2.520 pessoas, margem de 2 pontos, registro BR-00466/2026.
- Segundo turno: domingo, 25 de outubro.
Agenda conforme (O Povo) e data do segundo turno conforme (Poder360).
📎 Para quem quer conferir: como checar uma pesquisa
- Pela Lei das Eleições (Lei 9.504/1997, art. 33), toda pesquisa divulgada precisa ser registrada na Justiça Eleitoral até cinco dias antes, com contratante, valor, metodologia, questionário e plano amostral.
- O registro (formato BR-00000/2026) pode ser consultado no sistema PesqEle, do TSE. Divulgar pesquisa sem registro é crime eleitoral.
- Votos válidos excluem brancos, nulos e indecisos. É a mesma conta que o TSE faz no resultado oficial.
- Margem de erro de 2 pontos com 95% de confiança quer dizer: se a pesquisa fosse repetida 100 vezes do mesmo jeito, em cerca de 95 o resultado ficaria a até 2 pontos do número divulgado.
🔎 Conferi o que circulou
- “Datafolha mostra empate técnico.” Nos votos totais, 49% a 45% com margem de 2 pontos: as faixas se encostam exatamente em 47%. É fronteira. Nos votos válidos, o mesmo levantamento dá 52% a 48%. As duas leituras aparecem na imprensa, e nenhuma está errada; o que não se sustenta é tratar o número como vitória definida de qualquer lado.
- “Vox Brasil mostra Lula com 50,86%.” O instituto publicou votos totais, 44,2% a 42,7%, dentro da margem. A conversão para votos válidos foi feita por um site, não pela Vox Brasil (Jornal Grande Bahia).
- “Registro BR-0949/2026.” Saiu assim na CNN Brasil para o Datafolha de 8 de outubro. Metrópoles e O Liberal trazem BR-02949/2026, que é o formato correto, com cinco dígitos (CNN Brasil; Metrópoles).
- “AtlasIntel é a primeira pesquisa do segundo turno.” As entrevistas começaram em 3 de outubro, um dia antes da votação, e terminaram em 8. Parte dos entrevistados respondeu sem saber o resultado do primeiro turno (Money Times).
- “As pesquisas erraram, então não servem.” Erraram o líder do primeiro turno, e isso precisa ser dito. Mas a Quaest ficou a cerca de 2 pontos de cada candidato, no limite da margem, a Palver acertou o líder, e o retrato do segundo turno vem de oito institutos com métodos diferentes que apontam para o mesmo lado. Cautela, sim; descarte, não.
Como apurei
Reuni todas as pesquisas nacionais de segundo turno registradas no TSE e divulgadas de 8 a 13 de outubro de 2026. Os relatórios completos ficam com os contratantes e no registro do TSE; os números vieram dos veículos que contrataram ou reproduziram cada pesquisa, e, quando houve divergência de registro ou de data, conferi em pelo menos duas fontes e apontei a diferença. As faixas de margem, a média simples e a simulação da migração de votos são contas minhas. O resultado oficial do primeiro turno vem do TSE. Não incluí pesquisas estaduais nem as que mediram só o primeiro turno. Dados até a manhã de 14 de outubro de 2026, antes da Quaest das 18h.
Apuração independente de Alexander Moraes, estudante de jornalismo, sem formação jurídica. Não sou jurista: os trechos sobre leis explicam regras gerais e não são parecer jurídico.
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